Mr. Link critica

Mr. Link, em análise

Mr. Link” é uma divertida aventura protagonizada por um explorador da Inglaterra Vitoriana e uma criatura hominídea vinda das florestas americanas. Trata-se de um triunfo técnico de animação stop-motion da autoria dos estúdios Laika.

Desde 2009 que a Laika se tem vindo a afirmar como uma das grandes potências no cinema de animação americano. Os estúdios fundados por Travis Knight perpetuam o uso de técnicas de stop-motion tradicionais emparelhadas com inovações tecnológicas e um nível de virtuosismo e espetacularidade que só são possíveis com um grande orçamento de Hollywood. “Coraline”, “ParaNorman”, “Os Monstros das Caixas” e “Kubo e as Duas Cordas” são as suas primeiras quatro longa-metragens e representam também as primeiras quatro obras-primas deste estúdio, cuja consistência qualitativa faz lembrar os anos dourados da Pixar.

Além do estilo de animação e técnica esplendorosa, algo que une este quarteto cinematográfico é a sofisticação das suas histórias. Os filmes da Laika atrevem-se a olhar com candor e maturidade para a dor de ser um pária numa sociedade que nos rejeita. Por entre considerações dolorosas sobre perda, “Kubo” viu o estúdio a explorar o poder de contar histórias com uma complexidade concetual que é raramente encontrada no cinema de Hollywood. Com tudo isto em conta, seria expectável que “Mr. Link”, a sua quinta longa-metragem seguisse as mesmas linhas. Isso não aconteceu.

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Uma amizade improvável entre um explorador arrogante e uma criatura mítica.

Há que admirar a prontidão e eficiência de um filme que sumariza, logo na primeira cena, o tom e prioridades cinematográficas que o caracterizam. Neste caso, tudo tem início com uma desventura pelo Loch Ness, por volta do século XIX, onde um pomposo explorador e seu assistente tentam dar de caras com o mítico monstro dessas águas. Com muito humor e ação, Nessie lá aparece, tendo a aparência de um pato cruzado com um dinossauro e uma surpreendente agilidade. O bravo Sir Lionel Frost consegue salvar o assistente das mandíbulas da criatura, mas, pelo meio da luta, perde a câmara e, com ela, qualquer prova que o possa ajudar a ganhar prestígio.

Não há seriedade nenhuma nesta cena, nem mesmo no subtexto. Tudo o que temos é uma aventura no modelo tipificado por obras literárias como “A Volta ao Mundo em 80 Dias” e filmes ao estilo da saga “Indiana Jones”. O que deleita o espectador é o prazer da comédia simples e gritada, o espetáculo da animação e a energia com que toda a ação se desenrola. Nada disto sugere uma experiência carente em qualidade. Contudo, indica uma obra dependente de prazeres mais simples e uma tonalidade mais unidimensionalmente brincalhona que os outros filmes da Laika.

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De facto, o “Mr. Link” até parece rejeitar seriedade portentosa no que diz respeito à estrutura da história. Enquanto “Kubo e as Duas Cordas” seguia o modelo de um épico e “ParaNorman” tomava como o exemplo tramas de terror clássicas, esta comédia opta por algo menos linear. Basicamente, o filme é composto por uma série de cenas curtas e episódicas, coladas entre si com transições apressadas e normalmente pontuadas por uma piada divertida. Considerando como “Mr. Link” é um conto de aventura que dá volta a meio mundo, não podemos criticar tal abordagem. O que é certo é que o filme passa a correr, sem grande espaço para respirar ou cair em aborrecimento.

A contrapartida principal de tal dinâmica é um certo sacrifício de caracterização e afinidade emocional entre espectador e narrativa do grande ecrã. Em “Mr. Link”, Sir Lionel é forçado a considerar as falhas do seu carácter e a entender como a validação das elites do seu campo de estudo não é algo que ela deva sequer desejar. Ele descobre isso através da amizade que trava com o Pé Grande, que se batiza a si mesmo com o nome de Susan, numa aventura que leva os dois até ao confim do mundo em busca de Shangri-La. É claro que, para um membro da parelha, a descoberta representa glória e admiração pública, enquanto para o outro é uma última chance de encontrar no mundo alguém da mesma espécie.

mr link critica
Um requintado feito de animação stop-motion.

Quase que dá pena como “Mr. Link” se está sempre a limitar a si mesmo, parando no precipício de genuína emoção e complexidade psicológica em nome do que supomos ser um maior apelo ao público infantil. O potencial para algo mais profundo está presente, mas nunca é explorado. O que é levado às antípodas do engenho cinematográfica é a técnica de animação, sendo que “Mr. Link” é um dos feitos mais espantosos da equipa da Laika. Os movimentos são uma maravilha de fluidez expressiva e as cenas de ação são divertimento para toda a família e um festim para os olhos em igual medida.

Além do mais, há instantes de humor no filme que não funcionam como são bastante arriscados e surpreendentes. Em tempos de Brexit e constantes apelos a heranças históricas e ao legado da “Cultura Ocidental”, a Laika atreve-se a deitar a língua de fora à insanidade que é a nostalgia para com os imperialismos britânicos de outrora. Os vilões, na sua maioria (este não é um filme que careça de variedade no que toca a figuras antagónicas), são caricaturas que fazem rir e dão que pensar. Basta ajustar um pouco a perspetiva do realizador e eles tornam-se irreconhecíveis dos heróis de tantos filmes semelhantes. Diríamos mesmo que todas as personagens coloridas do filme são um sucesso tremendo, tanto em termos de design como de escrita e performance.

Aquando do clímax “dramático”, por exemplo, há uma personagem de cabelos longos cujos movimentos são um autêntico milagre de comédia física, enquanto os heróis se defrontam com um dilema gelado cuja execução em stop-motion é de cortar a respiração. Face a tal grandiosidade, é fácil olhar para o desapontamento que o filme conjura em comparação com os outros trabalhos da Laika e aí ver uma grande injustiça crítica. Enfim, “Mr. Link” é bom cinema e uma excelente sobremesa de entretenimento fácil para miúdos e graúdos. Não é mais que isso. Contudo, estaríamos a ser loucos se não admitíssemos que, por vezes, isso é suficiente. Talvez esta seja uma dessas vezes.

Mr. Link, em análise
Mr. Link

Movie title: Missing Link

Date published: 2019-04-18

Director(s): Chris Butler

Actor(s): Hugh Jackman, Zach Galifianakis, Zoe Saldana, Stephen Fry, Matt Lucas, Timothy Olyphant, Emma Thompson, Amrita Acharia, Ching Valdes-Aran, David Walliams, Humphrey Ker

Genre: Animação, Aventura, Comédia, 2019, 94 min

  • Cláudio Alves - 72
72

CONCLUSÃO:

Em comparação com os primeiros quatro filmes dos estúdios Laika, “Mr. Link” deixa algo a desejar. Contudo, trata-se de mais um triunfo formal de animação stop-motion, com efeitos vistosos e cenas de ação deleitosas. O elenco de personagens é delirante, mas a história que as aproveita podia ser melhor estruturada. De forma geral, é um divertimento leve e belíssimo.

O MELHOR: A qualidade da animação, a secura cómica da voz de Emma Thompson na versão original e o humor anticolonialista de onde surgem os vilões principais da aventura.

O PIOR: A estrutura meio estrambólica e apressada. As montagens que usam mapas para saltar partes importantes e interessantes da aventura intercontinental são gestos particularmente infelizes.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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