© Nitrato Filmes

Na sua primeira longa-metragem, a actriz e dramaturga brasileira Grace Passô transforma o luto de uma família negra numa inquietante história de fantasmas, silêncios e paredes que parecem ter vida própria. Rodado em Belo Horizonte, longe das geografias habituais do cinema brasileiro, e com coprodução portuguesa, “Nosso Segredo” passou pela Berlinale 2026, venceu em Gramado e chega agora às nossas salas. 

“Nosso Segredo” é um tipo de cinema visualmente fascinante, embora nem sempre tão convincente como as suas ambições. E o problema dos mortos é que nunca sabem quando devem sair de casa. Continuam a ocupar os quartos, a circular pelos corredores, a interromper conversas e, pelos vistos, até a provocar infiltrações. Em “Nosso Segredo”, primeira longa-metragem da brasileira Grace Passô, a morte do seu próprio pai transforma uma residência familiar de Belo Horizonte num território emocionalmente inquietante. Ninguém consegue falar do assunto, cada um procura sobreviver como pode e as paredes começam a manifestar uma desagradável tendência para revelar aquilo que os vivos preferem esconder. Neste filme, Freud teria tido muito trabalho. Um canalizador, provavelmente, também.

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Depois da estreia mundial na secção Perspectives da Berlinale 2026 e de conquistar o Kikito de Melhor Filme no Festival de Gramado, “Nosso Segredo” teve a sua apresentação portuguesa a 24 de Outubro, no Doclisboa, antes da chegada agora às salas comerciais, com distribuição da Nitrato Filmes. Uma estreia que merece atenção, sobretudo por trazer ao cinema uma das personalidades mais interessantes e singulares do teatro brasileiro contemporâneo. 

O Brasil também existe fora do Rio, de São Paulo e do Recife

Grace Passô não apareceu ontem, nem precisou de descobrir o cinema para aprender a contar histórias. Actriz, dramaturga, encenadora, uma das fundadoras do grupo Espanca!, foi a primeira dramaturga negra brasileira distinguida com o Prémio Shell. No cinema, destacou-se em “Praça Paris”, de Lucia Murat, “Temporada” e “O Dia que te Conheci”, ambos de André Novais Oliveira. Experimentou a realização com “Vaga Carne”, codirigido com Ricardo Alves Jr., e com a curta “República”, realizada durante a pandemia. “Nosso Segredo” recupera elementos de “Amores Surdos”, peça escrita em 2006, quando já investigava essa doença familiar tão vulgar: toda a gente fala, ninguém escuta. 

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A escolha de Belo Horizonte merece um aplauso particular. O cinema brasileiro continua excessivamente associado ao Rio de Janeiro, a São Paulo ou, quando procura geografias mais alternativas, ao Recife e ao Nordeste. Minas Gerais possui, porém, uma tradição cultural riquíssima e uma produção cinematográfica que tem vindo a afirmar uma identidade própria. Grace Passô filma uma cidade que conhece, personagens que lhe são próximas e um universo onde a intimidade familiar se cruza com a memória colectiva. Sem favelas transformadas em spots turísticos, sem violência exportada para consumo internacional e sem a obrigação de explicar o Brasil aos estrangeiros.

A história acompanha Suely (Ju Colombo) e os filhos Gilson (Robert Frank), Grazi (Jéssica Gaspar), Guto (Flip) e Tutu (Efraim Santos), incapazes de recuperar a normalidade depois da morte do patriarca. A tia Anamélia (Marisa Revert) participa neste universo doméstico onde cada personagem inventou o seu método de sobrevivência: trabalhar, recordar, fugir, ignorar ou fingir que nada aconteceu. O mais novo, como frequentemente sucede no cinema e demasiadas vezes na vida, parece ser o único capaz de perceber aquilo que os adultos se recusam a admitir. Uma criança que compreende melhor a morte do que os crescidos compreendem a vida.

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As paredes têm ouvidos e uma péssima memória

Nosso Segredo
© Nitrato Filmes

O principal trunfo de “Nosso Segredo” está na forma como transforma uma casa numa personagem. O espaço doméstico deixa de ser cenário para adquirir uma presença ameaçadora, quase orgânica. As infiltrações, as manchas de tonalidade avermelhada, os ruídos eléctricos, os corredores mergulhados na penumbra e os movimentos inesperados da câmara sugerem que o edifício sofre da mesma doença dos habitantes. O luto deixa de ser um sentimento abstracto e ganha consistência física. Pode escorrer pelas paredes, contaminar os quartos e perturbar o sono.

A fotografia de Wilssa Esser, distinguida em Gramado, é um dos grandes argumentos do filme. Os azuis profundos, os violetas e os contrastes entre sombra e luz criam uma atmosfera simultaneamente íntima e sobrenatural. O desenho de produção de Lucas Osório, igualmente premiado, reforça essa sensação de uma casa que conserva demasiadas recordações. A montagem de Gabriel Martins e Eva Randolph procura estabelecer ligações entre memória, sonho e realidade. Nem sempre o consegue, mas a proposta visual tem uma personalidade indiscutível.

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Importante é também a banda sonora original de Amaro Freitas, pianista pernambucano que se tornou uma referência internacional do jazz contemporâneo. A sua música, atravessada por influências afro-brasileiras, acompanha a dimensão espiritual da narrativa, enquanto o desenho sonoro de Tiago Bello amplia a inquietação. O elenco inclui ainda participações especiais de Mateus Aleluia, figura histórica da música brasileira, e da cantora Tássia Reis, ambos em estreia como actores de cinema. Uma escolha coerente com a importância da música, da ancestralidade e da transmissão oral na cultura brasileira.

Mas nem tudo funciona com a mesma eficácia. Grace Passô revela uma confiança visual que nem sempre encontra correspondência na construção dramática. O argumento dispersa-se por várias personagens, introduz pistas interessantes e abandona algumas antes de lhes dar verdadeiro desenvolvimento. A insistência nas metáforas começa, a determinada altura, a produzir o efeito contrário ao desejado: quando tudo significa alguma coisa, o espectador corre o risco de deixar de se interessar pelo que efectivamente acontece.

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Uma estreia com personalidade, mesmo quando perde o fio à meada

“Nosso Segredo” movimenta-se entre o drama familiar, o realismo mágico e o cinema fantástico, sem assumir inteiramente qualquer destes territórios. Não pretende assustar como um filme de terror convencional, embora alguns momentos sejam genuinamente perturbadores. Também não procura oferecer uma explicação psicológica para todos os acontecimentos. A ambiguidade é deliberada e, quando funciona, constitui a sua principal qualidade. Quando falha, aproxima-se perigosamente de um exercício de estilo demasiado satisfeito com as próprias imagens.

Existe, contudo, uma dimensão política que merece ser sublinhada. Ao colocar uma família negra no centro de uma narrativa sobre afectos, perda e memória, Grace Passô recusa a ideia de que as personagens negras do cinema brasileiro têm obrigatoriamente de ser definidas pela pobreza, pela violência ou pelo racismo. Essas realidades não desaparecem, mas deixam de constituir a única identidade possível. Até a presença insistente de uma vizinha branca permite entrever tensões sociais que o filme, infelizmente, não desenvolve tanto quanto poderia.

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Esta é também uma coprodução luso-brasileira que demonstra como a colaboração entre os dois países pode ultrapassar as fórmulas mais previsíveis. Produzido por Ricardo Alves Jr., através da EntreFilmes, o projecto reúne a Globo Filmes, a Desvia Filmes, a Quarta-Feira Filmes, a Grãos da Imagem e a portuguesa Foi Bonita a Festa, de Catarina de Sousa, numa associação que privilegia o cinema de autor e a circulação internacional de novas vozes. 

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Então Foi Bonita a Festa Pá!

Grace Passô chega à longa-metragem com uma maturidade artística pouco habitual numa estreia, embora carregue também alguns vícios do teatro experimental: a tentação de prolongar uma imagem, multiplicar símbolos ou confiar que a intensidade da interpretação resolve aquilo que o argumento deixou por escrever. O resultado é irregular, por vezes excessivamente hermético, mas suficientemente ousado para distinguir a realizadora num cinema brasileiro que continua a revelar talentos fora dos circuitos mais comerciais. “Nosso Segredo” não resolve todos os mistérios que coloca, nem consegue transformar cada uma das suas intuições numa sequência memorável. Mas possui uma identidade, uma visão e uma sensibilidade próprias. E isso, já representa uma vantagem considerável. Afinal, a família de Grace Passô acaba por descobrir aquilo que tantas outras passam uma vida inteira a evitar: os mortos não regressam, mas aquilo que deixaram por dizer continua a fazer um barulho dos diabos.

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JVM 6/10

Nosso Segredo

Conclusão

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  • Grace Passô estreia-se na longa-metragem com um filme que tem mais personalidade do que disciplina narrativa, mais imaginação visual do que capacidade para desenvolver todas as ideias que apresenta. “Nosso Segredo” é um drama familiar com vocação para o fantástico, onde os mortos continuam a incomodar os vivos e uma casa parece precisar urgentemente de obras, embora o verdadeiro problema seja aquilo que ninguém consegue dizer. A realizadora demonstra talento, sensibilidade e uma linguagem cinematográfica própria, mas confunde, por vezes, ambiguidade com profundidade e prolonga situações que teriam maior impacto se fossem mais concisas. Ainda assim, é uma estreia estimulante, vinda de um Brasil cinematográfico que merece maior visibilidade. Os fantasmas são interessantes, mas teria sido preferível que o argumento não se perdesse tantas vezes à procura deles.
Overall
6/10
6/10
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Pros

O melhor: A extraordinária fotografia de Wilssa Esser, a atmosfera inquietante, a banda sonora de Amaro Freitas e a capacidade de Grace Passô para transformar uma casa vulgar num organismo emocionalmente perturbado. Uma identidade visual invulgar numa primeira longa-metragem.

Cons

O pior: A dispersão narrativa, o excesso de simbolismo e algumas personagens que ficam pelo caminho. O filme insiste tanto em guardar os seus segredos que, por vezes, parece esquecer-se de os partilhar com o espectador.


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