Michael Ballhaus | Mestre de movimento e domador de autores

O diretor de fotografia Michael Ballhaus, que morreu no passado dia 12 de abril, deixa para trás uma filmografia repleta de obras-primas assinadas por mestres como Fassbinder, Scorsese e Coppola.

 

 

Apesar das suas origens germânicas, as poucas pessoas para quem o nome de Michael Ballhaus significará alguma coisa provavelmente associam-no ao seu trabalho com Martin Scorsese. Basta perscrutarmos os vários obituários, que publicações de cinema têm divulgado na passada semana, para nos apercebermos de quão o legado de Ballhaus está preso ao nome desse realizador. Mais especificamente, está preso aos seus milagres de câmara em movimento, tipificados pela famosa sequência do Clube Copacabana na obra-prima de Martin Scorsese, Tudo Bons Rapazes. É certo que se trata de um esforço magistral, mas o legado cinematográfico de Michael Ballhaus é muito maior que somente esse plano sequência, tendo este diretor de fotografia influenciado alguns dos mais importantes autores cinematográficos de sempre.

 

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WHITY (1971) de Rainer Werner Fassbinder

 

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CUIDADO COM ESSA PUTA SAGRADA (1971) de Rainer Werner Fassbinder

 

Filho de dois atores dos palcos berlinenses, Ballhaus começou a sua vida no teatro, mas, em termos profissionais, a televisão foi a sua primeira casa. Durante cerca de uma década, ele construiu um impressionante portefólio televisivo e tornou-se num profissional de tal renome que, em 1971, foi contratado por um dos realizadores emergentes do Novo Cinema Alemão. Referimo-nos, pois claro, a Rainer Werner Fassbinder, o enfant terrible do cinema germânico e, talvez, o seu maior génio da era sonora. O projeto em questão foi Whity, um bizarro western com violentos temas raciais e um ritmo anestésico. Fassbinder, desconfiado do background televisivo do seu novo diretor de fotografia, não mostrou confiança a Ballhaus, testando-o constantemente com pedidos estrambólicos de cenas inteiras filmadas com a câmara num incessante movimento circular, por exemplo. Segundo todos os envolvidos, essas filmagens foram um perfeito inferno e, ciente da sua tirania, o próprio Fassbinder veio a realizar um filme sobre a experiência tortuosa. Cuidado com Essa Puta Sagrada foi filmado no mesmo ano de Whity e, mais uma vez, Fassbinder colaborou com Ballhaus.

 

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AS LÁGRIMAS AMARGAS DE PETRA VON KANT (1972) de Rainer Werner Fassbinder

 

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MUNDO NO ARAME (1973) de Rainer Werner Fassbinder

 

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MARTHA (1974) de Rainer Werner Fassbinder

 

Durante anos, Fassbinder testou o seu novo diretor de fotografia com provocações e pedidos de planos enormemente complexos mas Ballhaus nunca lhe disse que algo era impossível. Mal sabia Fassbinder que, apesar de ser um “homem da televisão”, Ballhaus se tinha apaixonado pelo mundo do cinema devido aos dias que passou no cenário de Lola Montes de Max Ophüls. Esse realizador austríaco foi o grande deus da câmara em movimento na primeira metade do século XX e Ballhaus sempre o tentou emular e superar. Segundo as palavras do alemão, tudo se pode fazer, é a criatividade que interessa e a parte técnica está só dependente do esforço pessoal e do dinheiro disponível. Eventualmente, Fassbinder parece ter entendido a atitude de Ballhaus e dado valor ao seu poder criativo, tendo continuado a trabalhar com ele em projetos como o cruel As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, a fantasia de espelhos e ficção-científica O Mundo no Arame e o perverso melodrama Martha. Foi nessa última produção de 1974 que os dois finalmente começaram a ver-se um ao outro como parceiros criativos, tendo sido este o filme em que Ballhaus inventou e aperfeiçoou uma das suas mais famosas técnicas numa cena em que a personagem principal se cruza com o seu futuro marido e a câmara gira 360 graus à volta dos atores em movimento.

 

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ROLETA CHINESA (1976) de Rainer Werner Fassbinder

 

Já muito se falou dos movimentos da câmara de Michael Ballhaus, mas convém esclarecer que essa não é a única marca do seu estilo pessoal. Por exemplo, com Fassbinder, Ballhaus perdeu qualquer presunção de naturalismo na iluminação, recorrendo sempre a esquemas muito artificiais que chamam atenção à sua própria teatralidade. As composições eram sempre meticulosas, especialmente no que diz respeito às filmagens de vários atores em grande plano ou ao seu uso constante de superfícies refletoras para recortar a imagem. Geralmente, com Fassbinder, era empregue uma profundidade de campo muito grande para que tudo estivesse focado, a não ser quando a câmara se aproximava das personagens e aí o desfoque tendia a isolar as faces, descontextualizadas da materialidade envolvente. Para se estudar tais características não há melhor filme que A Roleta Chinesa. O filme foi a 10ª colaboração com Fassbinder e é talvez o seu mais belo trabalho, em parte, graças à enorme influência criativa de Ballhaus, cuja casa de campo serviu até de cenário principal.

 

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O CASAMENTO DE MARIA BRAUN (1979) de Rainer Werner Fassbinder

 

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LILI MARLEEN (1981) de Rainer Werner Fassbinder

 

Como já deu para se entender, Rainer Werner Fassbinder não era uma pessoa com quem fosse fácil trabalhar, em parte devido ao seu temperamento, em parte devido à sua ambição e ritmo de produtividade frenético. Pelo final dos anos 70, a fama do realizador estava a aumentar a nível internacional, mas também a sua tempestuosidade e dependência de drogas se intensificava. Ballhaus manteve-se um fiel colaborador, filmando inclusive o primeiro filme em inglês de Fassbinder intitulado Desespero. Ironicamente, foi a produção do maior sucesso comercial na carreira dos dois homens que veio destruir a sua relação, O Casamento de Maria Braun de 1979. Ballhaus ainda começaria a trabalhar novamente com Fassbinder em Lili Marleen de 1981, mas o mal estava feito e o comportamento errático do realizador provou-se insuportável, levando Ballhaus a abandonar ou ser forçado a abandonar o filme. Em 1982, Fassbinder morreu devido a uma overdose. Tinha 37 anos e deixou para trás quarenta longas-metragens, duas minisséries, três curtas-metragens, 24 peças de teatro e muitas outras obras em diversos meios de expressão. Em 1983, Michael Ballhaus trocou a Alemanha por Hollywood, aceitando um convite para filmar Baby It’s You de John Sayles.

 

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NOVA IORQUE DEPOIS DE HORAS (1985) de Martin Scorsese

 

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A COR DO DINHEIRO (1986) de Martin Scorsese

 

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A ÚLTIMA TENTAÇÃO DE CRISTO (1988) de Martin Scorsese

 

O começo da sua carreira americana foi marcado por projetos para a televisão como a grande adaptação d’A Morte do Caixeiro Viajante protagonizada por Dustin Hoffman. Por uns tempos parecia que os senhores de Hollywood não sabiam que tinham em mãos um dos mais geniais diretores de fotografia da época, mas lá foi em 1985 que Ballhaus finalmente deu de caras com alguém que realmente sabia apreciar os seus talentos. Esse alguém foi Martin Scorsese que, com a comédia Nova Iorque Fora de Horas, começou uma nova fase da sua carreira em parte possibilitada pela influência do seu novo diretor de fotografia. Os movimentos baléticos da câmara de Ballhaus, o seu uso de reflexos e composições complicadas de atores em grande plano foram assimilados no estilo de Scorsese e o alemão trouxe uma disciplina inédita ao trabalho do americano que, ainda hoje em dia, dá crédito ao seu colega por lhe ter ensinado uma nova maneira de fazer cinema e lhe ter reacendido a chama da paixão cinéfila. O resto da década de 80 foi assim marcado por mais colaborações com Scorsese, A Cor do Dinheiro em 1986 e A Última Tentação de Cristo em 1988. Também englobou outros filmes como Sob o Luar da Riviera que ele corealizou com Prince, Uma Mulher de Sucesso de Mike Nichols, Edição Especial de James L. Brooks e Os fabulosos Irmãos Baker de Steve Kloves. Estes últimos dois títulos valeram-lhe as suas primeiras indicações para os Óscares.

 

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EDIÇÃO ESPECIAL (1987) de James L. Brooks

 

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UMA MULHER DE SUCESSO (1988) de Mike Nichols

 

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OS FABULOSOS IRMÃOS BAKER (1989) de Steve Kloves

 

Em 1990 lá veio o triunfo de Tudo Bons Rapazes mas Ballhaus não se deixou descansar, tendo continuado a fazer pelo menos um filme por ano durante o resto da década. Nesta fase da sua carreira, há dois filmes que merecem particular destaque. Um deles foi Drácula em 1992, um projeto que marcou a sua primeira e única parceria com Francis Ford Coppola que decidiu filmar a sua história vampírica com técnicas de efeitos especiais feitos diretamente para a câmara ao estilo do cinema mudo. Escusado será dizer que foi um enorme desafio técnico, mas, como sempre, Michael Ballhaus mostrou-se imparável. Depois, temos A Idade da Inocência, um dos filmes mais deslumbrantes de Martin Scorsese e o único que Ballhaus filmou para o seu amigo onde não existe uma única instância de violência gráfica ou cadáveres, uma recorrência que Ballhaus sempre desaprovou nos filmes de Scorsese.

 

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DRÁCULA (1992) de Francis Ford Coppola

 

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A IDADE DA INOCÊNCIA (1993) de Martin Scorsese

 

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GANGUES DE NOVA IORQUE (2002) de Martin Scorsese

 

Com o advento do século XXI e o desenvolvimento de um glaucoma que lhe veio destruir a visão, Ballhaus começou a trabalhar menos. Em 2002, ele garantiu a sua terceira e última nomeação para o Óscar com Gangues de Nova Iorque e, em 2006, filmou o seu derradeiro trabalho ao lado de Martin Scorsese, The Departed – Entre Inimigos. Já quase cego, Michael Ballhaus regressou à Alemanha, onde filmou o seu último projeto em 2013, 3096 Dias realizado por Sherry Hormann, a sua segunda esposa. Depois da reforma, ele ainda chegou a publicar uma autobiografia e foi homenageado na Berlinale de 2016 mas finalmente, no passado dia 12 de abril de 2017, Michael Ballhaus morreu com 81 anos em Berlim, a mesma cidade que o viu nascer. Para trás ele deixa um legado riquíssimo e, se houver justiça no mundo, o seu trabalho nunca será esquecido pela cinefilia internacional, quer sejam os cruéis e revolucionários melodramas de Fassbinder, os excitantes épicos criminais de Martin Scorsese, a fantasia vampírica de Coppola ou mesmo as dramáticas intrigas de Mike Nicholas. Michael Ballhaus é um nome que para sempre terá lugar no panteão da História do Cinema.

 

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THE DEPARTED – ENTRE INIMIGOS (2006) de Martin Scorsese

 

Agora que conheces melhor o trabalho de Michael Ballhaus, não deixes de explorar a sua filmografia. Garantimos que está cheia de verdadeiras obras-primas que certamente vão deliciar muitos espetadores.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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