10 filmes esquecidos pelos Óscares | Mergulho Profundo

Mergulho Profundo é um festim visual de eletrizante erotismo onde Ralph Fiennes mostra, mais uma vez, que é um dos melhores atores da atualidade.

 


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Mergulho Profundo está longe de ser um filme perfeito. A obra de Luca Guadagnino desenvolve-se à volta de uma estrela de rock muda que vê as suas idílicas férias italianas na companhia do seu namorado fotógrafo serem penetradas pela caótica figura do seu mais fogoso ex-amante acompanhado da filha. Pelo caminho, o realizador tenta balançar-se entre impulsos inebriantemente hedonistas e uma crítica desse mesmo estilo de vida, ao mesmo tempo que vai inserindo desastrados, mas potentes, rasgos de crítica socioeconómica no que é, para todos os efeitos uma ressurreição moderna dos prazerosos projetos de Eurotrash dos anos 60, cujo principal propósito parecia ser simplesmente observar estrelas de cinema glamourosas em cenários eróticos e luxuosos.

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Prazer, entenda-se, é a palavra de ordem em Mergulho Profundo e, não obstante os seus problemas concetuais, é difícil, ou mesmo impossível, negar a overdose de prazer que o filme está sempre pronto a dar ao seu público. Guadagnino é, afinal, o homem por detrás de Eu Sou o Amor, um melodrama operático de hedonismo formal sem estribeiras, e Mergulho Profundo não tem de acarretar o peso gélido da Milão do filme anterior, substituindo o seu requinte urbano pelo erotismo caloroso da ilha de Pantelleria.

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A melhorar ainda mais a situação hedonista, temos o elenco que Guadagnino usa como sujeito da sua obscena veneração fílmica. Tilda Swinton, Dakota Johnson, Ralph Fiennes e Matthias Schoenaerts nunca foram tão irresistíveis em frente à câmara, sendo que o olhar do seu realizador lhes lambe os corpos como um amante ávido e toda a construção formal à sua volta apenas salienta a sua qualidade sedutora. A própria montagem vibra com desenvergonhado erotismo, sendo rica em jogos de olhares e pontuações rítmicas a salientar o poder sensorial do toque humano.

Perante tal explosão de prazer, é enfadonho virar a mente para questões referentes à Awards Season mas esse é o propósito desta lista e este trata-se de um título indubitavelmente injustiçado. Para começar, temos o trabalho do elenco, uniformemente bom, com alguns píncaros de eletrizante génio na forma de Ralph Fiennes como Harry, o ex-amante intrometido e diabolicamente carismático. Fiennes, que há mais de 20 anos não é reconhecido pela Academia e que nunca ganhou nenhum Óscar (depois de Dicaprio não pode Fiennes tornar-se na mascote das campanhas de Óscar online?), é absolutamente genial no papel, mostrando toda a sua luminosidade de estrela de cinema ao mesmo tempo que sugere a toxicidade irritante da sua presença prolongada.

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Infelizmente, poucas foram as associações a relembrar o seu valor no final do ano, apesar da qualidade do seu trabalho. Mais censurável ainda foi o modo como a construção formal do filme encontrou igual resistência da parte das associações de críticos, diversos sindicatos de cinema e Academias. Será que há alguém genuinamente capaz de encontrar falhas na beleza estonteante de Mergulho Profundo? Alguém capaz de ignorar a sensualidade dos seus ritmos e imagens? Ou alguém que se atreva a não reconhecer o génio e elegância dos seus figurinos?

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Este último aspeto é de particular destaque, tendo em conta que Eu Sou o Amor conquistou uma nomeação inesperada nessa categoria dos Óscares. Enfim, a figurinista Giulia Piersanti não foi a única cujo trabalho foi injustamente esquecido pela Academia. Temos também de reconhecer o exagero mirabolante de Absolutely Fabulous: The Movie, a elegância dos anos 50 levada ao seu extremo em A Modista, o barroco tornado pesadelo em O Conto dos Contos, o feminino grotesco expresso pelo artifício da moda atual em The Neon Demon, as cores vibrantes no vestuário de Julieta, o híbrido cultural nos estilos de The Handmaiden e muitos mais esforços geniais.

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Na próxima página, continuaremos a nossa exploração dos festins visuais que a Academia preferiu ignorar em prol de reconhece filmes infinitamente mais prosaicos. Não percas!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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