Mergulho Profundo | A beleza hipnótica do seu vestuário

Protagonizado por Tilda Swinton como uma estrela de rock em glamourosa convalescença, envergando criações originais de Raf Simons, Mergulho Profundo é um dos filmes mais elegantes e bem-vestidos da atualidade.

O já terminado mandato de Raf Simons como diretor criativo da Casa Dior não foi isento de agressivas críticas e polémicas decisões artísticas. No entanto, independentemente de qualquer opinião negativa sobre as coleções de Simons para essa icónica instituição da moda francesa, a sua contribuição para Mergulho Profundo de Luca Guadagnino é um dos indisputáveis píncaros de elegância contemporânea no cinema atual. Outrora, o realizador e o designer já tinham trabalhado juntos em Eu Sou o Amor, um filme em que Simons contribui com as roupas para a protagonista interpretada por Tilda Swinton. Neste mais recente filme, Swinton volta a ser vestida pelo belga, desta vez no papel da glamourosa estrela de rock, Marianne Lane.

Mergulho Profundo

O primeiro vislumbre que temos da atriz escocesa nesta nova personagem, depressa a estabelece como uma gloriosa estrela de rock cuja aparência ativamente referencia o tipo de androginia exemplificada por David Bowie com a sua persona de Ziggy Stardust. Swinton não é uma estreante no mundo do glamour andrógino, pelo que estes figurinos hiperteatrais, parecem uma lógica extensão da sua persona enquanto estrela de cinema. No entanto, quando vemos Marianne na sua convalescença silenciosa na ilha de Pantelleria, não é uma andrógina figura de punk glamouroso que observamos, mas sim uma imagem de feminilidade clássica e uma elegância tão soberba que é quase alienante.

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Este contraste violento não é apenas presente entre as duas versões temporais de Marianne. Há uma qualidade grosseira nas paisagens rochosas de Pantelleria, colocando natureza siciliana em constante contraste com a delicadeza das roupas da protagonista. Se Marianne Lane, tanto pela sua mudez como pela sua celebridade, já é bastante distante e quase um alien de glamour, a sua gritante desconexão para com o espaço que habita ainda intensifica mais o seu hipnotizante ar de mistério e indecifrabilidade. Os seus figurinos, delicados e sofisticados, nada têm que ver com as rochas que pontuam os fundos naturais e quase a fazem parecer um espectro de um mundo de moda e estilo completamente separado do universo natural, salientando a insularidade das personagens do filme, que parecem viver em pequenas bolhas de melodramas pessoais enquanto o resto do mundo existe em separado das suas pessoas.

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Mergulho Profundo

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Para além de Mergulho Profundo ser uma espécie de reinterpretação de La Piscine, Guadagnino também tomou inspiração de muitas obras de arte, algumas delas cinematográficas, como é o caso de Viagem em Itália de Rossellinni. Essa inspiração manifesta-se fortemente no último figurino usado por Swinton. Este vestido, também edificado por Raf Simons, é uma direta referência a Ingrid Bergman nesse filme. O padrão axadrezado e a silhueta dos anos 50 estão presentes, mas, longe da rígida elegância personificada pela atriz sueca, Swinton apresenta-se vestida com uma peça decorada com pormenores de tecido retorcido, como que tornando visual e física, a intenção de subverter e transmutar referências artísticas que guiaram muito do trabalho de Guadagnino em Mergulho Profundo.

Mergulho Profundo

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Tal como muitas vezes ocorre no mundo do cinema, apesar de Simons assinar o guarda-roupa da atriz principal, o resto do vestuário visto no filme foi desenhado, escolhido e coordenado por uma outra figurinista. Giulia Piersanti é a responsável pelos restantes figurinos do filme, e, tal como Simons, a sua carreira não se tem desenvolvido no cinema mas na moda, tendo já trabalhado para a Lanvin, Dior Homme, Missoni e Balenciaga. Para Piersanti, este é o primeiro filme em que trabalha, sendo que a sua colaboração foi feita a partir de um pedido do seu amigo pessoal, Luca Guadagnino. Tão sublimes como as criações de Simons, a contribuição desta estreante figurinista é essencial na construção do sonho de elegância e epicúria cinematográfica que é Mergulho Profundo.

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Apesar do protagonismo de Swinton, Mergulho Profundo está longe de ser uma obra focada somente em Marianne Lane. Na verdade, este filme toma como seu principal sujeito um quarteto de personagens envolvidas numa tumultuosa tempestade de estridentes desejos e fogosos epítetos de sensual erotismo e ressentimentos passados. Como tal, a concretização visual destas figuras é essencial. Harry (Ralph Fiennes), por exemplo, veste-se numa constante coleção de tecidos leves e esvoaçantes ou padrões vistosos. Ele é uma cacofonia visual, mesmo antes de se manifestar vocalmente com as suas torrentes de anedotas profissionais, ou cansativas histórias sobre as várias celebridades com quem já travou conhecimento. O figurino final da sua filha parece quase homenagear a energia do seu pai, com Dakota Johnson a envergar uma peça num gritante amarelo e com motivos gráficos. Tendo em conta a natureza funérea e lacrimosa da cena, esta escolha de figurino parece um momento de inteligente e mordaz ironia da parte da figurinista.

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Mergulho profundo

Sendo este um filme grandemente focado em diferentes permutações de infidelidade, emocional, sexual e espiritual, a representação de atração através das roupas é algo obviamente essencial na sua mise-en-scène. No panorama masculino temos Harry com a sua despreocupada nudez e constante uso de camisas abertas, cujas abas esvoaçam à sua volta, salientando a sua maníaca energia e a sua carnalidade febril. Por outro lado, Paul (Matthias Schoenaerts) é muito mais subtil e silencioso na sua apresentação sedutora, envergando t-shirts esburacadas e demasiado grandes, cores sóbrias, um par de elegantes óculos-de-sol baseados no modelo usado por Alain Delon em La piscine. O erotismo da roupa está no que não se mostra, e não na completa exposição dos corpos desnudos. Repare-se na diferença entre as personagens femininas. Em Marianne temos os fatos de banho com as costas completamente abertas ou os vestidos de verão que flutuam sobre o seu magro corpo sem nada revelar. Em contraste, vejam-se as roupas da Penelope de Johnson, com blusas que deixam vislumbrar o seu peito sem soutien, os seus minúsculos calções de ganga, roupa interior usada como um biquíni translúcido e a sua geral atitude de uma adolescente a tentar transmitir uma imagem de descarada provocação.

Mergulho Profundo

Mergulho Profundo

Esta orgia de estilo, que se eleva acima de usuais conceitos de realidade e naturalismo, lembra outras criações do cinema italiano como La Dolce Vita de Fellini, ou os mais recentes festins de hedonismo cinematográfico de Paolo Sorrentino. Tal como nessas obras, o olhar de Guadagnino tanto julga as suas personagens como celebra o seu glamour e melodrama, colocando as suas elegantes roupas em posição de destaque na sua obra final. Será que a colaboração de Piersanti e Simons ficará na história do cinema, do mesmo modo que Head e Givenchy? Ou mesmo Chanel e Evein? Apenas o tempo dirá. Por agora, no entanto, é seguro afirmar que Mergulho Profundo é um dos mais elegantes filmes do ano, e uma experiência imperdível para qualquer cinéfilo que ame o mundo da moda.

Mergulho Profundo

Se te interessas pelo papel do vestuário no cinema e televisão, que pode, ou não, englobar o panorama da moda, não deixes de visitar os arquivos da nossa rubrica, Figura de Estilo.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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