"Mar do Norte" | © MOTELX

MOTELX ’22 | Mar do Norte, em análise

Mar do Norte,” também conhecido como “Nordsjøen” ou “The Burning Sea,” continua uma tradição de filmes noruegueses sobre catástrofes naturais. Realizado por John Andreas Andersen, a obra representa uma interseção entre o modelo do terror e a narrativa de catástrofe, algo que o MOTELx tem vindo a explorar com a sua programação recente. Na 16ª edição do festival, esta fita teve projeção especial dentro do programa FILMar, sobre permutações do terror em cenário marítimo.

Nos últimos anos, a Noruega tem-se vindo a provar como melhor casa para o cinema de catástrofes do que Hollywood. Não contradizendo os paradigmas do subgénero, artistas noruegueses mostram como concretizar tais premissas com aprumo formalista e argumentos que não presumem a idiotice do espetador. Não se trata de cinema que desafia intelectualmente, mas sim um espetáculo de miséria monumental com sequências de tirar o fôlego e visões do outro mundo. Além do mais, estes trabalhos refletem uma ideologia ecológica que torna as fitas urgentes, suas mensagens pertinentes no contexto atual da crise climática.

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Em 2015, “Bølgen: Alerta Tsunami” surpreendeu o mundo com uma proposta cataclísmica sobre uma onda gigante que ameaça comunidades que vivem nos fiordes noruegueses. Os produtores desse sucesso continuaram a história das personagens com “O Terramoto,” proposta na mesma linha, mas mais ambiciosa. De uma localização isolada, passou-se à capital, Oslo reduzida a escombros num píncaro de destruição massiva. John Andreas Andersen realizou essa segunda obra e vem agora assinar “Mar do Norte,” um filme que não é sequela oficial, mas que ajuda a compor uma trilogia unida por temas e técnicas comuns.

Tal como os capítulos primeiros, esta terceira dose de angústia à escala monumental começa por oferecer algum contexto histórico ao espetador. Em 1969, descobriu-se o Ekofisk, um colossal campo de petróleo que veio enriquecer a Noruega e encheu a nação com aspirações de potência global. Uma série de perfurações ao longo das décadas levaram ao aparecimento de várias plataformas petrolíferas no Mar do Norte, pontos feitos pela mão humana que assim delineiam as falhas geológicas à superfície das ondas. A ação do filme passa-se cinquenta anos após o Ekofisk ter mudado, para sempre, a História económica do país e propõe um pesadelo onde a Natureza se vinga daqueles que a abusaram.

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Os protagonistas dos filmes passados não põem os pés nesta nova narrativa, mas o tenor do enredo replica as suas provações perante o tsunami e o terramoto. Sofia é a nossa heroína, especialista em robótica submarina que, no começo da trama, é encarregue de investigar o colapso de uma plataforma petrolífera. Essa primeira missão desencadeia um dos episódios mais perturbadores de “Mar do Norte,” quando Sofia e Arthur, seu colega, testemunham a lenta asfixia de um homem através de um vídeo feed, incapazes de o salvarem. Infelizmente para eles, essa horrenda morte não é a única desgraça capturada pela câmara.

Nas imagens transmitidas pelo robot subaquático, os dois trabalhadores percecionam uma enorme fratura no solo marítimo. A falha geológica está a abrir-se, propulsionando uma onda de gás inflamável para a superfície – indo rebentar com todas as plataformas petrolíferas norueguesas. Não só se avizinha uma impensável perda de vida, mas também uma crise ambiental titânica, sendo que o petróleo derramado irá provocar uma maré negra como nunca antes foi vista. O desastre do Deepwater Horizon será algo minúsculo comparado com a catástrofe que se avizinha. Para Sofia, há ainda a vertente pessoal, sendo que o seu namorado, Stian, trabalha numa das plataformas condenadas à destruição total.

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Nenhum do drama humano é especialmente complexo, mas os atores elevam-no acima do cliché sem substância – palmas para Kristine Kujath Thorp que, nos últimos anos, se tem vindo a afirmar como uma das estrelas em ascensão do cinema nórdico. O que faz vingar a fita é o controlo audiovisual de Andersen e sua equipa criativa, especialmente no que se refere à fotografia e efeitos visuais. Chegado o clímax da fita e a imagem apocalítica de um mar em chamas, é difícil ficar indiferente face ao filme, sua grandiosidade uma força esmagadora, as intenções nobres expressas através do máximo espetáculo. Além disso, “Mar do Norte” também evidencia uma tensão inerente ao sonho industrial da Noruega, país que explora o petróleo e ao mesmo tempo promulga vontades ambientalistas. É uma contradição que este terror catastrófico evidencia, consolidando ansiedades nacionais em celuloide.

Mar do Norte, em análise
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Movie title: Nordsjøen

Date published: 14 de September de 2022

Director(s): John Andreas Andersen

Actor(s): Kristine Kujath Thorp, Henrik Bjelland, Rolf Kristian Larsen, Anders Baasmo, Bjørn Floberg, Anneke von der Lippe, Christoffer Staib, Ane Skumsvoll, Cengiz Al, Nils Elias Olsen

Genre: Ação, Drama, Thriller, 2021, 104 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

Não há como negar a qualidade do entretenimento catastrófico proveniente do cinema norueguês. Depois do tsunami e do terramoto, “Mar do Norte” é mais um triunfo que se deixa levar pelos lugares-comuns do género sem ser condescendente para com o espetador ou displicente no que se refere à forma cinematográfica. Efeitos visuais e fotografia belíssima elevam os últimos capítulos da história, sugerindo desastres cuja grandiosidade tanto arrebata como horroriza.

O MELHOR: As imagens do mar em chamas, a racionalidade fria que rege as decisões tomadas pelas personagens no poder, a vertente trágica de todo este conto sobre a Natureza em crise.

O PIOR: Os clichés são muitos e o espetador nunca se pode dizer surpreendido. Apesar de bem interpretadas, as personagens são arquétipos simples, desprovidas de grande dimensionalidade.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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