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Mr. Jones – A Verdade da Mentira, em análise

Mr. Jones é um retrato urgente e sombrio de uma das páginas mais negras da história soviética, mas deixa-se entorpecer nos semblantes demasiado rígidos que sofrem para dentro, e nas banalidades da sua contextualização histórica.

Num primeiro contacto, ninguém diria que o título cortês com a “punchline” dicotómica mais batida de sempre, pudesse encerrar no seu âmago uma mensagem tão ríspida e incisiva, quanto aquela que a premiada realizadora polaca Agnieszka Holland é capaz de nos oferecer, a propósito do “Holocausto Ucraniano” dos anos 30. A morte pela fome (“Holodomor”) como ficou registado nas brumas da memória, resultou dos delírios megalómanos de Estaline (“O Homem do Aço”) em industrializar e urbanizar exponencialmente o país à custa da coletivação forçada da propriedade agrícola, privando os camponeses do seu gado e das suas colheitas em prol da prosperidade económica. Mais de sete milhões de ucranianos terão sucumbido à autofagia dos seus próprios corpos, em condições climatéricas extremas.

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E é nesse panorama hostilizador de total falência humana, que Holland vai dissecando a tal calamitosa verdade da mentira pelos olhos clínicos do resiliente e sagaz Mr. Jones (James Norton), incitando-nos a viajar com ele por uma galeria de “frescos” cínicos e provocadores, que se vão esgazeando numa aguarela de palidez mórbida. Mas antes de avançarmos para essa ruralidade engaranhada e abandonada à sua sorte, o guião da estreante Andrea Chalupa, que esteve a marinar durante década e meia enquanto projeto de faculdade inspirado nas vivências do seu avô naquela época, começa logo por balbuciar a sua trama com a evocação paralela de um George Orwell a narrar passagens da sua fábula “O Triunfo dos Porcos”, como se a sua história precisasse de qualquer validação e já não falasse por si própria. Claro que o aclamado romance satírico do escritor inglês, publicado na poeira de Hiroshima, merece a devida correlação com os eventos em questão, mas a natureza abstrata da sua prosopopeia em nada enaltece a brilhante e petrificante imagem do novato Tomasz Naumiuk, que começa a dar cartas no cinema e televisão.

mr jones a verdade da mentira crítica
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Por seu turno, o repórter galês Gareth Jones, que existiu na vida real e também aqui leva emprestado o cognome de Orwell como Mr. Jones, revela-nos um James Norton talvez um tanto ao quanto benévolo de mais, tendo em conta as agruras da sua jornada devastadora, o que acaba por conferir-lhe uma dimensão emocional algo “fake”, não obstante a sua postura inquisidora bastante mais apelativa. E é nesse segundo output interpretativo, que Mr. Jones comanda as hostes na sua missão diplomático-jornalística de aferir os contornos políticos e sociais da repentina opulência da URSS, infiltrando-se nos meandros da imprensa estrangeira sediada no mítico hotel Metropol em Moscovo. Logo ali, Holland focaliza deliberadamente a sua objetiva minuciosa num insignificante copo com velas que lampeja as preces lutuosas de alguém, enquanto o robusto aparato policial denuncia desde logo aquela tonalidade tétrica de suspeição omnipresente, da qual Gareth não se conseguirá livrar facilmente. E é no recreio de sorrisos mentirosos envenenados por uma cordialidade mascarada de medo e objeção, que Jones reúne com o seu par do “New York Times”, um tal de Walter Duranty, vilanescamente decalcado por um Peter Sarsgaard passivo-agressivo de bengala em riste.

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Se quiséssemos invocar a tal linha alegórica Orweliana, tão atabalhoadamente requerida por Chalupa ao longo da intriga como uma partitura dessincronizada da sua música, é no binómio Duranty/Jones que reside a caricatura mais relevante entre o “porco” e o “homem”, subjacente à ideia basilar do poder versus servidão. Mas a ramificação ainda mais evidente dessa manta alargada revê-se na subjugação da sua redatora “superestrela” Ada Brooks, que exala por uma efervescente Vanessa Kirby, o guincho proibido da sua voz estrangulada pelo sistema. E é com a fama na bagagem de ter entrevistado Hitler e de ter sido conselheiro do primeiro-ministro inglês Loyd George, que Mr. Jones insiste em replicar o mesmo encontro ao mais alto nível com o homólogo russo, na esperança de regressar a Inglaterra com o furo sensacionalista. E enquanto Duranty instiga Holland a aguentar a pintura do seu quadro faustoso e autoritário com as cores garridas do deboche e perversidade da luxuosa “fome” moscovita, Gareth e Ada rapidamente gravitam numa inevitável simpatia conspirativa sobre a origem da verdadeira fome, a que vai abatendo vidas em pano de fundo como se nada fosse.

mr jones a verdade da mentira crítica
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Assim, o tridente antagónico vai friccionando os seus vértices numa sinergia de vontades e moods com agendas muito próprias, salvando Holland e Chalupa de um argumento quase a baquear com uma retórica demasiado airosa para a sua contundência imagética. E por muito que as soluções facilitistas do texto narrativo se ponham a jeito da consequente contestação nos mesmos moldes, é no retrato bucolicamente faminto, que Holland consegue congelar-nos a vista e aquecer-nos o coração com a violência cabal daquela desumanidade imperdoável. Em duas cenas marcantes: uma em que Jones é acolhido por um trio de crianças que lhe dão a comer uma taça com pedaços de carne arrancados de um cadáver em decomposição, e outra quando se cruza com um imponente lobo e ambos se fitam e seguem caminho em busca da sua sobrevivência; quase que somos esmagados emocionalmente pela crueza realista desses momentos aterradores, se Holland tivesse desamarrado essa emotividade do colete de forças, livrando-se do receio obsessivo de se descontrolar um bocadinho que fosse. É certo que há imagens que valem mais que mil palavras, mas fica a sensação de que tudo é maniatado com uma contenção sistemática de régua e esquadro.

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Mr. Jones não é, obviamente, um filme perfeito, e a sua toada lenta também não fará nenhum favor aos espetadores mais impacientes, mas, ainda assim, é um visionamento relevante pela sua inserção histórica alavancada em factos verídicos. Nesse contexto, o gracioso trabalho de Agnieszka Holland, apesar de revelar uma certa falta de densidade factual e emocional, deixa transparecer um inegável traço visual muito singular, algo que até poderá surpreender alguns pela positiva, quanto mais não seja pela mensagem pujante e implacável que deixa colada no grande ecrã. A Grande Fome na Ucrânia só foi reconhecida como ato genocida no seu país a 28 de Novembro de 2006, tendo sido ratificado pelos Estados Unidos apenas em 2018, e um ano antes pela nossa Assembleia da República…

Mr. Jones - A Verdade da Mentira
mr jones a verdade da mentira poster

Movie title: Mr. Jones

Movie description: Um retrato de Gareth Jones, o jornalista galês que foi o primeiro a revelar a chocante verdade por trás da utopia soviética e do regime de Josef Stalin: o genocídio da fome na Ucrânia perpetrado em 1933 pela União Soviética de Estaline.

Date published: 2020-01-14

Director(s): Agnieszka Holland

Actor(s): James Norton, Vanessa Kirby, Peter Sarsgaard

Genre: Biografia, Drama, Thriller

  • Miguel Simão - 72
  • José Vieira Mendes - 75
74

CONCLUSÃO

Mr. Jones é uma sátira artisticamente delatora do que foi um dos maiores massacres em massa do século XX, mas segue demasiado à letra a construção figurativa do clássico de Orwell "O Triunfo dos Porcos", perdendo-se naquele tipo de discurso falacioso muito novelista. Contudo, apesar dos "soft spots" argumentativos, poderá dizer-se que a fita de Holland triunfa com a sua visão distinta e impactante de uma das horas mas negras da História Mundial.

O Melhor: Performances genericamente bem conseguidas; edição visual peculiar; cinematografia de cortar a respiração.

O Pior: Argumento preguiçoso demasiado dependente da obra de Orwell; problemas técnicos ao nível do ritmo e cadência; repressão emocional constante e repetitiva padecem de alguma artificialidade.

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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