"O Auge do Humano 3" | © Oublaum Filmes

O Auge do Humano 3, a Crítica | O sonho de Eduardo Williams chega ao IndieLisboa

“O Auge do Humano 3,” também conhecido como “The Human Surge 3”, é uma obra-prima de cinema experimental, consagrando Eduardo Williams como um dos realizadores mais arrojados da contemporaneidade. O filme integra a Competição Internacional do IndieLisboa 2024..

O futuro é uma incerteza, tanto na arte como na vida. Contudo, quando se discute cinema, há alguns que parecem ter a capacidade de vislumbrar o amanhã. São artistas ousados, capazes de testar os limites do meio e expandir os seus horizontes. Nos extremos do seu trabalho, conseguem mesmo transcender as barreiras pressupostas e apontar para as próximas evoluções desta sétima arte. Longe do mainstream, estas mentes brilhantes fazem o cinema que se diz experimental, pois é da experiência que vem o próximo passo. Nunca andamos para trás e o cinema faz o mesmo, rumo ao desconhecido e ao que vem depois.

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Assim é Eduardo Williams, realizador argentino cuja obra é magia sem igual, desde a curta à mais louca das longas-metragens. Seu mais recente trabalho, “O Auge do Humano 3,” certamente foge à comparação, afirmando-se única num contexto cultural onde essa qualidade é cada vez mais rara. No entanto, o filme tem no título um número terceiro, qualificando-o como uma sequela ao primeiro “Auge do Humano,” apresentado por Williams em 2016. Cá por Portugal, vimo-lo no ano seguinte, em pleno IndieLisboa, ficando logo extasiados com a visão de um mundo em estado de híper-conexão tecnológica e humana.

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Aí, registos cinematográficos alteram-se no mesmo plano, a câmara passa de máquina para máquina, de continente para continente, como se nada fosse. Trata-se de um filme sobre a transcendência e assim também é “O Auge do Humano 3.” Mas o que aconteceu ao número dois? Como não podia deixar de ser, Williams está cá para quebrar a convenção e até o nome da fita há que seguir esse gosto pela brincadeira arriscada. Não existe o número dois e, verdade seja dita, o que liga estes auges são conceitos internos e nada referente à narrativa. De facto, este é o tipo de cinema que se faz de ideias e não de histórias.

Essas, quando se manifestam, vêm da boca de personagens. Bem, não são tanto personagens como figuras humanas em frente à câmara, suas existências desobedientes às regras da dramaturgia. Também se entende isso quando ponderamos o modo como chegam ao engenho de Williams. É que “O Auge do Humano 3” é um híbrido, conjugando linguagens fictícias com o documentário, por vezes quase numa veia etnográfica. Oh, mas também aí a linguagem escapa e foge ao significado real da fita. Etnografia é descrição errada para um filme sem pretensão de estudo. Tapeçaria seria uma categoria melhor – sim, “O Auge do Humano 3” é uma tapeçaria.




Os fios que a compõem são puxados de países diversos, sempre originados em comunidades e indivíduos às margens das hegemonias ocidentais. Muitas das pessoas retratadas são queer, transgressores da heteronormatividade cujo quadro cinematográfico também quebra as regras e bons costumes. Do Taiwan, do Peru e do Sri Lanka, os fios entrelaçam-se para formar a base do filme. Primeiro, parecem isolados geograficamente, unidos pela internet que nos faz todos cidadãos da mesma nação virtual. Só que, a certa altura, como que por magia, aparece-nos a gente no mesmo sítio terreno. Ou talvez não, pois uns efeitos muito rudimentares detraem realidade à imagem projetada.

Pensem em sobreposições em jeito de Microsoft Paint, colagens e truques feios e quase infantis. São manipulações da imagem que chamam atenção a si mesmas até que os espetadores estão tão intrigados pela plasticidade do ecrã como pela morfologia das almas humanas em cena. Tanta é a loucura que supomos ver um sonho em forma de filme, alguma alucinação que o cinema tem sobre si mesmo. Quiçá é um devaneio da consciência, como a escrita automática de outros tempos passada a abordagem audiovisual. As ideias fluem e também o tempo corre – ontem, hoje e amanhã estão misturados num só, aglutinados numa mutante maravilha.

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Parece impossível, mas, nas mãos de Williams, essa ideia é proibida. Tudo é possível neste “Auge do Humano 3,” inclusive a avaria da fita, fragmentando-se em pixéis desordenados. Dizemos muito e descrevemos ainda mais, um turbilhão de palavras que, em consideração total, talvez não informem muito o potencial espetador. Só que este é um daqueles trabalhos de cinema que só se percebem quando são vistos e, mesmo assim, quiçá a incógnita permaneça. Antes de chegarmos ao fim, contudo, estabelecemos uns guias para o labirinto, a começar pela sua inovação mais saliente e imediata – o uso de câmaras a 360 graus.

É tanta informação que o ecrã tradicional não consegue traduzir, levando a uma representação da realidade que é o píncaro da irrealidade. Tudo é destorcido e, muitas vezes, Williams move a câmara para sobressaltar estas qualidades. Até inclui o ponto de união, uma colagem mal feita que produz um efeito semelhante ao olho de um furacão. Pessoas são assim distorcidas pelas linhas digitais, ganham membros a mais e cabeças duplicadas. Estamos a ver a existência humana filtrada por uma imperfeição mecanizada. Estamos a ver o cinema a tentar fazer sentido das pessoas ao invés da dinâmica contrária a que estamos habituados.

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Williams poderia fazer uma tragédia com estas ideias, anunciando o fim do mundo num paradigma de tecnologia desumana. Só que o seu filme não está para tais miserabilismos. Pelo contrário, parece ver a mistura de mundo físico e mundo virtual como algo a ser encarado com otimismo. Afinal, não é maravilhoso podermos estar todos em comunhão pela internet? Pelo cinema radical? Pela evolução constante? Os poucos diálogos discutem tais ideias e fazem-no em jeito de sonambulismo. Todas as figuras parecem comunicar como que em sonhos acordados. Bem, talvez o mundo moderno seja isso mesmo e o reino virtual essa máxima propriedade onírica. Talvez, na união digital, todos estejamos num sonho partilhado. E esse sonho é “O Auge do Humano 3,” filme inigualável.

O Auge do Humano 3, a Crítica
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Date published: 26 de May de 2024

Duration: 121 min.

Director(s): Eduardo Williams

Actor(s): Bo-Kai Hsu, Meera Nadarasa, Sharika Navamani, Abel Navarro, Livia Silvano, Ri Ri Yang

Genre: Drama, Experimental , 2023

  • Cláudio Alves - 95
95

CONCLUSÃO:

Em “O Auge do Humano 3,” o cinema sonha sobre si mesmo e a humanidade caminha na direção do amanhã. A proximidade já não se estabelece só por meios físicos num paradigma virtual, com barreiras transpostas e novas noções do que é possível e impossível. É claro que, no cinema de Eduardo Williams, nada estará realmente além da possibilidade. A instabilidade da imagem é o gesto mais notável e aparente, mas todo o aspeto do seu cinema é uma inovação descarada.

O MELHOR: Uma sequência florestal, onde a câmara gira na procura de algo. A certa altura, parece buscar o ponto de união da imagem a 360 graus. O turbilhão continua, até que o eixo da esfera se impõe no centro do ecrã. O movimento giratório acelera e o olho do furacão torna-se ainda mais abstrato do que já era. É uma alucinação cinematográfica do mais alto gabarito.

O PIOR: O cinema experimental não é para todos e haverá muita gente para a qual “O Auge do Humano 3” seja intragável. Além disso, a constante deformação da imagem poderá levar ao enjoo.CA

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