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MONSTRA ’21 | Homenagem Raoul Servais Curtas 2

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Em 2021, o Festival MONSTRA recebe a Bélgica como o seu país convidado. Para além de prestar homenagem a diversos estúdios e festivais de cinema oriundos desse país, celebra também o trabalho do autor que colocou a animação belga no mapa  – Raoul Servais. 

Vimos uma das sessões de homenagem à arte de Raoul Servais e deixamos as nossas impressões acerca do conjunto heterogéneo de obras exibidas!

Raoul Servais, o mais conceituado autor do cinema de animação belga, que conta hoje já com 93 primaveras, foi homenageado no primeiro fim de semana do Festival MONSTRA com duas sessões de exibições das suas curtas mais emblemáticas. Assistimos à 2ª sessão, a qual decorreu no dia 25 de julho, domingo, no Cinema São Jorge.

Foram exibidas obras bem díspares, produzidas ao longo de quase 50 anos – entre 1971 e 2017. Nesta viagem cronológica incluiu-se “Harpya”, a narrativa de referência de Servais, pela qual venceu a Palma de Ouro de Melhor Curta, triunfando numa categoria dominada pelos filmes de imagem real.

Seguem-se as nossas análises a estes seus trabalhos, 7 obras entre o total de 16 filmes que integram a sua filmografia.

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OPERATION X-70 (BÉLGICA, 1971, 10′) 

Raoul Servais homenagem Festival MONSTRA

Um poderoso estado está a experimentar uma nova arma química, um gás que em vez de matar, anestesia as pessoas. Uma parte do gás é acidentalmente largado em “Nebelux”, um país pacífico, onde começam a aparecer coisas estranhas e repentinas.

“Operation X-70” abre em grande esta sessão de Homenagem a Raoul Servais Curtas 2 com uma comédia-dramática negra que evoca a energia sufocante e a desconfiança generalizada do período da Guerra Fria. O inocente país de Nebelux é bombardeado, por acidente, com o gás experimental “X-70”, uma droga criada em laboratório com o intuito de manter os sujeitos asiáticos num estado de letargia e euforia. Contudo, as consequências em ocidentais antevêem-se imprevisíveis.

Esta obra, que foi Prémio do Júri em Cannes, estabelece uma inteligente sátira à propaganda de guerra, às experiências de um período tenso da história da Humanidade e à própria noção de inocência, culpabilidade, “limpeza” e pureza. Um livro aberto a uma multiplicidade de interpretações, onde o grosseiro e o celestial se encontram.

Classificação: 90/100




PEGASUS (BÉLGICA, 1973, 9′) 

Festival MONSTRA Curtas Raoul Servais
©Raoul Servais Fund

Um antigo ferreiro já está demasiado velho para se adaptar à sociedade tecnológica sempre em evolução. Frustrado, cria o seu próprio universo no qual ainda assim se torna também obsoleto.

A homenagem a Raoul Servais no Festival MONSTRA em 2021 continua com a mais leve narrativa de “Pegasus”. Neste sonho campestre pintado em tons amarelados convidativos, Servais emprega, nas suas próprias palavras, uma técnica expressionista de pintura.

Neste caso o autor bebeu da pintura da escola de Laethem, trabalho desenvolvido na viragem do século XX e que se caracterizava pela presença de pessimismo, símbolos místicos, uma devoção pelos tempos patriarcais do passado, uma paixão pela Flandres rural e pela tradição da pintura holandesa. São estes os elementos que Servais recupera nesta sua humorística curta acerca da autonomia da criação artística.

De acordo com o autor, a criação desta obra, seguindo as técnicas homenageadas, foi bastante morosa e consumidora de tempo. O resultado final é uma obra invulgar, onde a pintura ganha vida própria.

Classificação: 75/100 




HALEWNY’S SONG (BÉLGICA, 1976, 12′) 

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A música encantada do Sr. Halewyn atrai raparigas que vêm de longe até à sua floresta sombria, de onde nenhuma delas regressa. Baseada numa canção medieval.

Se “Operation X-70” é uma evocação do fervilhar sócio-político do final do século XIX e “Pegasus” o confronto entre a evolução e a paixão pela ruralidade despretensiosa, então este “Halewyn’s Song” é o retorno a algo bem anterior.

Prova de que Servais não se fica por um género de animação ou uma (ou duas, ou três) preferência temática, aqui somos transportados para um período medieval e para um conto acerca de tentação e apropriação de narrativas por parte daqueles que, por norma, se vêm vitimados.

Nesta obra pautada pela ausência de diálogo e pela omnipresença de uma música hipnotizante, outro ponto alto é mesmo a arte da animação. Recorre-se à animação de recortes e enche-se o ecrã de cenários ricos, detalhados e belos. Uma narrativa trágico-cómica que, segundo o autor, teria inicialmente muito mais sangue não fossem os gostos conservadores de quem encomendou a peça…

Classificação: 80/100 




HARPYA (BÉLGICA, 1979, 9′) 

Festival Monstra Harpya Palm D'or
©Raoul Servais Fund

Durante a sua caminhada da tarde, o Senhor Oscar presencia um ataque. Fica bastante surpreendido ao ver que é obra de uma verdadeira harpia. Quer descobrir mais, mas pode ser perigoso.

“Harpya” é a grande obra da carreira de Raoul Servais, para a qual criou inclusive uma novíssima técnica de animação nomeada em sua honra – a Servaisgrafia.  Foi com esta curta vencedora da Palma de Ouro em Cannes, capaz assim de fazer o género da animação chegar a mais altos voos, que Servais começou a sua experimentação no que diz respeito à combinação entre imagem real e animação.

Encontrávamos-nos ainda na década de 1970, os efeitos especiais estavam ainda muito sub-desenvolvidos e eram, na sua vasta maioria, não computados. Eis que, sem o auxílio das ferramentas digitais, e recorrendo à animação mais trabalhosa da sua carreira, Servais criou aqui a fusão perfeita entre o real e o animado. De acordo com o autor, que ficou satisfeito com o resultado final, os atores tiveram de ser incorporados em fundos gráficos. Para tal, o realizador teve de criar todos os passos necessários à execução.

E sim, “Harpya” é impressionante do ponto de vista técnico, tal é dado adquirido. Não obstante, as suas virtudes expandem-se consideravelmente quando entramos dentro da surreal narrativa.O filme é capaz de provocar calafrios no seu espectador e um sentido generalizado de desconfiança e uma estranheza, o uncanny personificado, o pesadelo do unheimlich freudiano.

Uma inteligente abordagem da figura da Harpia, co-protagonista em mitos gregos, romanos e até japoneses, imponente e perigosa criatura presente nas aventuras homéricas. “Harpya” é um festim visual e uma engraçada abordagem alternativa à ideia de uma “femme fatale”.

Classificação: 90/100 




NOCTURNAL BUTTERFLIES ( BÉLGICA, 1998, 8′) 

Servais
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Uma linda mariposa leva-nos à sala de espera de uma estação de comboios abandonada. E de repente surge uma situação surreal. Inspirada no trabalho do pintor surrealista belga van Paul Delvaux.

Tal como nos foi indicado na apresentação antes da exibição deste conjunto de curtas no Festival MONSTRA, “Nocturnal Butterflies” é a homenagem de Servais ao trabalho de um emblemático pintor surrealista belga. Por isso o que aqui temos é, nada mais nada menos, do que um exercício criativo em que se confere vida a pinturas.

Belíssimo, “Nocturnal Butterflies” foi o justo vencedor do Grande Prémio e do Prémio da Crítica Internacional (associação FIPRESCI) no Festival de Annecy em 1998. Na obra convivem a natureza esotérica e lírica de certas sequências, a duplicidade do espelho, a figura do “outro”, a crítica social subliminar, o sonho que se torna pesadelo. 

De acordo com autor, este foi o seu único filme realizado recorrendo inteiramente à tecnologia da Servaisgrafia. Raoul Servais considera que esta foi uma técnica bem sucedida do ponto de vista visual mas que, em último caso, devido à muita mão-de-obra necessária e à destreza e tempo empregues na sua concretização, aliada ao desenvolvimento do digital, se acabou por tornar obsoleta. É possível ler mais acerca do processo de Servaisgrafia aqui. 

Classificação: 80/100 




ATRAKSION (BÉLGICA, 2001, 10′) 

Festival MONSTRA Curtas Raoul Servais
©Raoul Servais Fund

Um grupo de prisioneiros caminha numa paisagem desolada. Desesperantes paisagens, um deles ousa olhar para cima para uma luz brilhante. Será a liberdade? Decide dirigir-se a ela.

Uma das curtas-metragens mais livres desta sessão do Festival MONSTRA, pelo menos no que à resistência à fixação de significados diz respeito. Extremamente metafórica, “Atraksion” pode significar algo diferente para cada pessoa que a vê. Será uma alusão à forma como vivemos aguilhoados à rotina do dia-a-dia, repetindo as mesmas tarefas rotineiras, sem as questionar, enquanto noutros pontos do globo outros indivíduos fazem precisamente o mesmo – todos eles a olhar para o céu, para a luz, para a esperança de que, caso continuem a labutar, encontrarão por fim algo distinto?

A tradução moderna do mito de Ícaro, o qual tenha sido já transfigurado e apropriado ao século XX em “Operation X-70”, este filme marca um período de transição para Servais, a sua primeira incursão no mundo da animação digital. Por terras lusas, tinha já sido exibido no grande ecrã, aquando do Fastasporto de 2003, onde venceu o Grande Prémio para Melhor Curta de Fantasia e também Melhor Curta Internacional.

Classificação: 80/100 




TANK (BÉLGICA, 2015, 6′) 

Servais Tank 2015
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Pela primeira vez na história, a 15 de setembro de 1916, na Batalha do Somme, o exército britânico utilizou tanques para forçar um avanço na guerra de trincheiras. O uso desta nova arma foi uma experiência terrível, tanto para os soldados que defendiam as trincheiras como para a equipa dentro do tanque. Para Otto, na trincheira, e para John, no tanque, foi um ponto de viragem.

Ao contrário da experiência de visualização de muitas das curtas desta sessão “Homenagem Raoul Servais Curtas 2”, caracterizadas por um elevado nível de abstração, “Tank” é um drama de guerra afetivo realizado recorrendo a uma animação 3D simples e evocativa dos traços do desenho tradicional e com uma banda-sonora não disruptiva. Uma bela homenagem aos que se viram perdidos para os esforços inúteis da Guerra, “Tank” fala mais do amor do que da carnificina.

Interpretação livre do primeiro ataque por um tanque, no decurso da Primeira Guerra Mundial,  “Tank” baseia-se num poema de Pierre Jean Jouve –  “Le Tank”. Aqui. Servais escolheu uma representação meramente visual das palavras do poeta francês, onde poderia ter sido interessante uma breve citação textual explícita. Não obstante, esta é uma bela e melancólica obra, perfeita para encerrar esta sessão retrospetiva do Festival MONSTRA.

Esta é a mais recente curta criada por Servais, que continua ativo e a preparar novo filme (não obstante os seus 93 anos de idade).

Classificação: 85/100 

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O Festival MONSTRA 2021 decorre em várias salas da cidade até ao próximo dia 1 de agosto.  Poderemos continuar a ver a melhor animação no Cinema São Jorge, Cinema Ideal, Cinema City de Alvalade ou nas Cinematecas.

Estão na capital  e a acompanhar a programação? 

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