Mirai

MONSTRA ’19 | Mirai, em análise

Depois de ter sido nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Animação de 2018, “Mirai” finalmente chega aos cinemas portugueses. Primeiro, contudo, esta maravilha de anime foi exibido na MONSTRA.

A popularidade e respeitabilidade do anime no mundo ocidental tem vindo a evoluir gradualmente ao longo das últimas décadas. Cada vez mais, o cinema de animação japonês parece estar a aproximar-se do mainstream popular, mas, apesar disso, muitas são as grandes obras que continuam a ser pequenas curiosidades que poucos conhecem fora do seu país de origem. Prova disso mesmo é o modo como ao longo dos 17 anos em que se entregaram Óscares para Melhor Filme de Animação, só dois estúdios de animação nipónicos alguma vez foram nomeados. Obviamente, a maior parte dessas honras recaiu sobre o Estúdio Ghibli. Em 2019, “Mirai”, uma produção do Studio Chizu, conseguiu alcançar também essa consagração de Hollywood.

O filme é a sétima longa-metragem do realizador Mamoru Hosoda que é também o fundador dos estúdios de animação em si. Tal condição, tem vindo a garantir total liberdade artística ao cineasta que, com “Mirai”, volta a explorar alguns dos seus temas e técnicas favoritas. Como sempre, o projeto envolve a junção de elementos fantasiosos e realismo emocional, uma dinâmica ecoada também na animação que conjuga o movimento naturalista de uma criança a andar aos trambolhões pelo espaço doméstico com movimentos de câmara e transições elaboradas que desafiam as leis da Física. De facto, tão séria era a procura por realismo na representação do protagonista infantil, que o realizador usou os seus filhos como objeto de estudo, inspiração para o guião e referência direta para a animação de gesto e movimento.

MONSTRA Mirai critica
Um filme que considera suas personagens juvenis com respeito e sem condescendência.

A história centra-se em volta de um menino chamado Kun, cuja mãe é uma executiva e o pai um arquiteto que passa o dia em casa com o filho. Adorado pelos pais, mimado pela avó e sempre acompanhado pelo reguila cão da família, Kun é uma criança feliz e despreocupada. Sua existência idílica é perturbada, contudo, quando, um dia, a mãe regressa do hospital com uma bebé nos braços. Trata-se da nova irmã do nosso diminuto protagonista, uma menina batizada com o nome de Mirai, que significa futuro. Face a uma nova realidade em que já não é o centro único das atenções e afetos do núcleo familiar, Kun começa a revoltar-se e foca o seu desagrado na pequena intrusa que veio usurpar sua posição privilegiada no ecossistema doméstico.

Este tipo de dinâmica familiar não é particularmente rara no cinema, nem mesmo no contexto de filmes animados. O que eleva “Mirai” acima de tantos outros projetos semelhantes é o modo como Hosoda nunca parece estar a observar seu protagonista imaturo de uma perspetiva de condescendência adulta. O filme é respeitoso para com os tormentos de Kun, suas insegurança e reação agressiva, nunca mostrando qualquer juízo moralista sobre o menino invejoso. Melhor ainda, é o modo como os elementos mágicos da obra parecem germinar organicamente do panorama emocional do seu protagonista. Por outras palavras, quando algo impossível acontece, tal evento pode ser uma violação das regras do mundo natural, mas não é, de todo, incoerente com a história emocional que orienta todo o filme, sua narrativa e seu estilo visual.

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De facto, a primeira vez que algo sobrenatural ocorre, sua manifestação coincide com o rescaldo de um dos momentos mais emocionalmente voláteis de Kun. Enfadado com a falta de atenção que a mão lhe presta, o menino usa um dos seus brinquedos para bater na bebé, horrorizando a matriarca. Depois disso, em lágrimas, o rapaz depara-se com um indivíduo estranho junto à árvore ancestral à volta da qual toda a casa foi construída. O homem misterioso é o seu cão tornado humano, de modo a comunicar com o dono. Essa é só a primeira das muitas instâncias de magia em torno da árvore, que, além de transfiguração canina, também é capaz de diluir e retorcer o fluxo do tempo. Isso torna-se óbvio quando aparece uma jovem vinda do futuro. Ela é Mirai já crescida.

Desvendar muito mais deste enredo sobrenatural seria algo indecente para com o espectador que ainda não tenha tido oportunidade de ver “Mirai”. Resta só dizer que o filme usa estes conceitos estrambólicos para construir um arco narrativo para Kun, que é lentamente educado acerca do significado e poder de laços familiares, especialmente no que diz respeito à sua irmã. A estrutura destes desenvolvimentos narrativos são um tanto ou quanto repetitivos, mas é difícil negar a eficácia no jogo de emoção e empatia que Hosoda aqui explora. Chegado o clímax, em que o filme parece realmente perder qualquer tipo de cenário realista e se precipita em epítetos de fantasia, o espectador é catapultado para um registo de emoção extremada, onde a ordem do universo é moldada em volta das angústias do protagonista.

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A fantasia floresce do realismo emocional.

Como ele, somos forçados a experienciar loucuras de sonho e pesadelo, de memória e premonição, para entender a tapeçaria que o realizador nos teceu. Uma tapeçaria, onde cada ato tem consequências e toda a maravilha que é uma família pode ser dependente do mais insignificante dos gestos. Há aqui uma tentativa de transcender os limites da perceção intrinsecamente limitada do indivíduo, dando a entender como todos somos parte de um fluxo de vida que se estende ao passado e presente daqueles que amamos, antepassados e sucessores também. É evidente que tais temas poderiam ser explorados com uma proposta narrativa menos fantasiosa, mas há valor no modo como Hosoda torna questões intangíveis em materialidade impossível, como através do fantástico ele tenta dar a entender verdades humanas que de outro modo seriam difíceis de assimilar, especialmente para um público infantil.

Em termos de técnica, o filme é um triunfo de virtuosismo polido, especialmente no terceiro ato dramático, quando “Mirai” entra na tal espiral de anti-realismo e até o tipo de registo de animação é sujeito a transformações estranhas. Estes riscos estéticos nem sempre compensam e é verdade que Hosoda tende a brilhar mais quando é subtil do que quando se rende ao exagero. O modo como a arquitetura da casa de Kun define as relações familiares nela desenvolvidas, assim como os limites de perspetiva que afetam pais e filhos, é, por exemplo, muito mais interessante que algumas das aventuras mais mirabolantes do menino viajante do tempo. Os méritos e as fragilidades de “Mirai” são difíceis de separar, sendo que o que pode ser brilhante num momento acaba por ser insustentável a longo curso, ou vice-versa. Mesmo assim, é difícil não ver valor nesta maravilhosa exploração da psique infantil que, ao mesmo tempo, funciona como comovente homenagem ao poder da família.

Mirai, em análise
Mirai

Movie title: Mirai no mirai

Date published: 2019-03-28

Director(s): Mamoru Hosoda

Genre: Animação, Aventura, Drama, 2018, 98 min

  • Cláudio Alves - 75
  • Filipa Machado - 80
78

CONCLUSÃO:

“Mirai” é uma comovente fusão de realismo doméstico e fantasia infantil, que tanto tem de ambicioso como de modesto. Sua execução formal é admirável, mesmo que algumas das reviravoltas de animação e narrativa, assim como uma estrutura imperfeita roubem o projeto de alguma da sua potencial glória.

O MELHOR: A personagem de Kun e o modo como o filme nunca tenta limar suas arestas ou desculpar o egoísmo infantil das suas ações.

O PIOR: A qualidade repetitiva e episódica de “Mirai” é um problema estrutural que tende a roubar o projeto de algum do peso emocional que seu clímax tanto quer ver manifesto no coração do espetador.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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