Nós

Nós, em análise

Depois do triunfo de “Foge”, Jordan Peele volta aos cinemas com “Nós“, uma arrojada proposta de terror, onde nada é o que parece e o maior monstro de todos pode estar mais perto do que parece.

Todos vivemos com mais do que um eu. Existe o eu idealizado, aquela pessoa que desejaríamos ser e que serve como fonte de autocrítica cruel. Ao mesmo tempo, há um eu mais tenebroso, aquele que representa o pior de nós, aquele que tememos tornar-nos e lutamos para não ser. O eu real, se é que existe tal coisa, vive no espaço entre estes dois extremos. Se considerarmos que nunca realmente podemos compreender na totalidade outro ser humano, que conhecer outra pessoa é sempre um exercício limitado pelo mistério que é a nossa humanidade individual, então a pior pessoa que cada um de nós realmente conhece é quem vemos quando olhamos um espelho. Em “Nós”, a segunda longa-metragem realizada por Jordan Peele, esta dinâmica é expandida e tornada material. O monstro deste pesadelo é um reflexo sombrio das vítimas, uma duplicação que serve como agente do caos.

Pelo menos, essa é uma das potenciais interpretações deste filme de terror. Ao contrário de “Foge”, o primeiro filme de Peele, “Nós” não oferece uma leitura fácil dos seus símbolos e tese. Enquanto no projeto anterior toda a simbologia e metáfora, todas as referências, pareciam ligadas organicamente de modo a coalescer numa crítica social bem concreta e precisa, esta nova aventura cinematográfica é, de algum modo, mais nebulosa, menos fechada. Sua iconografia horrorífica, por exemplo, parece quase aleatória, partindo primeiro do medo visceral e só depois sendo integrada à força numa potencial alegoria. Esta indisciplina, deliberada ou não, tira ao espectador uma rede de segurança concetual, fazendo de “Nós” uma espécie de teste de Rochard em forma cinematográfica. Cada pessoa pode encontrar algo diferente na assustadora indefinição desta narrativa.

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Tem medo…

Partindo do que o realizador tem vindo a partilhar em entrevistas, é bem possível ver no filme uma crítica feroz ao estado atual da América. Num contexto contemporâneo em que, nos EUA, políticas isolacionistas e retórica xenófoba ganham cada vez mais peso, os americanos apontam o dedo ao “outro”, àquele que vem de fora, àquele que é diferente de si mesmo, como fonte da desgraça nacional. Peele sugere que a fonte do horror não é uma força exterior, mas sim as mesmas pessoas que apontam o dedo. A América é a autora da sua própria destruição, mesmo que tente negar essa ideia, que tente ignorar e esquecer os crimes do passado. Considerando o estado do mundo, onde movimentos fascistas vão chegando ao mainstream com cada vez mais regularidade, talvez nem seja preciso especificar a nacionalidade destas ansiedades para validar uma interpretação politizada de “Nós”.

Pondo de parte essas possíveis visões do filme, “Nós” começa por ser um horripilante exercício em cinema ominoso. Em 1986, quando as televisões americanas se enchiam de anúncios maniacamente jubilantes para a iniciativa “Hands Across America”, uma menina preta vai a uma feira popular junto à praia com os pais numa noite que para sempre lhe alterará a vida. Seu nome é Adelaide e, quando ninguém lhe está a prestar atenção, ela escapule-se, vagueia por entre figuras estranhas como um homem obcecado com um verso bíblico que agoira a catástrofe, e acaba por dar de caras com uma casa assombrada deixada ao abandono. Como não podia deixar de ser, ela entra nesse edifício do medo, perdendo-se pelo meio das suas paredes espelhadas até que encontra algo assustador. Diante de si, uma cópia perfeita da sua pessoa aparece, vinda das sombras.

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Daí, a narrativa salta para os nossos dias, quando Adelaide é já adulta. Os traumas dessa noite ainda reverberam na sua mente, mesmo que ela tenha conseguido superar os problemas da fala que se seguiram imediatamente ao evento. Pior ainda, quando a encontramos, ela está a viajar com a sua família até à mesma zona de férias onde o horror da sua infância teve lugar. Os dois filhos, Zora e Jason, e o marido, Gabe, parecem não ter qualquer conhecimento dos traumas da matriarca e até decidem, contra a vontade de Adelaide, ir encontrar-se com uns amigos à praia do horror. Com muito nervosismo e acessos de pânico, Adelaide lá aguenta o dia e sua precipitação de coincidências ameaçadoras, até que chega a noite e tudo se descalabra. Mal os miúdos estão na cama e a protagonista acaba de suplicar ao marido para fugirem dali, quando um estranho grupo de pessoas aparece em frente à casa da família. Não demora muito até que as figuras invadam a casa e é aí que os piores pesadelos de Adelaide se concretizam. Em frente a ela, seu marido e filhos, está uma família de sósias, vestidos com macacões rubros e tesouras doiradas prontas a penetrar a garganta de inocentes.

Não querendo revelar demasiados spoilers, é melhor ficarmos por aqui em termos de sinopse narrativa. De facto, o modo ideal de experienciar “Nós” é ir ao cinema com o mínimo de informação possível. Dizemos isto pois, acima de qualquer consideração sobre o valor alegórico do filme ou sua potencial crítica social, este é um exemplo bombástico de cinema de terror cheio de ponderações macabras, tensão e desorientação. Jordan Peele pegou nas convenções de histórias sobre invasões domésticas e levou-as aos limites, deturpando de tal modo as expetativas da audiência que, chegado o clímax, o que mais amedronta é o terror existencial que o enredo projeta. “Nós” é, aliás, o raro filme de terror que se torna mais assustador à medida que os seus mistérios se tornam mais claros e sua lógica interna mais entendível.

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…tem muito medo.

Muito crédito há que ser dado à execução formal da obra. Peele sabe como suster um momento de modo a espremer dele seu máximo potencial horrorífico, mas também é um mestre no que diz respeito a conferir um ritmo frenético ao enredo complicado. Por outras palavras, o filme está cheio de momentos de grande tensão prolongada, mas a história em si voa por nós a alta velocidade. É difícil cair no aborrecimento quando vemos “Nós”, especialmente quando a requintada paisagem sónica nos está sempre a espicaçar os sentidos, ora com efeitos repentinos ou com as perversas composições musicais de Michael Abels. Até a grande cena onde o monstro principal revela seu plano é um triunfo de entretenimento virtuoso, cheio de montagens vistosas e um brilhante contraste entre inércia e movimento desumano.

Não podemos terminar uma análise de “Nós” sem, contudo, destacar seu mais primoroso elemento. Referimo-nos ao trabalho dos atores, quase todos a interpretar dois papéis, cuja contribuição para o balanço tonal entre horror e comédia, entre desespero cósmico e ação sanguinária, é inestimável. Lupita Nyong’o, em particular, mostra tudo o que vale, rendendo-se por completo às demandas mais hediondas do guião e telegrafando desde início as reviravoltas paralisantes que encerram a história. Seu pânico é sempre sombreado por uma instabilidade desconcertante, enquanto a monstruosidade vocal que ela traz à vilã é tão aterrador como hipnotizante, sugerindo como, talvez, os autores da violência possam ser mais vítimas que suas presas violentadas. Esse gesto de empatia é o derradeiro golpe de génio deste filme que nos faz ter medo de nós próprios e ver no espelho o maior monstro de todos.

Nós, em análise
Nós

Movie title: Us

Date published: 23 de March de 2019

Director(s): Jordan Peele

Actor(s): Lupita Nyong'o, Winston Duke, Elisabeth Moss, Tom Heidecker, Shahadi Wright Joseph, Evan Alex, Yahya Abdul-Mateen II, Anna Diop, Madison Curry

Genre: Terror, Thriller, 2019, 116 min

  • Cláudio Alves - 85
  • Marta Kong Nunes - 85
  • Catarina d'Oliveira - 80
  • Maria João Bilro - 70
80

CONCLUSÃO:

“Nós” é um pesadelo lúcido e tresloucado, recheado de simbologia ominosa e um elenco disposto a extremos interpretativos para nos fazer rir e gritar. Jordan Peele assume-se como um dos mestres do terror contemporâneo, especialmente ao nível de puro e desafetado virtuosismo formal. Mesmo assim, alguma falta de sintetização concetual do guião pode indicar o gosto amargo da indisciplina e da indulgência.

O MELHOR: A performance dupla de Lupita Nyong’o que tanto mostra ser uma scream queen exemplar como um dos mais aterradores vilões no cânone do terror moderno.

O PIOR: “Nós” sofre um pouco em comparação com “Foge”. É certo que a lógica onírica deste filme acaba por justificar algumas das suas incoerências temáticas e narrativas, mas não deixam de ser frustrantes.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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  1. Frederico Daniel 25 de Março de 2019

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