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Acaba de estrear nos cinemas portugueses “Drácula” (2025, Radu Jude), um filme que desafia qualquer conceito ligado a esta personagem originária da Transilvânia.

Com distribuição portuguesa da Films4You, este não é o típico filme de terror que poderás estar à espera. Na verdade, este “Drácula” é uma comédia que traz algum terror mas é sobretudo uma crítica à sociedade contemporânea e com um cariz erótico bastante presente.

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Que Drácula é este?

O “Drácula” de Radu Jude não é propriamente um filme para todos os públicos. Contudo, é um filme que está completamente dentro do espírito das obras anteriores do realizador romeno. Temáticas como o sexo ou a crítica social e o uso do humor seco e ridículo, repleto de obscenidades e palavrões, não são propriamente elementos estranhos para quem conhece a obra de Radu Jude. Pelo contrário, se não conheces a obra do realizador e vais à procura de um filme que faça jus à personagem de Drácula, este não é o filme para ti.

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Neste filme, Radu Jude utiliza igualmente e de forma bastante profusa a inteligência artificial. Se o objetivo inicial acaba por uma espécie de ridicularização da narrativa, o uso da ferramenta acaba por ser bastante crítico.

Ao longo desta longa-metragem com quase 3 horas de duração, assistimos a várias histórias sendo algumas protagonizadas pelo mítico vampiro e outras por outras personagens que nada têm a ver.

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As histórias de Drácula

Drácula
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A obra “Drácula” como um todo tem o seu interesse cinematográfico e é bastante curiosa. Contudo, a verdade é que certas histórias que aparecem neste filme surgem um pouco sem sentido e sem grande justificação. Ou seja, caso esta longa-metragem tivesse, por exemplo, menos meia-hora, ganharia um pouco mais.

Tudo começa quando a personagem de um realizador (Adonis Tanta, que participa também em várias das diferentes histórias) está a fazer um filme sobre Drácula e recorre a uma inteligência artificial fictícia para o ajudar nesta caminhada. A partir daí, a história maior que percorre todo o filme centra-se num espetáculo num restaurante alternativo. Ali, os espectadores / participantes têm de perseguir os atores que fazem de Drácula e da sua amada pelas ruas da Roménia. Esta história é interrompida e recomeçada no filme por várias vezes sendo que, na verdade, apenas acontecem duas edições deste espetáculo e duas perseguições, sendo a segunda bastante prolongada (e mortífera).

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Depois, temos uma idosa hospitalizada que vê um filme de Drácula onde a personagem salta do ecrã e ataca-a, a história de um camponês que se apaixona por uma jovem, um Drácula capitalista mas extremamente autoritário que não autoriza greves (e que até tem uma espécie de C-3PO a ajudá-lo), a adaptação do primeiro romance de vampiros romeno “Vampirul” (1938, G. M. Amza e Al. Bilciurescu) – que, em certa medida, mistura Brecht com Lars von Trier – , a adaptação de “A História das Histórias” (1878, Ion Creangă) onde um camponês recebe uma plantação de órgãos genitais masculinos em vez de milhos ou até uma transformação de “Nosferatu, o Vampiro” (1922, F. W. Murnau) em anúncios publicitários ridículos (que são uma crítica clara à publicidade televisiva / na internet). A estas ‘histórias’ juntam-se ainda outros segmentos mais pequenos e várias inclusões da inteligência artificial.

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Um certo desequilíbrio nas diferentes histórias…

Drácula
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Qual o problema aqui, então? Não é pela falta de originalidade das histórias que, diga-se de passagem, todas elas têm o seu quê de interesse. A ‘falha’ está, pois, na falta de coesão narrativa entre as mesmas com a estrutura por inteiro.

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Já sabemos que esta é uma comédia de cariz erótico bastante forte e com muita maluquice à mistura. Contudo, a história do camponês que se apaixona por uma jovem que acaba por falecer de forma ridícula (e sem qualquer Drácula) parece não colar com o resto da narrativa. Além disso, tem até um certo desenvolvimento bastante mais realista, comparando com as outras histórias, o que prejudica ainda mais a sua inclusão no filme. Por outro lado, as adaptações de “Vampirul” e “A História das Histórias” nada têm a ver com Drácula mas estão bastante bem desenvolvidas e enquadradas dentro da longa-metragem. Podiam, contudo, ser bastante mais resumidas, especialmente a história de “Vampirul”.

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Questionamentos sobre a inteligência artificial

Depois de “Kontinental ‘25” (2025), Radu Jude volta a recorrer ao iPhone para filmar este “Drácula”. O uso do telemóvel demonstra que, mais uma vez, o realizador romeno consegue fazer uma obra de arte cinematográfica com recurso a uma ferramenta bastante diminuta. Se não fossem os planos demasiado gerais em certas cenas e alguns ‘zooms’ onde se nota uma qualidade pouco cinematográfica, quase que se podia dizer que não é necessário recorrer a uma câmara de cinema ‘normal’.

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Radu Jude prova, portanto, mais uma vez, que é possível fazer cinema com poucos meios. Neste caso, em “Drácula”, o realizador vai um pouco mais além. Assim, recorre à inteligência artificial para a criação de várias sequências do filme.

Se, inicialmente, esta inteligência artificial surge de uma forma muito tosca, à medida que a negativa avança, vê-se um olhar cada vez mais crítico da parte de Radu Jude sobre esta ferramenta digital. Não há limites para a brincadeira no que diz respeito à inteligência artificial. De uma estranha recriação de “Drácula de Bram Stoker” (1992, Francis Ford Coppola), passando por ‘meros’ planos de transição com ‘paisagens’, até zombies ou um Drácula com TikTok, Radu Jude mostra-nos mesmo todas as potencialidades da inteligência artificial para a ‘criação artística’.

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Afinal, o que acabámos de ver?

Drácula
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O “Drácula” de Radu Jude não é propriamente um filme muito consistente. Mas não é isso que faz dele um mau filme. Em certa medida, pode-se dizer que este é uma espécie de “Scary Movie” à romena. Há histórias realmente brilhantes no que diz respeito ao humor. E, nesse sentido, destacam-se as histórias da planta de milho que dá órgãos genitais masculinos ou a do Drácula que é tirano para com os seus trabalhadores. Além disso, a história de “Vampirul” é também bastante curiosa no tratamento dos ‘décores’ minimalistas que fazem lembrar a obra de Bertolt Brecht ou “Dogville” (2003, Lars von Trier). Contudo, a narrativa da sequência alonga-se um pouco além do necessário.

Por outro lado, a história final é completamente desnecessária e leva o filme para outros caminhos que nada têm a ver com o resto da narrativa. O mesmo se pode dizer da história do camponês e da jovem que também não encaixa propriamente na estrutura, apesar do final trágico.

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Por fim, Radu Jude volta a apresentar-nos uma crítica social e contemporânea sobre nós e, neste caso, fá-lo através de muita fantasia. Este não é o Drácula de Bram Stoker, nem o Vlad, o Empalador do século XV – a personagem real que inspirou o romance literário. Aqui, vemos todo o tipo de Dráculas (e sempre contemporâneos): do mais violento, ao mais simpático, do mais sexual ao mais ridículo (e até temos um Drácula que vai ao dentista com dor de dentes!).

Um filme louco. Um exercício cinematográfico multifacetado que é também sobre a contemporaneidade ridícula do século XXI.

Drácula

Conclusão

  • “Drácula” de Radu Jude é um filme louco que nos traz diferentes histórias e interpretações do mítico vampiro da Transilvânia.
  • Muito mais uma comédia de costumes púdicos e pouco morais do que um filme de terror, a obra de Radu Jude é também um exercício crítico sobre a sociedade contemporânea e sobre o uso da inteligência artificial.
  • A longa-metragem falha, contudo, pela dimensão algo longa de certas histórias e pela pouca justificação narrativa como um todo para certas outras.
Overall
7/10
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