"O Conto da Princesa Kaguya" | © Studio Ghibli

MONSTRA ’23 | O Conto da Princesa Kaguya, em análise

“O Conto da Princesa Kaguya” é uma das grandes obras-primas do anime no século XXI, representando o fim da carreira de Isao Takahata, cofundador do Estúdio Ghibli. A obra, nomeada para um Óscar em 2015, esteve em destaque na MONSTRA deste ano, onde se fez celebração do cinema japonês enquanto país convidado.

Em “O Túmulo dos Pirilampos,” o cataclisma da guerra expressa-se pela impossibilidade da terra tornada num oceano. No gesto de contraposto, a quietude do sofrimento infantil aparece-nos em píncaros de serenidade que quase recordam o cinema de Ozu. Chegadas as “Memórias de Ontem,” o processo de recordar manifesta-se no vazio da folha branca e tinta diluída, uma força abstrata moldando o mundo animado. “Pom Poko” trouxe um toque surreal, com a plasticidade das personagens apelando a contrastes extremos. Por seu lado, “A Família Yamada” foi valente provocação, feita para parecer um rabisco mal pintado, uma improvisação.

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Assim se desenrola a carreira de Isao Takahata no Estúdio Ghibli, experimentações fortes sempre ao rubro, mesmo quando a história em si pode sugerir a convenção. Tudo acabou com “O Conto da Princesa Kaguya” que, em certa medida, é resumo de toda uma sensibilidade ao mesmo tempo que se afirma ‘filme testamento.’ Afinal, tanto do filme se foca na dor da despedida, ganhando a forma de um adeus final da parte de um cineasta para com sua audiência. Há muita melancolia, pois certo, mas também há euforia e a celebração de folclore, lendas, e tradições antiquíssimas. Trata-se, no fim de contas, de um conto, meio conto-de-fadas, transposto da herança oral e literária para o grande ecrã.

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© Studio Ghibli

Originalmente chamado “O Conto do Cortador de Bambu,” a história da Princesa Kaguya pensa-se ser o mais antigo artefacto da literatura nipónica, uma lenda transcrita. Tudo começa quando um casal de agricultores sem filhos descobre um bebé misterioso, aparecido como que por milagre no tronco decepado do bambu. Tornam-se assim pai e mãe para a menina, convencidos que a ela todas as maravilhas do mundo são devidas, inclusive a vida de princesa. Por isso mesmo, torna-se uma obsessão do patriarca ver a filha tornar-se em membro da nobreza. Infelizmente, os desejos paternos não correspondem às reais vontades da moça.

Kaguya honra os pais, mas fá-lo sem fulgor, sentindo-se restringida pelas regras da alta sociedade no Japão feudal. Passa o tempo e ela começa a ressentir-se da vida, querendo voltar à simplicidade do campo e sua existência rural. Só que, o movimento de fuga leva-a mais longe ainda, de volta ao mundo da sua origem. Ela é uma princesa, mas não do universo mortal. Seu lugar é lá no alto, num reino mágico da Lua, forçando outra separação, outra rutura e muitas mais lágrimas. Sentem-se os temas do dever tão presentes na literatura japonesa, mas também há um tenor de rebeldia para com a ordem imposta por forças superiores.

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Cenários, figurinos e desenho de personagem vão buscar inspiração às ilustrações enroladas do Japão antigo, mas também derivam do amor de Takahata a mestres da sétima arte. Em termos práticos, a história de época remete para o legado do cinema jidaigeki. Tematicamente, contudo, Ozu é referência evidente, especialmente as suas muitas histórias em volta de pais e filhas. Já em termos de estilo e o rigor histórico são muito mais Mizoguchi, enquanto a expressividade cromática relembra um Teinosuke Kinugasa com baixa saturação.  Dito isso, tanto se apela ao que veio antes que se pode perder de vista a inovação patente em todo o cinema de Isao Takahata.

Desde o início da carreira até ao fim dos seus dias, o realizador nunca perdeu o gosto pelo experimental. Veja-se a lista de estéticas diversas com que começámos o texto e veremos logo como Kaguya prolonga o percurso do artista, rumo aos limites do cinema. Através dos desenvolvimentos em animação digital, Takahata concebeu uma estética singular que replica a aguarela, tinta da china e lápis de cor sobre papel. O movimento é fluido graças ao advento computorizado, com uma noção de controlo suprassumo patente em cada fotograma. Até quando o caos explode, sentimos que há ordem no remoinho de linhas e mancha de cor sem forma definida.

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© Studio Ghibli

Há algo de primitivo na simplicidade que, na verdade, é extremamente complexa e na vanguarda do desenho-animado. Diríamos mesmo que, nesta sua última façanha, o realizador se torna num artista Expressionista em plenitude, deixando que a emoção dite a própria plasticidade do ambiente, do tempo, da carne e tanto mais. A um nível mais básico, menos específico, fica a garantia de que “O Conto da Princesa Kaguya” é deslumbrante. Todo o fotograma é pintura digna das paredes de um museu, com a bidimensionalidade propositada dando aso a composições maravilhosas onde o espaço vazio serve como reticência visual.

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No entanto, é o final que deverá perdurar na imaginação do espetador. Extravasando o estudo de personagem com o advento da fantasia, uma procissão celestial comanda a imagem e a sonoplastia para um interlúdio de cortar a respiração. É aqui que a tragédia ocorre, ou será um final feliz? É difícil dizer, pois o cinema de Takahata ama a ambiguidade do sentimento, o agridoce de todos os dias. A espetacularidade é imensa e sentimos a reposição de algo imperativo. Contudo, como a morte, esta conclusão magoa, deixando-nos no rescaldo da perda com olhos lacrimejantes. Poderia haver melhor despedida para este génio animador? Pensamos que não e, com isso, dizemos adeus a Isao Takahata. Obrigado por tudo.


O Conto da Princesa Kaguya, em análise
o conto da princesa kaguya critica monstra

Movie title: Kaguya-hime no monogatari

Date published: 29 de March de 2023

Director(s): Isao Takahata

Actor(s): Aki Asakura, Kengo Kôra, Takeo Chii, Nobuko Miyamoto, Atsuko Takahata, Tomoko Tabata, Shinosuke Tatekawa, Takaya Kamikawa, Shichinosuke Nakamura, Isao Hashizume

Genre: Animação, Drama, Fantasia, Família, 2013, 137 min

  • Cláudio Alves - 95
95

CONCLUSÃO:

Um adeus cinematográfico, “O Conto da Princesa Kaguya” usa a modernidade do digital para propor uma animação reminiscente da tinta sobre papel. O folclore torna-se literatura, torna-se tragédia do grande ecrã, culminando num momento onde parecemos ver o somatório de toda uma carreira, o testamento do artista.

O MELHOR: A animação em aguarela viva, a música de Joe Hisaishi, a despedida de Isao Takahata.

O PIOR: Nada a apontar.

CA

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