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Michael Mann em Casa | Blackhat (2015)

Blackhat: Ameaça na Rede” é um elegante e meticuloso thriller de ação no âmbito do cibercrime, que ostenta todos os penachos visuais inerentes ao incansável formalismo estético de Michael Mann, por onde discorre a sua genial aptidão na captação impulsiva e extasiante de toda e qualquer expressão emocional.

A temática não é nova, bem sabemos disso, mas também nunca a questão da cibersegurança assumira uma relevância tão urgente e premente nas nossas vidas como agora, sobretudo quando temos quase metade da população global conectada ao ciberespaço. E se é certo e sabido que são mais que muitos os filmes envolvidos no fantasioso pântano virtual, não é menos verdade que escasseiam nomes de peso que ousem mergulhar pelos meandros ilícitos e procedimentais da chamada “Dark Web” (parte da Internet que não está visível à maioria dos softwares e que requer acessos específicos e anónimos), talvez com a exceção da metragem expositiva um tanto ao quanto romanceada de Irwin Wrinker: “A Rede” de 1995. Claro que “Blackhat” extrapola igualmente o seu material, não tanto no que diz respeito à plausibilidade ou execução do enredo, mas antes no modo altamente estilizado como nos é apresentado. E era mesmo preciso um cunho deveras distinto e maturado, capaz de enaltecer os maçudos jargões informáticos, atraindo-os para o terreno palpável das luzes da ribalta, aonde Mann é exímio em montar um invólucro sedutoramente realista e estonteante.

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A premissa é ainda mais válida, se tivermos em linha de conta as fontes inspiradoras sorvidas pelo guião cibernético de Morgan Foehl (Click), que se deixa influenciar por casos mediáticos de cibercrime organizado como os de Alex González e Max Vision em 2011, ou antes ainda por famosos ataques de malware (Aurora e Stuxnet) a grandes conglomerados empresariais como a Google. Mas foi um alegado ciberataque à central nuclear iraniana de Natanz em 2010, que serviu de pretexto sensacionalista para Mann e Foehl abrirem o terminal argumentativo no qual se baseia o cerne da história de “Blackhat”. E é precisamente nesse fluxo de pensamento, que Mann precipita o assalto aos sentidos com uma visão digitalizada de se lhe tirar o chapéu, em que entramos pelo hardware adentro da unidade computacional de uma usina nuclear em Hong Kong (Chai Wan), enquanto um software malicioso sob a forma de uma horda de luzes pulsantes furiosas, desbrava caminho por um emaranhado de chips, transístores e circuitos elétricos destinados a implodir numa falha catastrófica. Aqui, claramente que Mann e Foehl vão pescar aquela manchete viral cobiçada por qualquer sanguessuga noticiosa, sacrificando algum rigor técnico amplamente compensado pela rede radioativa da simplória trama, que vai irradiando sensações e emoções por todo o lado, mesmo nas cenas mais singelas e banais.

Michael Mann em Casa Blackhat Corpo
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O traço dessa singularidade imagética é servido religiosamente através de “close-ups” clínicos ao sujeito, como aquele que apresenta o militar Chen Dawai (Leehom Wang) da divisão de ciberdefesa do exército chinês, puxando-lhe a apreensão do olhar até que esta se desvaneça na verticalidade panorâmica sobre o sereno mar de Kowloon. A mesma tónica contrastante encontra a sua conexão na cor pacífica dos adereços ecléticos e vestes presidiárias de Nick Hathaway (Chris Hemsworth) – um prodigioso hacker condenado a uma longa sentença de prisão por ciberfraude -, aqui retratado como a completa antítese do expectável nerd, que canaliza a agressividade no exercício físico e alimenta a mente com Michel Foucalt e Jacques Derrida. Logo aqui, fica evidente, a tradicional inclinação de Mann em explorar as contradições inerentes a personagens ambivalentes, que vão unir esforços para identificar o autor da RAT (Ferramenta de Acesso Remoto). E enquanto o malfeitor provoca mais um frenesim na bolsa de valores com a manipulação de contratos futuros de soja, a lente expressionista de Mann deixa-nos vaguear num daqueles seus versos de dopamina audiovisual, contemplando por Hathaway a liberdade de respirar o horizonte ardente e sentir o toque feminino da sua colega Chen Lien (Tan Wei) a caminho de um jato privado, sob a mira de Carol Barret (Viola Davis) – a firme e vigorosa agente do FBI encarregue de supervisionar a colaboração de Hathaway com a investigação levada a cabo pelas autoridades chinesas.

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Deste preâmbulo em diante, o mistério binário vai-se desfolhando numa cadência regulada pela glamorosa batuta de Mann, que possui a aptidão de tornar o convencional num absorto rebuçado, combinando grandes carismas com pitorescas paisagens e tudo o que as fomenta pelo meio. E tal como em anteriores trabalhos do realizador norte-americano como “Colateral” ou “Miami Vice”, também aqui reconhecemos a mesma linguagem visual que replica aquela filmagem digital mais granulada e trepidante, tão potenciadora do lado mais intenso, genuíno e improvisado de coreografias maioritariamente mais formatadas. Um bom exemplo dessa abordagem silvestre e documentarista, leva-nos a uma rixa num restaurante coreano em LA, aonde a câmara espreita por cada golpe desferido por Nick Hathaway como se fosse uma extensão dele mesmo, amplificando o grau de realismo e a colisão energética daquela cena visceral. Além do mais, a transição para este formato mais versátil e experimental, permite a Mann brincar como ninguém com diversas tonalidades e iluminações, sobretudo quando se trata de sorver da vida noturna, a sua adrenalina machista e libidinosa. “Miami Vice” poder-se-á considerar como o expoente máximo desse arquétipo valorativo, que reaparece aqui para inflamar a química magnética que Hemsworth e Wei conseguem infundir organicamente nas suas interpretações. De facto, existe algo de sexy na “mise en scène” de Michael Mann, que faz com que o cenário envolvente seja cúmplice da emoção, ao invés de ser mera testemunha.

Michael Mann em Casa Blackhat Corpo
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Com Mann, a palavra de ordem será sempre a autenticidade, por isso a ideia de perseguir um pirata informático que podia estar a operar a partir de qualquer parte do mundo, escancarou-lhe as portas da internacionalização do seu palco de atuação. E não poderia haver local mais perfeito para explanar toda a vertigem e exuberância da sua imagem do que Hong Kong, com os seus arranha-céus esculpidos a régua e esquadro, alinhavados por um labirinto de ruelas estreitas iluminadas por painéis sinaléticos. Em solo chinês, é o intrépido Dawai quem assume a dianteira da investigação, formando com Hathaway uma parelha quase fraternal. Mas o que salta à vista no ator americano de origem asiática, é a elegância intoxicante em tudo o que faz, até quando está a correr desenfreadamente por becos e contentores no encalço do inimigo. Aliás, esta sequência corresponde a uma das montagens mais explosivas de todo o filme, que até obrigou a equipa de Mann a uma colaboração governamental no sentido de assegurar por algumas noites o túnel de drenagem Tsuen Wan.

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E à medida que a persistente “task force” se vai aproximando do incógnito “black hat”, que só conseguimos debicar em fugazes e obstrutivos relances de perfil, aumenta a volumetria das excitantes peças ativas, onde assenta a ponte movediça de todo o molde representativo, com algumas nuances de imprevisibilidade a virem à tona, o que, obviamente, favorece a paciente construção do ponto de clímax. Objetivamente, Mann é dos poucos que domina a raríssima arte de temporizar os elementos narrativos no timing exato, com um sentido de sensibilidade emocional e lógica reativa extraordinário. Contudo, à que dizer que os papéis interpretativos no seu todo, carecem de uma exploração mais profunda, ainda que, paradoxalmente, sirvam o seu intuito causal e existencial, algo que nas mãos de Michael Mann é atenuado devido à intensidade da sua filmagem espicaçante. Porque depois, todas essas pechas são passadas a ferro por imagens que falam mais que mil palavras, como um choro ranhoso confortado por um abraço envolvente num avião que deixa um rasto de borrões luminosos, ou uma vida que é ceifada numa fração de segundo, e a retina excogita a lividez da sua última fotografia viva num silêncio ensurdecedor.

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E se Mann é tão astucioso em conseguir extrair toda a emotividade e mais alguma dos seus atores, os cenários pagam a mesmíssima fatura como se também contracenassem com ele intencionalmente. Num ápice, saímos da legolândia incandescente da metrópole asiática para atracarmos nas vistas tropicais e mercuriais de um antigo aterro de minérios em Perak, na Malásia, cortesia do brilhante cinematógrafo Stuart Dryburgh (O Recruta), muito influenciado pela estética da “novelle-vague” de filmes independentes da década de 70. Mas é o “take” final levado a cabo no povoado desfile anual “Balinese Nyepi Day” em Jacarta, que embrulha todo o esplendor audiovisual de Mann num potente cocktail tétrico de textura e cor em esteróides, enquanto Hathaway fura pela inocente multidão ao encontro do seu opositor com a mesma cólera da sua objetiva.

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“Blackhat: Ameaça na Rede” é mais um grande trabalho de autor de Michael Mann e, como tal, não escapará incólume das balas mais comuns da opinião pública. Ou nos apaixonamos pelo estilo berrante, cru e emotivo, ou teremos de suportar a maior desilusão cinematográfica das nossas vidas. É por isso que Mann será, porventura, um dos realizadores mais subvalorizados de Hollywood; um que exige aquele olho invulgar para que o seu expressionismo abstrato seja devidamente compreendido e apreciado além do óbvio, pois já dizia o mítico escultor Auguste Rodin: “A arte é a contemplação; é o prazer do espírito que penetra a natureza e descobre que a natureza também tem alma”.

“Blackhat: Ameaça na Rede” de Michael Mann encontra-se disponível na Netflix.

Michael Mann Em Casa | Blackhat (2015)
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Movie title: Blackhat (Netflix)

Movie description: Um hacker condenado é libertado da prisão para ajudar uma equipa de peritos norte-americanos e chineses a localizar e apanhar um ciberterrorista.

Country: EUA

Duration: 2h13min

Author: Miguel Simão

Director(s): Michael Mann

Actor(s): Chris Hermsworth, Viola Davis, Leehom Wang, Tang Wei, Yorick van Wageningen, Holt McCallany

Genre: Ação, Crime, Thriller

  • Miguel Simão - 90
90

CONCLUSÃO

“Blackhat: Ameaça na Rede” possui todas a caraterísticas de um bom thriller de ação: enredo interessante, paisagens exóticas, coreografias impactantes, cadência vertiginosa. É um filme com uma personalidade muito própria, que nos diz mais com a montagem real e artística das imagens do que pela complexidade do diálogo. Dito isto, quem conseguir vislumbrar para além das aparências e se deixar absorver pelo estimulo audiovisual por aquilo que ele é enquanto forma de arte, encontrará aquela camada extra de gratificação.

Pros

  • Elenco carismático
  • Cinematografia exótica
  • Coreografias impactantes
  • Filmagem de Mann
  • Sonorização envolvente

Cons

  • Algumas imprecisões técnicas
  • Personagens pouco desenvolvidas
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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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