Mergulho Profundo, em análise

Em Mergulho Profundo, encontramos um quarteto de glamourosas personalidades a viver uma tempestade de fervores eróticos numa pequena ilha banhada pelo Mediterrâneo.

Na sua mais recente obra, Mergulho Profundo, Luca Guadagnino pegou em La Piscine como base para esta exploração, descartando a elegante frieza do filme francês e concretizando uma obra em que o prazer sensorial e a volatilidade das emoções são colocadas em lugar de primazia. Tal como no clássico com Alain Delon e Romy Schneider, encontramos um casal em glamourosa isolação, aqui na ilha de Pantelleria, quando a sua pacífica existência é interrompida pela chegada de um antigo amor e sua filha.

Em Mergulho Profundo, o sol à volta do qual todo o enredo revolve é a estrela de rock Marianne Lane, aqui encarnada pela belissimamente alien Tilda Swinton. Depois de uma cirurgia que a pode deixar com danos irreparáveis nas cordas vocais ela encontra-se em recuperação com o seu jovem namorado, Paul (Matthias Schoenaerts), quando o seu antigo produtor e amante, Harry (Ralph Fiennes), aparece acompanhado de uma filha apenas recentemente descoberta, Penelope (Dakota Johnson). O propósito de Harry nesta viagem depressa se revela com os seus constantes apelos a Marianne para estes reatearem a fogosa relação que há anos tinham sofrido, enquanto Penelope se revela como uma figura de explosiva luxúria adolescente ao tentar seduzir Paul.

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Esta é longe de ser a primeira colaboração entre o realizador e a maravilha que é Tilda Swinton, sendo que muitos ainda se recordarão do épico de operática sensualidade que foi Eu Sou o Amor. Em Mergulho Profundo, Guadagnino deixa que o seu filme se inebrie com a presença de Swinton, exacerbando a sua sedutora androginia e transmutando a sua musa numa figura que tanto se assemelha a uma versão feminina de David Bowie, se Ziggy Stardust tivesse sido marcado por gostos punk, como a um indecifrável espectro de uma distante Ingrid Bergman perdida por entre a paisagem italiana. A atriz, formidável como sempre, é quase que um fenómeno estético em lugar de ser um humano, tornando Lane numa figura tão misteriosa como contraditoriamente terrena. Tal como Dakota Johnson profere no filme, ela parece demasiado doméstica para ser uma estrela de rock, no entanto é fácil perceber o tipo de hipnótico feitiço que esta figura poderá ter exercido sobre audiências internacionais como divindade musical.

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Apesar de Swinton ser a figura a quem Guadagnino oferece o filme numa bandeja áurea, os restantes membros deste quarteto de epítetos carnais não se deixam ofuscar pela magnificência da escocesa. Ralph Fiennes, em particular, é um turbilhão de energia febril, concebendo o perfeito balanço entre apelativo carisma e insuportável abrasão que tanto caracteriza a inconveniente presença da sua gritante personagem. As recentes aventuras do ator em registos mais cómicos têm sido uma delícia para quaisquer fãs do seu trabalho, sendo que Harry Hawkes é mais uma joia para acrescentar à sua triunfante filmografia. Menos excitante, mas também mais subtil, é Matthias Schoenaerts cujo difícil trabalho depende da sua habilidade para silenciosamente telegrafar os desejos, inseguranças e reprimidos impulsos que vão guiando os comportamentos do realizador de documentários que está a interpretar. Tudo isto o ator belga consegue fazer, ao mesmo tempo não descurando o seu invariável papel enquanto objeto de luxuriante carnalidade masculina. Apesar de uma carreira infinitamente menos ilustre que a dos seus colegas de cena, Dakota Johnson também não descura, sendo que o seu papel é essencialmente regido por superficialidades e momentos de sedução até à turbulenta conclusão do filme.

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Tal como a o movimento que quebra a rígida serenidade da pintura de David Hockney do qual o filme tira o seu título original, Harry é uma injeção de caos no paraíso, rasgando cicatrizes antigas com uma jovial despreocupação, até que o turbilhão de emoções e desejos que as suas ações despoletam acabam por vitimar o seu próprio criador. Nos seus jogos de ensandecido prazer e harmoniosa contenção, Guadagnino construiu um retrato de surpreendente complexidade humana, como que levando a emoção ao extremo quase abstrato como meio para a melhor capturar em filme. Pelo excesso, ele vê a harmonia, pela abstração, o concreto, com o superficial minimalismo sentimental, ele desperta vulcões de complicadas histórias pessoais.

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Vulcânico é também o estilo formal de Guadagnino que acaba por tornar Mergulho Profundo numa explosão de híper-sensualidade, que se revolta contra qualquer forma de constrita repressão cinematográfica. Pode ser vazio humano o que Guadagnino acaba por encontrar nas suas explorações epicúrias, mas é inegável quanto prazer sensorial o realizador consegue despertar no espetador, enquanto o guia por entre as suas narrativas hedonistas. Os figurinos são de uma elegância sem igual no atual panorama do cinema europeu, sua harmonia e antagonismos com o espaço em que se inserem e as pessoas que as vestem lembram as cuidadas relações entre paisagem e figura humana que caracterizaram tanto do trabalho de Michelangelo Antonioni na década de 60. A música, por sua vez, não podia distanciar-se mais da austeridade antidramática desse antigo mestre do cinema, com o rock a revelar-se como uma espécie de religião pagã e não tanto como mero acompanhamento musical para o drama narrativo. Som e imagem são, por consequência, levados a extremos de hedonismo cinematográfico, mas até o sabor parece ser sugerido pela criação de Guadagnino, com uma inteira cena focada no fabrico de queijo Ricotta.

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Apesar de toda esta maravilha sensorial, é surpreendente quanto Mergulho Profundo parece ser um filme sobre a abnegação de tais prazeres. Sob a lente de Guadagnino, a existência do casal da cantora e do realizador parece viver em harmonia antes dos excessos serem reintroduzidos na sua existência. Lane parece, por exemplo, um ser humano distinto daquele que vislumbramos nos decadentes flashbacks. O alcoolismo de Paul assombra  todo o filme como uma demónica presença ou uma espécie de maçã de Eva que irá expulsar todas estas personagens deste pacífico Jardim de Eden. Talvez abnegação seja um termo inapropriado, pois o equilíbrio que Marianne e Paul parecem procurar é algo mais próximo de noções clássicas de balanço, onde a hubris personificada em Harry é uma presença invariavelmente maligna.

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Apesar de toda esta tempestuosa história, na sua curiosa inserção da crise dos refugiados, Guadagnino parece realizar o mesmo truque que Mike Nichols fez em Quem tem Medo de Virginia Woolf? com o seu repentino uso de um plano geral perto do final do filme. Com um novo elemento narrativo e temático, a audiência é violentamente forçada a distanciar-se das microscópicas tramas do seu quarteto de perdidas figuras privilegiadas, e ponderar um mundo maior que se expande em seu redor. Não será esta ópera erótica apenas uma gota num oceano de humanidade em crise? Não será esta preocupação desmesurada com a vida de uma glamourosa celebridade uma fuga escapista a mais problemáticas realidades, cuja importância parece suplantar qualquer drama sentimental de Marianne Lane e sua entourage de amantes, admiradores e acompanhantes figuras de misteriosos desejo? No seu turbulento drama, o quarteto erótico de Mergulho Profundo revela quão insulares são as suas existências, quão vazias até. Este final golpe de mestre, lembra a conclusão de A Grande Beleza de Sorrentino, mas há algo de mais complicado, e por isso menos bem conseguido nesta obra de Guadagnino em que, apesar de continuar a explorar os limites da epicúria cinematográfica, este autor italiano parece estar a marcadamente amadurecer enquanto cineasta e esteta.

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O MELHOR: Toda a concretização formal do filme. Mesmo quem saia de Mergulho Profundo com a impressão que acabou de sofrer uma sessão de vácua masturbação intelectual, há-de conseguir extrair consideráveis prazeres do verdadeiro espetáculo sensorial que o filme generosamente oferece às suas audiências.

O PIOR: Por muito hipnótica e misteriosa que seja a presença de Swinton, os poucos vislumbres que temos dos feitos musicais de Marianne Lane não parecem particularmente merecedores da grandeza a la Bowie que o filme quer sugerir.



Título Original:
 A Bigger Splash

Realizador:  Luca Guadagnino
Elenco: Tilda Swinton, Dakota Johnson, Ralph Fiennes, Matthias Schoenaerts

NOS | Comédia | 2015 | 124 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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