"Extraneous Matter – Complete Edition", do Japão para Lisboa | ©MOTELX

MOTELX ’22 | Extraneous Matter – Complete Edition + Hideous

Na secção central do MOTELX, Serviço de Quarto, aquela que procura exemplificar o terror mais notável produzido ao longo dos últimos dois anos, exibiu-se, em sessão única, a bizarra narrativa episódica japonesa “Extraneous Matter – Complete Edition”, antecedida de “Hideous”, uma curta emocionalmente poderosa. Os dois filmes, distintos em origem geográfica e temática, não deixaram de se complementar através da sua exposição da interioridade humana. 

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No dia 6 de setembro, pelas 0h00, na Sala 3 do Cinema São Jorge, surgiu a primeira sessão com dois filmes da programação da 16ª edição do MOTELX. Antes do curto “Extraneous Matter – Complete Edition”, tempo para descobrir “Hideous”, uma viagem musical poderosa e que, francamente, bateu grandemente a longa-metragem que se lhe sucedeu.

HIDEOUS COM OLIVER SIM (22′) – REALIZADO POR YANN GONZALEZ

O músico Oliver Sim é o convidado principal de um programa de entrevistas que se transforma numa jornada surrealista de amor, vergonha e sangue.
Um filme de terror queer em três partes com músicas do tão esperado álbum de estreia de Sim, Hideous Bastard.

Sinopse oficial na plataforma MUBI, onde esta gloriosa curta musical vanguardista estreou a tempo do lançamento do álbum a solo de Oliver Sim, produzido por Jamie XX (que também surge na curta no breve papel de operador de câmara) e lançado a 9 de setembro de 2022.

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“Hideous”, curta musical britânica em três partes, realizada por Yann Gonzalez (também responsável pela arrojada, emocionalmente e sexualmente desperta longa “Knife + Heart”, que em 2018 passou pelo MOTELX)  e co-escrita pelo realizador em colaboração com Oliver Sim, arrancou este momento de programação. O pequeno e delicioso filme reflete sobre a vida deste cantor, baixista e compositor, mais conhecido por integrar os The XX desde a fundação do grupo (Oliver e Romy conhecem-se desde os 3 anos de idade e conheceram Jamie aos 11).

Em certa parte, esta curta serve a função muito pragmática de introduzir algumas das canções do álbum de Oliver Sim e conferir-lhes videoclipes arrojados. Por outro lado, “Hideous” é muito mais que isso. É uma jornada que, em apenas 22 minutos, é capaz de mergulhar nos confins da individualidade da personagem central deste filme. Oliver Sim encarna uma versão fictícia de si mesmo e, desta forma, é capaz de se conciliar com os seus sonhos, a sua infância, a sua não-conformidade perante papéis de género, mas também com os cantos mais obscuros da sua mente, purgando-os na forma deste monstro “odioso”.

Entre três momentos que oscilam entre o gore, a sátira, a introspecção, a auto-descoberta e o terror reflexivo (e claro, a música) chegamos ao climax com o vídeo que surge acima. “Hideous”, primeira canção do álbum e que dá nome à curta, é também a música escolhida para fechar o pequeno (grande) filme. Para quem tenha o interesse espicaçado, recomendamos a que subscrevam a 7 dias gratuitos na plataforma MUBI e por lá vejam os 22 minutos inteiros desta bela curta repleta de música e poiesis. Isto porque, caso visualizem apenas o clip acima, perderão a viagem emocional poderosa que se conclui ao longo dos três atos e que termina com este vídeo em chave de ouro, com a ajuda da participação do ícone queer Jimmy Somerville. No arranque, a introdução é feita por uma majestosa Bimini (conhecida pela sua participação no franchise Drag Race).

“Hideous” foi legitimamente nomeado à Palma Queer em Cannes, passou pelo Outfest nos EUA, pelo Festival de Melbourne e, ainda este mês, volta a passar por Lisboa por ocasião do Queer, no dia 23, também no Cinema São Jorge.

Regressando à programação do MOTELX, “Hideous” integra-se na novíssima “Secção X“, uma parte da programação deste ano que se dedica a curtas com tonalidade experimental e que procuram “manifestar o fantasma do terror no cinema underground”. Se “Hideous” é um filme sintomático do presente e do futuro desta secção, que seja muito bem-vinda!

Nota: 85/100

EXTRANEOUS MATTER – COMPLETE EDITION (60′) DE KENICHI UGANA

Extraneous Matter – Complete Edition 2022 motelx
©MOTELX

Depois de um arranque de sessão repleto de emoções diversas, eis que esta sessão progrediu com “Extraneous Matter – Complete Edition”, um filme que, não integrando a “Secção X”, de certa forma em muito se adequa a ela. Em primeiro lugar, devido à sua busca pela transgressão das normas societárias e pela sua procura dos desejos ocultos; em segundo lugar devido à sua própria construção narrativa: fragmentada, episódica e perfeitamente surrealista.

“Extraneous Matter – Complete Edition” é-nos apresentado em vários capítulos, cada um deles mais bizarro que o outro. Muitos são os elementos ricos e interessantes desta peça estranha que, na marca dos 60 minutos, consegue por vezes parecer algo longa. Esta desconstrói a existência rotineira dos seus protagonistas, introduzindo como elemento disruptivo uma criatura bizarra, com tentaculares braços negros, que é capaz de fazer despertar prazeres esquecidos em quem entra em contacto consigo.

O filme parece também, de forma indireta e enigmática, ter muito a dizer acerca de compaixão, solidariedade e humanidade. Fá-lo da forma mais insana. Em certos momentos, “Extraneous Matter – Complete Edition” não parece senão um filme pornográfico que tira partido impróprio do corpo feminino; por vezes, parece antes um tratado sobre libertação, euforia e repressão. Ocasionalmente, é apenas demasiado tosco para o seu próprio bem, com o seu mostrengo à base de practical effects e muito pouco digital (ossos do ofício do cinema indie, que em nada perde por aí o mérito). Para o que nos traz de bom, como a sua fotografia e cuidada mise en scène ,”Extraneous Matter” traz também muita coisa apenas assim-assim.

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Tudo começa quando, num dia rotineiro e filmado a preto e branco, uma mulher japonesa com olhar melancólico, presa numa relação monótona, encontra no armário uma criatura inexplicável e que lhe permite, por fim, sentir prazer. O prazer que vira reprimido, a satisfação que vira amordaçada. Eis que a criatura, uma espécie de matéria negra extra-terrestre já mencionada, começa a espalhar-se por todo o Japão, e pelo mundo, provocando reações muito díspares nos indivíduos que, por norma, parecem dividir-se entre os que têm a capacidade de empatizar e os que não têm. Mas a criatura, mais pura que a Humanidade, é capaz de estabelecer contacto genuíno com qualquer um(a). Uma metáfora para a alienação de um outro que seja diferente?

A mitologia de “Extraneous Matter – Complete Edition” (mais uma série de curtas coladas do que uma longa) é altamente confusa, de forma intencional. Findado o filme, muitos dos seus eventos permanecem um mistério. Esta não é uma experiência de sala fácil ou facilmente digerível, mas não deixa de se afirmar como audaz no seu conteúdo e na forma. Da inesperada homenagem a Spielberg às orgias tentaculares, “Extraneous Matter – Complete Edition”, a versão aumentada de uma curta do mesmo nome, tanto nos faz rir, pensar e nos enternece, como nos deixa num estado de profundo desconforto e confusão. Atribuir-lhe uma classificação é, assim,  uma ingrata e vil tarefa.

Extraneous Matter – Complete Edition + Hideous, em análise
Extraneous Poster

Movie title: Extraneous Matter – Complete Edition

Movie description: Depois de mais um dia presa na sua relação monótona, uma mulher encontra no seu armário uma criatura estranha que a 'ataca' com tentáculos que a fazem subir até às nuvens. Esta 'matéria estranha' rapidamente se espalha por todo o Japão, entranhando-se no dia-a-dia das diferentes personagens que passamos a seguir, tornando-se em algo a que estas se habituam.

Date published: 9 de September de 2022

Country: Japão

Duration: 60'

Author: Kenichi Ugana

Director(s): Kenichi Ugana

Actor(s): Kaoru Koide, Shunsuke Tanaka, Momoka Ishida

Genre: Terror, Drama

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CONCLUSÃO

“Extraneous Matter – Complete Edition” é uma narrativa insana dividida em vários capítulos, que se assemelha mais a várias curtas levemente unidas do que a uma longa-metragem completa. Não obstante, a sua fragmentação acaba por contribuir para uma singularidade palpável.

Pros

  • Para o bem e para o mal, “Extraneous Matter – Complete Edition” deixa-nos boquiabertos e resiste à fácil categorização. É um esforço cinematográfico que toca vários géneros e que dá azo à experimentação;
  • A sua bela fotografia naturalista que contrasta grandemente com a temática do filme;
  • O esforço de transgressão dos tabus quotidianos, particularmente rígidos na sociedade japonesa.

Cons

  • A sua desconfortável exposição pornográfica do corpo feminino;
  • A profunda aleatoriedade dos seus vários atos e a necessidade de explicar, com um apontamento final, o porquê dessa mesma natureza aleatória. Todo o sentido estava já subjacente, explicar em demasia é apenas supérfluo.
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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