Low (foto de Margarida Ribeiro)

Nos Primavera Sound: Low sobressaem num dia dominado pela juventude

No último dia do Nos Primavera Sound, um programa mal pensado obrigou-nos a vencer o espaço e o tempo. Já de noite foram os Low que nos transportaram para bem longe.  

A tarde do último dia desta edição do festival Nos Primavera Sound começou tranquila. Ao longe ouvia-se O Terno no seu brasileiro cantante, mais tarde subiam ao palco NOS os Hop Along. A banda começou com “How Simple”, o single principal e faixa de abertura do seu álbum de 2018, Bark Your Head Off. Liderados pela cantora e compositora Frances Quinlan, os cinco elementos trouxeram entusiasmo a um público já de si bastante animado, que decidira chegar cedo ao recinto. Como esperado, o alinhamento do concerto desenrolou-se em torno do novo álbum, sobrando algum espaço para faixas de Painted Shut, de 2015. Vivia-se assim uma tarde quente de Primavera, num sentimento de tranquilidade meramente ilusória, pois bastou o relógio aproximar-se das seis e meia para que o agradável torpor com que vimos os Hop Along fosse substituído por uma corrida contra o tempo.

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Desconhecemos o autor da infeliz ideia de colocar Lucy Dacus, Tomberlin e os Big Thief a tocar cada um na sua ponta, com concertos a começarem quase simultaneamente, mas premiámo-lo mentalmente com um Razzie da Pior Organização, entre outras coisas menos elogiosas. Se o objetivo do Nos Primavera Sound era testar as nossas capacidades de teletransporte, penso que não estivemos mal.

Lucy Dacus foi a primeira a subir ao palco. Muito pontual, sorriu-nos e e soaram os primeiros acordes de “Addictions”. O que começou discretamente numa voz quente e acolhedora foi crescendo com a guitarra e a bateria, até nos tomar de todo e fazer querer ficar ali para sempre. Afetuosa, de sorriso simples e simpático, gestos calmos mas reveladores de grande destreza com a guitarra, Lucy Dacus saudou-nos. E, em jeito de conversa caseira, confessou que, por causa do vento, teimava-lhe o cabelo em voar para a boca, embaciando, mas só ao de leve, a perfeição daquele momento. Cá para nós, não havia nada a mudar, era só continuar.

Lucy Dacus no Nos Primavera Sound 2019
Lucy Dacus no Nos Primavera Sound 2019 (© Margarida Ribeiro)

Seguiu-se aquele som gutural e longínquo que anuncia infalível “The Shell” e ali na fila da frente, onde nos encontrávamos, eram todos bons alunos. “You don’t wanna be a creator/ Doesn’t mean you’ve got nothing to say/ Put down the pen, don’t let it force your hand”. Para quem não teve a ventura de a ver o ano passado no Vodafone Paredes de Coura, ouvir estas palavras ao vivo e a cores, ali mesmo diante de nós, foi um momento de absoluta rendição em que não parecia haver nada mais, nem mais ninguém.

“If the body and the life were two things that we could divide” cantávamos em uníssono e realmente naquele momento dava jeito libertarmo-nos da prisão do corpo e das suas limitações espácio-temporais. Qualquer coisa como a ubiquidade viria a calhar mas, conscientes do nosso desmérito de tal dom, despedimo-nos da Lucy Dacus e, correndo, saltando, voando ao som de “Everybody else, everybody else looks like they figured it out”, transportámos a nossa Shell para o palco Pull & Bear.

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Era a vez de Tomberlin. O concerto já começara mas não foi difícil encontrar lugar junto ao palco porque, em pé, não éramos mais do que dez ou quinze. Lá em cima Sarah Beth, de calças de ganga, sweatshirt e guitarra acústica a tiracolo sorria numa introvertida simpatia. Numa tentativa humilde de soar animada perguntou-nos como estávamos. Mediante a resposta positiva, foi num misto de timidez e jovialidade que respondeu: “Cool. I’m Sarah Beth, I’m gonna play some sad bangers for you. This is Andrew. He is going to help me in that situation. I hope you like it, if not, I guess there are other things to do. But I’m glad you are here.“

Tomberlin no Nos Primavera Sound 2019
Tomberlin no Nos Primavera Sound 2019 (© Margarida Ribeiro)

Subtilmente dedilhava a guitarra, olhava para longe, não fitava nada nem ninguém, chegava às vezes a fechar os olhos. A voz, de uma suavidade palpável, explorava sozinha os cantos do recinto que se estendia à sua frente. O público seguia-a em “Seventeen” e chegou mesmo a arriscar cantar com ela “Any Other Way”. Tomberlin estava consciente de que aquela plateia podia ser maior (não fora um certo Razzie) e, por isso, não deixou de agradecer aos corajosos que a tinham escolhido vir acompanhar. Por várias vezes contou o quão contente se sentia por ali estar no Nos Primavera Sound, adorava o Porto, gostaria de ficar ali para sempre. Foi um concerto tranquilo e agradável, no qual tivemos direito a percorrer quase todo o novo álbum, conhecemos Annie (o seu cão), foi-nos dado um tempo para fazer perguntas e uma nova canção. No palco Pull & Bear, envolto na sua auréola vegetal, escondido da restante mesquinhez dos que não estavam em concerto nenhum, Tomberlin cantava: “Gave me a sudden feeling/That I didn’t have a place”. É verdade, não entre a Lucy Dacus e os Big Thief.

Mal Tomberlin pousou a guitarra, corremos com ela para o concerto dos Big Thief, que era na outra ponta (pois claro), no palco Seat. Nas três canções que ainda conseguimos ouvir, Adrienne Lenker era claramente o foco da atenção, especialmente quando acompanhava James Krivchenia na bateria num eterno “real love, real love”. Ou quando puxava pela guitarra, numa exibição de virtuosismo, partilhada com Buck Meek, que fez o público vibrar. Na última canção do concerto, também a última da digressão, que terminava aqui no Nos Primavera Sound, decidiram chamar a equipa toda ao palco. Comovidos e em uníssono com Adrianne, a banda e toda a equipa conseguimos cantar com alguma clareza a tão venerada “Masterpiece”: “You saw the masterpiece, she looks a lot like you/Wrapping her left arm around your right/Ready to walk you through the night”.

Big Thief no Nos Primavera Sound 2019
Big Thief no Nos Primavera Sound 2019 (© Margarida Ribeiro)

De novo o tempo escasseava, por isso dirigimo-nos a passo rápido para o Pull & Bear, ouvir Snail Mail. Pequena, desembaraçada e divertida, chegou ao palco e confrontou-se com uma ampla massa de fãs. “Whatssss upppp?”, cumprimentou-nos. A sua postura em palco não deixa de ser paradoxalmente cativante. Parece sempre muito absorvida no que está a fazer, no rosto alternam expressões de seriedade com franzimento de olhos e nariz, canta com os dentes semicerrados. Passa grande parte do concerto de costas para nós, fita o baterista, o baixista ou simplesmente uma coluna que para ali está, sem ousar virar-lhe as costas. Quando nos fita novamente, escapa-lhe um sorriso.

Estamos habituados àquela oscilação de voz que ora cresce imponente em certos momentos da música, ora esmorece, quase desaparecendo, noutros instantes. Talvez seja assim ao vivo, talvez tivesse havido problemas técnicos, a verdade é que em certas alturas mal se entendia o que dizia, engolindo a própria voz, enquanto noutras, com a frequência da voz bem alta, projetava-a ao microfone, ensurdecendo-nos. Sem chegar a ser insuportável, esta discrepância entre graves e agudos era de tal forma abrupta que se perdeu um pouco o conteúdo lírico das canções. Não deixou de ser um bom espetáculo, como o testemunharam Tomberlin e Lucy Dacus, lá do fundo do palco onde observavam. Snail Mail fez-se ouvir e conquistou o público, granjeando-o no final com um novo tema, confiando que ninguém o partilharia no Youtube. Talvez por se chamar “Trust”.

Snail Mail no Nos Primavera Sound 2019
Snail Mail no Nos Primavera Sound 2019 (© Margarida Ribeiro)

A ideia de ouvir ao vivo as canções do novo álbum dos Low dominava o pensamento, durante a espera solitária no Super Bock, ao lado de três velhos enrolados em mantas como quem vai dormir ali. Uma curiosidade imensa em perceber como tudo se desenrolaria ao vivo, como agiria a banda em palco, como reproduziria aquela musicalidade explosiva e tão submetida à deterioração sonora e como reagiria o público à magnitude da experiência. No palco principal, o espetáculo saciava mais os olhos do que os ouvidos. Numa explosão de cor, movimento e exibicionismo, Rosalía entretinha 75 mil pessoas. Com as pernas abanar, não pela música mas pelo frio, ia acompanhando o espetáculo pelos ecrãs enquanto uma luz flamejante azulada já revelava as letras LOW.

Foram pontuais. Aquele som de televisor antigo depois da hora de fecho de emissão, associado a uma explosão de fusíveis, ressoou imponente e sombrio. Era a “Quorum”. Um fio de voz surgiu longínquo mas seguro e, por entre o cenário apocalíptico, crescia a voz fragmentada e incompleta de Alan Sparhawk. Continuavam a flamejar as letras, agora ainda mais vibrantes, rompendo a escuridão que cobria o palco e a plateia. Sem grandes pausas a bateria começou aquele ritmo tão vincado que caracteriza o introdução de “Dancing and Blood”. Desta vez foi a voz de Mimi Parker que surgiu. É tão grande o hábito de ouvir aquela voz a surgir flutuante, dispersa e irreal por entre o detrito sonoro da música, que se tornava estranho associá-la àquela pessoa vívida e real cuja silhueta assomava à nossa frente.

Low no Nos Primavera Sound 2019
Low no Nos Primavera Sound 2019 (© Margarida Ribeiro)

Em cada música qualquer coisa de novo e surpreendente se apossava de nós. Em “Always Up” as vozes de Mimi Parker e Alan Sparhawk fundiram-se numa união inquebrável. Chegou a vez de elogiar o passado e numa mudança radical, as luzes tornaram-se brancas e dardejantes, em “No comprende”. Do mesmo álbum veio ainda “Lies” que nos fez fitar Sparhawk com uma admiração fulgurante. O público estava estático, éramos uma massa imóvel que, envolvida numa sonoridade potente, parecia hipnotizada. Viajámos também até à década de 90, mas foi com “Always Trying to Work it Out” que o concerto atingiu o apogeu. Os holofotes dardejavam cores de tal forma intensas que se tornava impossível manter os olhos abertos, o som era expulso das colunas com uma potência fulminante. Aquilo eram os Low ao vivo.

Em “Fly” aquele público da idade de Sparhawk mostrava a sua familiaridade com a banda e, com a postura de quem conhece o que ouve, limitava-se as fechar os olhos. Já eu aproveitava cada contraluz a que a banda era exposta, cada movimento suave no qual Mimi lançava uma nota, ou a expressão corporal de Sparhawk. A fechar o álbum e o concerto, entrou “Disarray” majestosamente. “Before it falls into total disarray/ You’ll have to learn to live a different way” cantava-nos Sparhawk numa certeza inquestionável.

Com essa mesma certeza em mim, caladas agora todas as dúvidas de como soariam os Low ao vivo, saí radiante do Nos Primavera Sound. Não apenas porque agarrava nas mãos, como troféu precioso e memória futura, a setlist do concerto oferecida pelas mãos do próprio Steve Garrington. Mas porque trazia comigo três dias que, apesar de cansativos, tinham sido capazes de recarregar as forças para encarar o mundo real outra vez, onde, pelo menos nas próximas semanas, não haverá tempo para me deitar na relva a ouvir música ou queixar-me diretamente à Lucy Dacus que “everybody else looks like they figured it out”.

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