MOTELX ’22 | Saloum, em análise

Para a sua segunda longa-metragem, o cineasta congolês Jean Luc Herbulot foi buscar inspiração aos westerns clássicos, à tradição do terror e do cinema de ação dos anos 80 também. “Saloum” é uma espécie de neo-western em cenário senegalês que resvala para o pesadelo autêntico nas suas passagens finais. Depois de estrear no Festival de Toronto do ano passado, este exemplo de cinema africano chegou às audiências portuguesas por via do MOTELx, integrando a secção Serviço de Quarto.

Tudo começa entre o idílio do sonho e uma realidade definida por violência. “Saloum” abre com a imagem de um jovem que caminha em água, dirigindo-se para as profundezas de algo incerto. Nas suas mãos segura uma pistola e uma corrente, no céu brilham o sol e a lua. O ambiente é místico, um poema sussurrado em cinema digital que depressa rebenta numa cena muito menos abstrata. Corta para a Guiné-Bissau em 2003, onde um golpe de estado anuncia a mudança de regime. A história da revolta militar é distorcida pela narrativa da fita, lembrada como uma carnificina total por onde os protagonistas de “Saloum” deambulam na esperança de ganhar alguns cobres.

saloum critica motelx
© MOTELX

São eles as Hienas de Bangui, três mercenários que matam os soldados nas ruas ruinosas da capital guineense, deixando cadáveres de combatentes entre os corpos de civis, incluindo algumas crianças. Eles buscam por um senhor da droga mexicano que está escondido no meio do caos. Chaka, Rafa e Minuit andam à caça de Felix e suas barras de ouro e acabam por encontrá-lo nas primeiras cenas da fita. Quando lá asseguram o tesouro, as hienas fogem com ele de avião rumo ao Daka. Contudo, prontos a desfrutar do saque, o sonho doirado destes homens violentos cai por terra quando uma bala põe fim ao voo.

Dos céus lá eles aterram numa paisagem inóspita, a região do delta Sine-Saloum no Senegal, onde as margens do rio pressagiam ligações ao além e toda a terra parece esconder segredos obscuros. Também Chaka tem os seus segredos, assumindo-se como máximo protagonista da obra e a figura em torno da qual “Saloum” sofre as suas mais radicais reviravoltas. Acontece que o líder carismático das Hienas não é um estranho em terras estranhas, mas alguém que já por aqui passou. Traumas do passado assombram-no, quais fantasmas aliciando-o a seguir um caminho de castigo. As palavras ominosas “a vingança é como um rio” reverberam pela sua figura e por todo o “Saloum.”

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Antes dessa vingança se materializar, contudo, os mercenários e seu refém encontram guarida num resort rural, cujo dono, Omar, os recebe como um rei magnânimo acolhe forasteiros de um reino distante. Há algo sinistro na sua hospitalidade, um sentimento de insegurança que cresce com cada novo vislumbre do espaço, dos arredores e sua miserável população. Herbulot constrói uma atmosfera opressiva ao reconfigurar iconografias do spaghetti western de Sergio Leone dentro de uma tonalidade mais próxima do terror de ação à la “Predador.” Só que, aqui, os monstros não são aliens caçadores, mas algo simultaneamente mais sobrenatural e mais mundano também.

A História complicada do Senegal é um contexto complicado sobre o qual se constroem os horrores mais corrosivos de “Saloum.” Assim a narrativa, sempre cheia de surpresas e contrastes, força o espetador a considerar os séculos de sangue derramado sobre a terra em cena. O colonialismo atormenta o passado, mas também o fazem outras monstruosidades diabólicas. A certa altura, o terror toma a forma de uma nuvem de pestilência, a decadência da terra estéril manifesta em estilos arrepiantes. São estas forças enigmáticas espíritos que protegem a natureza do mal humano, algo patente no folclore local? Ou serão algo mais necrófago, como moscas sedentas por carne podre que vingam neste cenário de desolação suprassuma?

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© MOTELX

Herbulot tudo isto elabora com fantástico formalismo, mantendo ritmos apressados e grande aprumo audiovisual. Seu maior triunfo, contudo, nem será a conflagração de géneros em jeito de colagem estilística, mas sim a construção das personagens. Entre o argumento poliglota que escreveu com base na história de Pamela Diop e seu trabalho com os atores, o realizador introduz aqui um elenco fenomenal que não nos importaríamos de acompanhar noutras aventuras tenebrosas. Yann Gael, em particular, é uma estrela em termos de puro magnetismo, fazendo o retrato psicológico de Chaka sem jamais trair os anti-naturalismos subjacentes a este tipo de jogo cinematográfico.

Saloum, em análise
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Movie title: Saloum

Date published: 14 de September de 2022

Director(s): Jean Luc Herbulot

Actor(s): Yann Gael, Evelyne Ily Juhen, Roger Sallah, Mentor Ba, Bruno Henry, Marielle Salmier, Babacar Oualy, Ndiaga Mbow, Cannabasse, Renaud Farah, Alvina Karamoko

Genre: Ação, Terror, Thriller, 2021, 84 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

Uma história de gangsters, um épico de piratas em terra firme, um western espicaçado pelo trauma de infância e o terror da terra antiga – “Saloum” é tudo isso e muito mais. Este cocktail de géneros assinala jean Luc Herbulot como um dos nomes mais interessantes na conjetura do cinema africano contemporâneo.

O MELHOR: As passagens finais de “Saloum” são tão empolgantes como suscetíveis aos calafrios para o espetador insólito. Adoramos quando um filme nos surpreende!

O PIOR: Muito celebramos a natureza propulsiva da história, mas, por vezes, quase se queria que a trama acalmasse os seus ritmos. Uma pausa para contemplação seria boa forma de variar o desenrolar de mito e sonho mau, memória e alegoria histórica.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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