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Mulher de um Espião, em análise

Com a Segunda Guerra Mundial como pano de fundo, “Mulher de um Espião” introduz o público nacional a mais uma obra realizada por Kiyoshi Kurosawa.

DOIS MUNDOS EM CONFRONTO, O PODER CIVIL E O PODER DOS MILITARES…!

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Em SUOAI NO TSUMA (MULHER DE UM ESPIÃO), 2020, o realizador Kiyoshi Kurosawa situa a acção em Kobe, cidade portuária do Sul do Japão, no ano de 1940. Muita da produção japonesa ao longo das várias décadas de uma das mais importantes indústrias cinematográficas do mundo sempre se orientou preferencialmente para o mercado interno. Naturalmente, nunca rejeitou a internacionalização e qualquer incursão das respectivas produções pelos meandros da História japonesa, sejam elas incursões no passado mais ou menos longínquo, seja no passado recente, partem do princípio que os diversos segmentos do grande público sabem do que se está a falar quando são referidos períodos e datas concretas, locais precisos, personagens específicas. Nada mais natural. O mesmo sucede em qualquer outro país que possua uma actividade cinematográfica digna desse nome e uma consciência plena da sua identidade, da sua memória e do património no sentido mais vasto da palavra. O que importa salientar não é o óbvio mas, no caso deste filme, o facto de a informação sobre o contexto em que as personagens se movimentam nem sempre possuir a consistência necessária para sustentar uma acção que gira em redor de uma actividade concreta, a espionagem, e de uma suspeita maior, ou seja, a de alguém poder ser ou não ser espião ao serviço de uma potência estrangeira e hostil, pressuposto dramático que conta com diversas linhas de força para o desenvolver a partir do percurso individual de uma série de figuras exemplares que de certa forma representam o modo de ser e estar no Japão em pleno Período Showa (1926-1989). Nas suas primeiras décadas, este período foi caracterizado por uma certa ocidentalização do Japão, ou melhor, por uma consolidação da “modernização” anteriormente iniciada e com precedentes no Período Meiji (1868-1912), movimento seguido no Período Taisho (1912-1926). Não obstante o derrube de práticas feudais e a introdução de instituições democráticas, pouco ou nada impediu a gradual ascensão de um ultra-nacionalismo de contornos fascistas, assim como o eclodir de uma série de guerras expansionistas de carácter imperialista. No plano interno, muitas foram as lutas que se desenvolveram entre uma cada vez mais influente extrema-direita militarista e os políticos moderados. Estes últimos acabaram por ser afastados, alguns mesmo assassinados, e os políticos mais radicais, no início da década de 40, acabaram por assumir de forma clara as rédeas do poder. Nesta altura, o Japão invadira a Manchúria e consolidava as suas ambições expansionistas na muito cobiçada China, posteriormente na Indochina, facto que mereceu a oposição nomeadamente dos Estados Unidos, da França, do Reino Unido e da Holanda, entre outros. Muito provavelmente, pela informação breve que vem inserida no corpo do filme, podemos dizer que na época em que decorrem os acontecimentos descritos na longa-metragem “MULHER DE UM ESPIÃO” já se faziam sentir as sanções impostas ao Japão pelas nações que viriam a constituir a frente aliada na Segunda Guerra Mundial. Resta dizer que, em resposta a este cerco estratégico, económico e diplomático, o Japão assinou o Pacto Tripartido, ou Pacto de Berlim, uma aliança dita de defesa com a Itália fascista de Benito Mussolini e a Alemanha nazi de Adolfo Hitler.

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Dito isto, voltemos agora a nossa atenção para as personagens protagonistas. Primeiro, o suspeito Yūsaku Fukuhara (interpretado com segurança por Issey Takahashi). Este homem, nitidamente orientado para um estilo de vida cosmopolita ao modo ocidental, possui um negócio de import-export, de que iremos conhecer o de seda natural, produto muito cobiçado pelos negociantes de produtos de luxo orientais. Recordemos, a acção situa-se em Kobe e o seu porto beneficiou desde 1853 da então política de abertura ao comércio com o Ocidente. De forma astuta, os argumentistas sabiam o que estavam a fazer e, sobretudo, a escrever, quando assim decidiram a localização da cidade para polarizar o conflito que ali se vai produzir entre o poder de um comerciante civil e o poder das autoridades militares que, através de pequenos e grandes sinais, não conseguem encontrar nele a lealdade que se exigia a um representante da protegida burguesia local. Esta personagem de vida fácil e confortável acaba por fragilizar ainda mais a sua posição junto da sociedade de Kobe, e sobretudo perante o olhar inquisidor da polícia militar, quando decide intervir na libertação, pagando a caução, de um negociante britânico que fora preso nas instalações da sua empresa por razões que nunca saberemos ao certo, mas duvidamos possuírem uma justificação plausível. De seguida vem a mulher do suspeito, Satoko Fukuhara (interpretada com subtil graciosidade por Yu Aoi). Ela vai ser confrontada com a retórica securitária do seu amigo de infância Taiji Tsumori (interpretado com subtileza granítica por Masahiro Higashide), que no papel de um graduado da polícia militar lhe confessa em jeito de aviso que o seu marido anda a ser observado ao abrigo das leis vigentes, nomeadamente a Lei de Mobilização Nacional, por causa de alguns sinais que o indicam como pró-ocidental. De facto, o casal vive numa casa que se inscreve mais no espírito da decoração ocidental do que aquele que na altura ainda prevalecia na maioria dos ambientes nipónicos. Para além do mais, ela e especialmente o marido demonstravam uma nítida preferência pelo guarda-roupa ocidental, por produtos importados (como o caso quase caricato de preferirem whisky escocês em detrimento da versão nacional). Mas o mais grave seria o sistemático contacto do empresário com estrangeiros oriundos de países com quem o Japão mantinha relações conflituosas. Nada displicente seria ainda o lado hedonista da relação pessoal do casal, com reflexos no círculo íntimo das suas amizades, onde a paixão pelo cinema aparecia como uma manifestação de prazer, um autêntico mergulho no lado mais ligeiro da vida que, para os militaristas, era considerada uma viciosa manifestação da sociedade civil onde se carregava a nota num estado de fruição e bem-estar que se desejava sem dor ou contrariedades de qualquer espécie. Nada que o pensamento burocrático de um representante da autoridade militar aceitasse num momento de disciplinada mobilização geral para uma guerra que se anunciava no horizonte como decisiva para as ambições do poder imperial. Por isso mesmo, no lado dos repressores iremos encontrar frequentemente como interlocutor de Satoko a figura de Taiji que, apesar da “segurança” do seu estatuto, demonstra um comportamento controverso, irrequieto e nem sempre coerente. Para Satoko ele não é um intruso, ela conhece-o há muito e será com ele que irá procurar um improvável equilíbrio existencial para acalmar a crescente suspeita de que o marido possa mesmo ser mesmo um espião ao serviço dos americanos. Ela sabe que o marido foi para a Manchúria com o sobrinho Fumio Takeshita (interpretado com precisão por Ryota Bando), alegadamente para montarem um canal de importação de medicamentos e outros bens que o país necessitava. Mas no regresso Yusako e Fumio vêm acompanhados por uma mulher, Hiroko Kusakabe (interpretada com eficácia por Hyunri), que ambos irão manter no segredo dos deuses, leia-se, no segredo de Satoko, cada vez mais convencida de que vivia paredes meias com um espião. Numa das mais eficazes sequências de “MULHER DE UM ESPIÃO”, por uma vez vestida com o quimono de cerimónia e após constatar pessoalmente acontecimentos estranhos e comprometedores, ela irá dar conta a Taiji da sua agora mais fundamentada suspeita. E se as peças deste jogo de xadrez político e pessoal já pressupunham jogadas arriscadas que, literalmente, punham em causa a missão, as ambições e os objectivos de qualquer das partes, mais ficarão baralhadas quando a jovem misteriosa, Hiroko, aparece morta a boiar na que supomos ser a baía de Osaka. Daqui para a frente, deixo aos espectadores que optarem pela visão deste filme descobrirem por si o novelo dramático e, porque não dizê-lo, melodramático, de um filme que entra realmente nos domínios do género espionagem, em que os labirintos e sombras crescem de intensidade e complexidade minuto a minuto e onde, precisamente, o segredo será sempre a alma do negócio. Digo apenas que se vai falar de experiências biológicas que prefiguram crimes de guerra cometidos pelos militares imperiais na Manchúria e que o filme dentro do filme, realizado por Yusako, assumirá um papel relevante no desenlace de uma intriga que, sim, podia ir mais longe mas que não deixa de ser interessante e eficaz cumprindo os mínimos inerentes a um filme de acção e, muito importante, perfilando-se como uma das estreias mais consistentes do panorama das que estão previstas para Agosto, infelizmente uma programação particularmente anémica no que diz respeito a produções que mereçam a nossa melhor atenção cinéfila.

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Mulher de um Espião, em análise

Movie title: Supai no tsuma

Date published: 2 de August de 2022

Director(s): Kiyoshi Kurosawa

Actor(s): Yu Aoi, Issey Takahashi, Ryota Bando, Yuri Tsunematsu, Minosuke,Hyunri, Masahiro Higashide, Takashi Sasano

Genre: Drama, 2020, 117min

  • João Garção Borges - 65
65

Conclusão:

PRÓS: Bom ambiente de suspense, polvilhado com as ressonâncias históricas de um Japão que estava prestes a desencadear, na verdade prolongar, uma poderosa ofensiva na Ásia e Pacífico. Pearl Harbour estava ali ao virar da esquina.

No Festival de Veneza de 2020 foi galardoado com o Leão de Prata.

CONTRA: Podia ser mais ambicioso, por exemplo, ao nível dos espaços reconstituídos de Kobe. Sobretudo os exteriores, já que os interiores são bem concebidos, sobretudo o da empresa de import-export, a “placa giratória” das actividades do dito espião. Na Direcção de Fotografia, muito dominada pelo padrão audiovisual do produtor NHK, falta algum impacto ao nível da iluminação de alguns interiores, como as frias masmorras da polícia militar, ou uma maior amplitude cenográfica.

De qualquer modo, estes reparos são apontamentos de alguém que faz questão de ser muito exigente e, na verdade, posso igualmente dizer que o filme se vê perfeitamente nesta versão para o grande ecrã. Como disse no corpo do artigo, neste início de Agosto irá ficar como uma das mais interessantes estreias deste Verão, que continua quente, mas por vezes glacial ao nível da oferta cinematográfica.

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