The Secret of Kells

MONSTRA ’19 | The Secret of Kells, em análise

The Secret of Kells” foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Animação de 2009 e agora foi exibido como parte da MONSTRA, numa das suas secções especiais dedicadas a filmes animados de importância histórica.

Um dos artefactos mais importantes na História cultural da Irlanda é o célebre Livro de Kells, um manuscrito medieval que documenta os quatro evangelhos canónicos e é assim chamado devido ao facto de ter sido guardado, durante séculos, na cidade de Kells. É também na abadia de Kells que se presume que o livro tenha sido finalizado, mas ninguém sabe ao certo onde o processo teve início. Supõe-se, pelo menos, que tenha passado pela ilha de Iona, perto da costa escocesa, ao longo da sua criação. Hoje em dia, esta obra é considerada um dos mais belos exemplos da arte da Iluminura alguma vez vistos. Uma coisa é certa, ver as páginas ilustradas deste objeto histórico é vislumbrar imagens de uma beleza quase incompreensível, cuja descrição verbal é quase que impossível.

A existência deste livro, sua beleza e o mistério em volta das suas origens são tudo o que o realizador Tomm Moore precisou para desenvolver a história daquela que viria a ser a sua primeira longa-metragem. “The Secret of Kells” desenrola-se na Irlanda do século IX, durante um período de constantes invasões vikings, e centra-se num órfão chamado Brendan. O menino sem pais vive na cidade fortaleza de Kells sob a tutelagem do tio Cellach, o líder da comunidade e um homem obcecado em construir paredes espessas para se proteger dos vikings. Neste contexto, os interesses artísticos de Brendan e sua imaginação fértil não são muito bem aceites, a não ser pelos monges que passam seus dias a trabalhar no scriptorium da abadia.

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Um espetáculo formalista do mais alto gabarito.

É através dos monges que Brendan ouve falar de um esplendoroso manuscrito originário na ilha de Iona. Diz a lenda que sua beleza é tão grande, tão transcendente, que qualquer pecador que se atreva a olhar para as suas páginas ficará cego. Coincidência das coincidências, certo dia chega a Kells um monge vindo de Iona, o irmão Aidan que traz consigo um vivaço gato branco chamado Pangur Bán e o precioso manuscrito inacabado. Cellach oferece abrigo ao mestre da iluminura, mas continua a olhar com desdém os esforços artísticos dos monges e tenta que Brendan se foque mais na proteção da comunidade que na elaboração de textos sagrados.

Como seria de esperar, Brendan não dá ouvidos ao tio e torna-se aprendiz de Aidan, aprendendo a arte da iluminura e seus muitos métodos e técnicas. Um dia, em busca de bagas para criar tinta verde, ele vai à floresta circundante a Kells e lá trava amizade com uma fada do arvoredo chamada Aisling, que lhe mostra as maravilhas mágicas do mundo natural e o adverte para seus perigos, incluindo a tenebrosa voracidade da divindade maligna que dá pelo nome de Crom Cruach. Assim o filme se desenrola placidamente documentando a dedicação de Brendan à arte da iluminura até que o advento do terceiro ato dramático faz dos últimos quinze minutos do filme uma tempestade de conclusões apressadas que seriam desconcertantes não fosse sua forma bem reminiscente de narrativas de tradição medieval, como os contos arturianos.

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Tudo isso é texto e, convém dizer, “The Secret of Kells” não é um filme cuja qualidade deriva muito desse aspeto. Não há nada de errado a apontar com a narrativa e sua deliberada simplicidade proto folclórica, mas o que interessa neste projeto é a conceção visual que Moore e sua formidável equipa de animadores trouxeram ao conto de Brendan e do Livro de Kells. Considerando que, acima de tudo, o filme é uma celebração embevecida de arte gráfica medieval, esta mesma elevação das imagens animadas e sua particular estética ao estatuto de raison d’être de todo o projeto é algo apropriado. No final, esta produção de baixo orçamento consegue ser uma homenagem justa ao livro. Dizemos isto pois, tal como o Livro de Kells é um dos manuscritos iluminados mais belos de sempre, também este filme é um dos trabalhos de animação tradicional mais visualmente espetaculares de que há memória.

Tal como descrever a beleza do Livro de Kells é difícil, o mesmo se pode dizer sobre “The Secret of Kells”. Um pormenor importante a ter em conta é que o filme é extremamente bidimensional. Queremos com isto dizer que não existe qualquer noção de profundidade nas suas imagens, sendo que uma personagem em grande plano é desenhada no mesmo plano de visão que o fundo distante de uma floresta, por exemplo. Além disso, os cineastas foram buscar à iluminura medieval um tipo de perspetiva falseada que não tem nada de lógico ou verosímil, resultando em imagens que combinam objetos vistos de perspetivas incompatíveis. Tudo isto para dizer que, em termos básicos de desenho espacial, o filme é perfeitamente plano como uma ilustração medieval, algo que é exacerbado pelo uso de tecnologia de animação limitada, onde o tipo de composição com múltiplos planos e movimentos de câmara que estamos habituados a ver em filmes dos grandes estúdios americanos são impossíveis de obter.

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A beleza de uma obra de arte pode ser algo transcendente.

Nada disso retira qualquer tipo de qualidade estética ao filme, muito pelo contrário. Aliado a esta bidimensionalidade extrema, todas as personagens foram desenhadas de modo a sugerir o tipo de desenho humano visto nas iluminuras celtas, e todas as superfícies são definidas por padrões tirados diretamente do Livro de Kells. Só mesmo no final da narrativa é que os cineastas se dão ao trabalho de copiar versões animadas do livro, mas seu estilo visual está presente em todos os elementos das imagens, desde as cores vibrantes usadas até à insanidade geométrica que compõe a floresta. Uma batalha tenebrosa numa dimensão de sombras e horror é particularmente extraordinário no seu jogo de perspetiva e engenho geométrico.

Mesmo considerando os outros filmes do Cartoon Saloon, o estúdio de “The Secret of Kells” é impossível encontrar outro objeto cinematográfico cujo estilo é justamente equiparável a esta obra-prima. Por isso mesmo, o filme de Tomm Moore representa uma joia incalculável no panorama do cinema mundial, um feito sui generis. Há quem olhe para a modéstia narrativa e a falta de complexidade psicológica no retrato das personagens e acuse o filme de ser um exemplo flagrante de estilo acima de conteúdo. Contestar a validade dessa crítica, que pressupõe que o conteúdo textual de uma arte intrinsecamente audiovisual como o cinema é superior à sua conceção estética, é inútil. Contudo, neste particular caso, tal crítica é bem injustificável. Ao longo da narrativa, o poder transcendente da beleza do objeto artístico é tido como algo valioso por si só, tanto a níveis espirituais como intelectuais, emocionais e até sociológicos. Ao ver “The Secret of Kells” é possível entender essa mesma experiência, a maravilha que é ser confrontado com algo tão belo que, de repente, tudo o resto desaparece e a vida ganha propósito, o caos do mundo faz sentido por instantes e o ser humano é capaz de aí ver algo superior a si mesmo.

The Secret of Kells, em análise
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Movie title: The Secret of Kells

Date published: 25 de March de 2019

Director(s): Tomm Moore

Actor(s): Evan McGuire, Christen Mooney, Brendan Gleeson, Mick Lally, Liam Hourican , Paul Young, Nora Twomey

Genre: Animação, Fantasia, Aventura, 2009, 71 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

“The Secret of Kells” é uma obra-prima de cinema de animação levado aos antípodas da sua sofisticação pictórica. Observar a beleza deste artefacto cinematográfico é algo quase transcendente. Além disso, o filme é bem divertido e excitante, com um elenco de personagens coloridas com que é bom passar tempo.

O MELHOR: Toda a conceção visual da obra, especialmente a batalha contra Crom Cruach.

O PIOR: A fulminante rapidez com que os últimos 15 minutos se esforçam para concluir a história de modo definitivo.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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