FKA Twigs (foto de Matthew Stone)

Mês em Música | Playlist de Novembro 2019

Na Playlist de Novembro, com 2019 a findar sob o reinado de FKA Twigs, não faltam canções a garantir que a próxima década não ficará atrás desta.

O Natal ainda vai, apesar de tudo, longe (afinal, o Advento só agora começou) e já as listas dos melhores álbuns da década invadem a rede, com todas as publicações a quererem antecipar-se a cristalizar, talvez prematuramente, o corpus que a década dos 2010s deverá legar ao futuro e a imagem que dela deverão ter os vindouros. Sempre com ironia, claro está. Qualquer corpus está sujeito a revisionismo, toda a imagem pede desconstrução e metamorfose. Mas porque mitos são sempre difíceis de sacudir – e não vá a ironia acabar em tragédia – o melhor é agir com prudência. Livres daqueles intuitos mediáticos que nos fazem cair na precipitação e no erro, demos (algum) tempo ao tempo e esperemos, pelo menos até meados do próximo ano, para olhar com cuidado para a década que ficou para trás e construir ainda mais cuidadosamente a década que ficará para a História.

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Enquanto isso, aproveitemos bem o tempo que resta até nos engasgarmos com as últimas passas da década e demo-nos conta de quão vivo está ainda este moribundo que todos se apressam a enterrar, ainda o pobre canta e dança julgando-se eterno. Pois que outra razão haverá para cantar e dançar senão a vida e o que ela traz, não importa que o dia seja triste, ou a vida de cão? Por aqui, como se vê pela nossa Playlist de Novembro, mesmo com todo o abrandamento do final de ano e a escassez de álbuns notáveis, cantou-se e dançou-se ao som de alguns grandes singles, do qual “sad day” é o maior, disso não restam dúvidas.

Playlist de Novembro | Os singles

A mais melódica das faixas de MAGDALENE não é também a mais intensa só por essa razão, mesmo se a melodia de “sad day” é irresistivelmente envolvente, fundindo a contemporaneidade do pop experimental com uma fugidia beleza clássica. A elegante suavidade do canto de Tahliah Barnett, a suplicar e incentivar ao risco num ornamentado legato, contrasta com as notas explosivas e estilhaçadas do baixo, a atacar por todo o lado a voz seráfica que ascende, contida, no seio de toda a turbulência. Tudo está ao serviço do momento mais poético do álbum, onde a tristeza, cujo travo atravessa e amarga cada canção, acaba derrotada pela indomabilidade do coração. Nada há no mundo, sempre igual a si mesmo, que faça crer que desta vez será diferente. E no entanto, mesmo se “I’ve made you sad before”, é impossível não voltar a pedir e a apostar tudo na promessa do amor que vem: “Take a chance on all the things you can’t see/ Make a wish on all that lives within thee/ If you’re foolishly in love with me/ It’s a fine day for sure”. (MPA)

FKA TWIGS | “SAD DAY”

Sophie Allison tem toda a razão em se orgulhar de “Yellow is the color of her eyes”. E em se orgulhar pela razão que ela própria avança: “É também uma canção que julgo que mostra realmente a minha composição no que respeita a instrumentação”. Espraiando-se por cerca de sete minutos, a canção vai ondulando sonolentamente, com as melodias da voz, da guitarra e dos teclados a desenvolverem-se repetitivas, num suave lamento. Intensificado por uma produção alusiva ao ambiente intimista do lo-fi, tudo soa a um queixume murmurado interiormente, facilmente associável às razões que, pelos vistos, estiveram na origem da canção. O tema nunca se torna, contudo, monótono por causa de uma corrente submarina de actividade percussiva e dos dedilhados da guitarra que vão pontuando e agitando a canção. Toda esta discreta, mas sempre presente, actividade emerge, no final, à superfície com o crescendo da coda, quase explosiva. Soccer Mommy criou um pequeno épico que faz jus às penas e nostalgia de estar em digressão, longe de casa. (MPA)

SOCCER MOMMY | “YELLOW IS THE COLOR OF HER EYES”

Playlist de Novembro | Debaixo d’olho

Uma esmagadora bateria engrandecida pela mistura. A linha de baixo que a acompanha tão eficientemente, como se de unha e carne se tratassem. O teledisco que progride com a canção, onde a banda atua perante uma fervorosa audiência constituída por crowdsurfers e jovens que cantam em uníssono, abanando ininterruptamente a cabeça. Os Dogleg, quarteto originário de Ann Arbor, Michigan, preparam-se para lançar o seu álbum de estúdio inaugural. “Fox”, single divulgado pela editora discográfica nova-iorquina Triple Crown Records, deixa boas indicações para o futuro próximo.

Como é costume entre bandas DIY, o vocalista e guitarrista Alex Stoitsiadis começou por compor e gravar algumas canções na sua cave, recorrendo a equipamento emprestado. Em pouco tempo, juntaram-se a Alex Stoitsiadis o guitarrista rítmico Parker Grissom, o baixista Chase Macinski e o baterista Jacob Hanlon, dando assim origem ao projeto Dogleg com a formação que hoje conhecemos.

Playlist de Novembro - Fox - Dogleg
Dogleg (foto de Kris Herrmann)

A sonoridade dos Dogleg bebe da simplicidade e eficiência melódica do pop-punk da década de 2000, apesar da sua evidente propensão para a experimentação e destruição das barreiras que discernem os géneros musicais. As músicas que compõem podem ser regularmente caracterizadas pela acentuada sensação de revolta juvenil refletida não só nas letras, mas também nos gemidos guturais e harmonizados. “Fox” não foge à excepção. Os refrões gritados em coro relembram “Soco Amaretto Lime”, a derradeira faixa de Your Favorite Weapon (2001), disco de estreia da banda emo Brand New. Todavia, as similaridades entre as canções não se limitam a esta técnica de melodia vocal distintiva do pós-hardcore ou da terceira vaga de emo. A melancólica progressão de acordes tocados na guitarra acústica em “Soco Amaretto Lime” expõe o enlevo da juventude residente nas pequenas cidades norte-americanas com um perene estado de espírito desesperançado e com o desregrado estilo de vida derivante da convicção de que a existência se encontra desprovida de sentido. Jesse Lacey, vocalista e guitarrista rítmico dos Brand New, demonstra, em primeira pessoa, o seu apreço pelos days of wine and roses e a conformação com o perpétuo aprisionamento à terra natal. Já em “Fox”, Alex Stoitsiadis, residente na Região Centro-Oeste dos Estados Unidos da América, pranteia por um ente querido que fugiu em busca de uma vida melhor, sacrificando desta forma a essência que sempre lhe foi reconhecida pelo membro dos Dogleg: “I saw your face in a magazine in a daydream and it cut me off”.

A temática tão comum deste género de nicho, porém permanentemente relacionável para o público-alvo, e a melodia contagiante, quando combinadas com tamanha eficácia, tornam “Fox” numa séria candidata a uma das canções favoritas do ano para os apreciadores de pop-punk. No entanto, o mais recente single dos Dogleg destaca-se da competição em virtude das suas particularidades. Alex Stoitsiadis começa por entoar a solo o seu verso mais assolador, arcando, desamparado, com esta mágoa: “Any moment now, I will disintegrate”. Eventualmente, à voz desacompanhada de Alex Stoitsiadis juntam-se os gritos de uma comunidade e o peso passa a ser carregado em conjunto: “You’ll make your move and I will fade out”. O vocalista e guitarrista dos Dogleg descobre neste círculo afetivo o seu porto seguro e o sentimento é recíproco por parte dos seus companheiros de longa data. Contudo, nos efémeros momentos em que a sua voz é novamente abandonada, entendemos que a jornada catártica de Alex Stoitsiadis depende, em última instância, da sua exclusiva força de vontade para esquecer e seguir em frente. Se o disco de estreia dos Dogleg der continuidade a esta vívida homenagem ao género de música que representa, não através do quadro mais amplo, mas sobretudo das subtilezas detetadas na sua estrutura, então teremos em mãos um álbum de estúdio que transformará profundamente o paradigma actual do pop-punk… para melhor. (DAP)

DOGLEG | “FOX”

Se há um álbum a que vale a pena estar atento, com os dois singles saídos até à data a entusiasmarem-nos e a criar expectativas de um longa-duração intenso, é o New Dreams de JFDR. Queremos, por isso, destacá-lo nesta nossa Playlist de Novembro. Com o seu art-pop etéreo mas nem por isso menos visceral, a islandesa Jófríður Ákadóttir prepara-se para nos oferecer um segundo registo cheio de drama introspectivo, um documento de auto-consciência cuja atmosfera e meditações trazem à memória o To the Lighthouse, de Virginia Woolf. “Taking a Part of Me”, com a sua musicalidade tremulante, qual vento a fustigar as cortinas, era um hino de gratidão ao crescimento trazido por uma relação, ainda que malograda: “Thank you for (…) Pulling me, spreading me/ Further and closer and wider/ Loving me, losing me, wanting me, seeing me/ Making me see what is tender and sweet in me”.

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Agora, “My Work” é a captura daqueles momentos em que levantamos o olhar do trabalho para o perdermos no horizonte para lá da janela, recuperando por um breve instante a nossa humanidade, a consciência daquele eu de que fugimos afogando-nos em trabalho. Na consciência de JFDR, é a mãe quem emerge, como presença amada que é toda a medida do bem e do mal: “Oh, mother, would you cry if you hear this song? (…) would you cry if I tell you the things I have done? Hurried my death and done my beauty so wrong”. E ainda que não lhe ouvíssemos as palavras, bastariam os crescendos de sossegada agonia da voz, o canto em aspirado staccato, tudo sobre as melodias repetitivas, insistentes das guitarras, para nos revelar a dor que pode relampejar, lancinante, nestes instantes de consciência. (MPA)

JFDR | “MY WORK”

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Maria Pacheco de Amorim

Literatura, cinema, música e teoria da arte. Todas estas coisas me interessam, algumas delas ensino. Sou bastante omnívora nos meus gostos, mas não tanto que alguma vez vejam "Justin Bieber" escrito num texto meu (para além deste).

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