Um pássaro e um urso refletem acerca de questões existencialistas em "Apfelmus" |©MONSTRA

MONSTRA ’21 | Competição Curtas 1, em análise

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26 de Julho marcou o arranque das secções competitivas na MONSTRA ’21, as quais se prolongaram ao longo de toda a semana. O Festival de Animação de Lisboa fechou a 1 de agosto com as sessões de vencedores. Estas são as impressões dos filmes que vimos ao longo dos últimos dias. 

Estivemos presentes, no Cinema São Jorge, para ver a primeira sessão da Competição Internacional de Curtas. Ao todos assistimos a 9 curtas-metragens marcantes, as quais passamos a analisar. 

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THE MONKEY (PORTUGAL, ESPANHA, 2020, 13′) 

Curta Metragem MONSTRA 2021 Competição Curtas I
©Sardinha em Lata, Xosé Zapata, Lightbox

De: Lorenzo Degl’Innocenti, Xosé Zapata

Em 1588, um náufrago da Armada Invencível, enviada de Portugal por Felipe II para conquistar Inglaterra, é capturado numa praia da Irlanda. Aí  é julgado e condenado a ser enforcado.  Tudo isto seria razoável segundo as leis da guerra e do ódio entre seres humanos, o problema é que o prisioneiro é um macaco.

Uma co-produção entre Portugal e Espanha que nos transporta até ao coração das leis impiedosas do século XVI, “The Monkey” foi co-criado pela produtora nacional de animação “Sardinha em Lata”, uma casa que muita animação de qualidade nos ofereceu ao longo dos anos (“A Gruta de Darwin”, “O Sapateiro”) .

Sem dúvida uma escolha promissora para este arranque de sessão, “The Monkey” é uma obra rica do ponto de vista da sua animação, criada recorrendo a uma animação 2D tradicional detalhada e criada por muitas mãos.

Com uma arte de cenários e de intercalação exímia, “The Monkey” evoca, visualmente, a animação da Disney nos anos 90. Quiçá por temporalmente se situar numa linha semelhante, envolvendo temática náutica, Reis, e muita hostilidade, existem sem dúvida alguns ecos de “Pocahontas” (1995) na sua imagética.

Quanto à narrativa, é, como esperado, muito mais crua e descrente na solidariedade humana. Uma peça moralista sobre a ideia de “comer ou ser comido”, esta curta apela à emotividade e consegue cumprir o seu propósito. O seu único problema é, talvez, tornar-se demasiado literal no seu discurso. Não há aqui espaço para ambiguidades, em “The Monkey” a dita mensagem do filme é bem audível e pronunciada com todas as letras. E mesmo equacionando a falta de subtileza, não deixa por isso de ser poderosa.

Aqui é possível encontrar alguns dos storyboards e sketches do filme, o qual foi galardoado, na Cerimónia de Encerramento, com o Grande Prémio Monstrinha Escolas.

Classificação: 84/100




REVOLYKUS (ALEMANHA, 2020, 12′) 

Victor Orozco animation
©MONSTRA

De: Victor Orozco

Há vários anos migrei para a Alemanha. Aqui, vivo numa casinha velha que precisa urgentemente de modernização e que, teoricamente, me protege do vento, da chuva e do frio

Algures entre a animação e a imagem real, entre a ficção e o documentário, entre o narrativo e o experimental, entre o belo e o grosseiro, encontramos “Revolykus”.

Um trabalho rico por parte de Orozco, extremamente político e atual, repleto do ponto de vista do relato, “”Revolykus” não é para todos pois decide não se coibir e mostra tudo o que não queremos ver. A pobreza, a decadência, a desgraça alheia que ignoramos. Contudo, visualmente é tão pouco apelativo que a sua mensagem se arrisca a perder-se desde o momento em que testemunhamos a sequência de moscas mortas em stop motion. 

Por outro lado, embora o relato toque em muitas questões impactantes, não é incomum tornar-se disperso e até obscuro. Uma obra ambiciosa com claros problemas de execução.

Classificação: 55/100




TUDO O QUE PEDISTE (ISRAEL, 2019, 4′) 

Competição Curtas 1

De: Hila Mutayn

Uma mulher concebe na sua imaginação uma imagem de um amante prestes a chegar, e acredita, a partir do sonho e da expectativa, que alguém virá para cativar o seu coração. O filme mergulha na oração da heroína e move-se entre os pensamentos e sentimentos que se escondem dentro do grande desejo pelo amor. Até que conhece uma figura que nunca esperara.

Uma pequena e belíssima curta a adornar esta sessão de competição de curtas na MONSTRA, “Tudo o que Pediste” é um romance que, inteligentemente, legitima, perante os olhos de um qualquer “Deus”, um romance LGBTI+.

Uma espécie de subversão tranquila do mito da criação, o filme da jovem Hila Mutayn cria uma atmosfera de tranquilidade, confiança e paz capaz de contagiar quem assiste ao belo espectáculo visual criado com um traço simples e expressivo, em tonalidades brancas, negras e vermelhas.

A curta está disponível no Vimeo da sua autora. 

Classificação: 75/100




CÃES ZANGADOS (REINO UNIDO, 2020, 5′) 

MONSTRA COMPETIÇÃO CURTAS 1
©MONSTRA

De: Shaun Clark 

Quando cães adormecidos acordam, a racionalidade desaparece num instante.

A 8ª curta-metragem do britânico Shaun Clark, “Angry Dogs” começou como uma pequena experiência bem-recebida no Instagram. A partir de uma sequência de latidos de canídeos, Shaun Clark criou uma peça repleta de humor e que consegue fazer muito com muito pouco.

A animação de “Cães Zangados” foi criada sem recurso a um argumento ou storyboards, segundo o realizador de uma forma bastante “rápida e direta”. Este pequeno exercício de pura criatividade, criada com lápis de cera e empregando a mais simples da animação, coloca a questão alegremente disparatada: “porque é que estes cães estão tão zangados?”.

De acordo com Shaun Clark, a sua motivação passou por explorar a raiva que motiva o seu sujeito e o porquê da sua cegueira. Assim, desenhou muitos objetos que motivassem a ira dos cães, de bicicletas a salsichas, passando por bolas de futebol ou cigarros. Uma pequena brincadeira bem-humorada capaz de conquistar o público da primeira sessão competitiva de curtas na MONSTRA.

O making of do filme pode ser encontrado aqui. 

Classificação: 80/100




LOUCURA LIGEIRA, DEMÊNCIA DURADOURA (FRANÇA, 2020, 18′) 

Loucura Ligeira, Demência Duradoura
©MONSTRA

De: Marine Laclotte

Este passeio pela vida do dia-a-dia de várias instituições psiquiátricas permite-nos conhecer pessoas extraordinárias que nos deixam entrar na sua privacidade.

“Loucura Ligeira, Demência Duradoura” é um lírico e empático relato que combina ficção e documentário e retrata o quotidiano dos habitantes de clínicas psiquiátricas. Sem ser demasiado paternalista, dado ao choque ou cientificamente rigoroso, o filme consegue equilibrar de forma perfeita a divisão de tempo de ecrã entre a perspetiva dos doentes e dos seus tratadores.

Existe um respeito gigante pelos residentes dos centros estudados, nunca tratados como “loucos”. Nota-se também um carinho palpável no trato, na narração das suas experiências, o qual eleva a qualidade da curta largamente. Um belo quadro minimalista que pensa os doentes psiquiátricos crónicos como seres amáveis a acarinhar e proteger, não estigmatizar.

Classificação: 80/100




MIGALHAS (REPÚBLICA CHECA, 2020, 3′) 

MONSTRA 2021 curtas metragem 1
©MONSTRA

De: Robot Chocolate (Gabriela Plackova, Robert Hloz)

Uma discussão de casal num mundo surrealista onde tudo é possível! Uma curta-metragem de animação em pixilação stop motion  filmada em película de 8 mm.

Esta pequeníssima e incomum  curta-metragem acerca do final de uma relação, originalmente estreada em Cannes, vence pelas circunstâncias que envolvem a sua realização. A obra gravada em película de 8mm foi editada recorrendo apenas ao uso da câmara e contou também com a banda-sonora feita às cegas.

Um gesto livre, uma batida contagiante, uma abordagem invulgar às relações humanas, um tesouro escondido na 20ª edição da MONSTRA, “Migalhas é divertido” e irreverente.

A obra criada no estilo “straight 8” pode ser vista aqui. No canal de Vimeo da sua co-realizadora, Gabriela Plackova, é possível ainda encontrar um behind the scenes.

Classificação: 75/100




AS ASAS (ESTÓNIA, 2020, 13′) 

Competição Curtas Metragens 1
©MONSTRA

De: Riho Unt 

Quando o espírito de Leonardo da Vinci, a estrela do Renascimento, se junta a ele nas suas aspirações, Jaan, um excêntrico inventor, está prestes a realizar o seu sonho de voar bem alto no céu. No entanto, quem se dirige ao horizonte onde os sonhos e a realidade se cruzam, é Liisa, a esposa de Jaan, uma elegante criatura alada, negligenciada pela loucura e pelo engenho de Jaan.

“The Wings” é uma história arrojada, que nesta sessão competitiva de curtas na MONSTRA casa viagens no tempo, fantasia, o retrato histórico do desejo de voar e ainda um erotismo munido de uma pitada de sarcasmo. Tudo comece com Jaan, um excêntrico inventor que procura criar o seu próprio par de asas. Quando uma comunicação através do tempo e do espaço lhe permite interagir diretamente com Leonardo Da Vinci, Jaan não poderia nunca desconfiar que a sua invenção se pudesse acabar por revelar um presente envenenado…

Quanto ao estilo de animação escolhido, os créditos iniciais revelam-nos que a casa que criou este “As Asas” se orgulha profundamente da sua animação, toda ela feita à mão. Sim, esta animação de marionetas stopmotion é rica, detalhada, trabalhosa, exímia.

Riho Unt, criador oriunda da Estónia, cria desde os anos 80 notáveis obras de animação, sendo um veterano no seu género de criação artística. Com a Nukufilm criou já mais de 3 dezenas de filmes. O estúdio localizado em Tallin, Estónia, foi estabelecido em 1975 e é a empresa de stop motion mais antiga do mundo (ainda em funcionamento). 

Classificação: 88/100




APFELMUS (ÁUSTRIA, 2019, 7′) 

animacao
©MONSTRA

De: Alexander Gratzer

Enquanto dois pássaros têm uma conversa existencial, uma pequena maçã vai avançando para as profundezas de uma caverna sob um olhar atento.

Escrita, editada e musicada por Alexander Gratzer, “Apfelmus” dá vida a um deslumbrante mundo colorido. Um campo de ténis onde árvores com ninhos, pomares e ursos polares coexistem, esta belíssima pintura animada faz-se de subtileza e humor sofisticado.

Gratzer decide subverter as nossas expectativas em relação ao mundo animal e dotar os protagonistas deste universo de dilemas existenciais penosos. Os diálogos desta curta são perfeitamente extravagantes e bizarros, provocando o riso e a reflexão em igual medida. Sentimo-nos a mergulhar numa toca do coelho abstrata, sugados desde o primeiro instante até ao final destes intensos 7 minutos de conteúdo.

O absurdo nunca foi tão aprazível como neste “Apfelmus”, uma colorida mancha metafísica para apreciar na MONSTRA ’21.

Classificação: 92/100




ATRAVESSAR (ÍNDIA, 2019, 11′) 

MONSTRA 2021
©MONSTRA

De: Upamanyu Bhattacharyya , Kalp Sanghvi

Numa versão de Calcutá, em que a Índia se torna inabitável devido à subida do nível do mar, uma família de refugiados ambientais é encurralada por um tigre nas ruas inundadas.

“Atravessar”, “Wade” no original, é uma distopia ambiental assustadoramente próxima de um potencial futuro indomável. É fascinante, cruel, difícil de ver e de processamento complexo. Pouco indicada para os mais novos, “Wade” é muito mais fatídica do que esperançosa, conduzindo-nos até um mundo onde a fealdade parece ter ganhado nítido avanço.

O filme foi premiado no afamado Annecy e em muitos outros festivais importantes de cinema de animação, não fosse a sua temática tão transversal e urgente. É um murro no estômago apropriado para fechar esta sessão da MONSTRA.

Classificação: 74/100

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A MONSTRA aconteceu, em 2021, entre 21 de julho e 1 de agosto. 

Acompanharam a 20ª edição do Festival de Animação de Lisboa? 

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