DocLisboa ’16 | Oleg y las Raras Artes, em análise

Oleg y las Raras Artes foi o filme de abertura do DocLisboa, apresentando ao mundo a bizarra e divertida personalidade do génio musical russo Oleg Karavaychuk.

oleg y las raras artes doclisboa

Este ano marca-se a 14ª edição do DocLisboa, um dos mais importantes festivais de cinema em território português. Tal como o nome indica, este festival, com mais de uma década de existência, foca-se na celebração do cinema documental. E não falamos somente dos títulos mais mediáticos e de fácil digestão por parte da audiência, este é um festival aberto a praticamente todo o tipo de propostas documentais, mesmo filmes incompletos que ainda estão a ser finalizados. Desde obras antigas de valor histórico até às vanguardas experimentalistas mais recentes e passando pelo mainstream convencional, o DocLisboa é uma joia incalculável para qualquer cinéfilo português que ame as possibilidades e magnificências do cinema fora de um registo fictício ou exclusivamente narrativo.

Para abrir oficialmente estas festividades foi escolhido Oleg y las Raras Artes do venezuelano Andrés Duque, um tipo muito específico de documentário. Falamos do tipo de filme que consiste no retrato de uma personalidade. Sua estrutura clássica consiste em entrevistas intimistas onde o objeto de estudo do filme estabelece diálogo com o cineasta e, subsequentemente, expõe-se à audiência. Em termos formais, este não é subgénero documental com uma tradição formal de particular interesse, sendo que é corrosivamente normal ver filmes com este género de intenções a demonstrar uma grande displicência estética e estrutural. Afinal, quando se tem uma personagem colorida e fascinante diante da câmara, mais vale estabelecer um plano geral com um tripé e simplesmente registar a excentricidade real e humana.

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Mas, afastando-nos momentaneamente de questões formais, quem é a personagem no centro de Oleg y las Raras Artes? Como o título sugere, ele é um homem chamado Oleg, Oleg Karavaychuk mais especificamente, e é um dos mais importantes músicos russos dos últimos 100 anos. Um pianista prodigioso cujas composições sugerem uma atitude avant-garde perante os limites tradicionais da arte, Oleg tocou para Estaline sob a alçada do apoio estatal e, mais tarde, veio também a tornar-se compositor de cinema e trabalhou com grandes nomes do cinema soviético como Muratova e Todorovskiy, cineastas que nem sempre estiveram nas boas graças do governo.

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Seguindo essa linha de pensamento, pensemos também noutra ocasião, em que Duque filma Oleg a passear pelos bosques e casas que, em tempos, foram habitadas por uma série de artistas que o estado queria apoiar. Falando com júbilo sobre a generosidade e grandeza de Estaline, Oleg é capaz de, na mesma frase, chamar a atenção aos nomes ilustres dos seus vizinhos como modo de impressionar uma hipotética audiência. Ele fala de Tarkovsky, por exemplo, mas Duque nunca tenta questionar a bizarra contradição entre este homem que celebra Estaline ao mesmo tempo que fala dos artistas que mais foram perseguidos pelo controle estatal e sua censura como se eles fossem deuses do Olimpo.

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Essa falta de questionamento ou visão crítica é algo que abrange todo o filme, de facto. A câmara de Duque nunca tenta ser mais que um observador passivo, que nada pretende questionar sobre a realidade que lhe é apresentada. Mesmo quando Oleg se desdobra em contradições ideológicas de uma esfera mais declarativamente política, o filme nunca parece interessado em pesquisar as suas palavras para além da superfície. Afinal, Oleg canta a glória do Grande Líder Estaline mas também é um homem inebriado com a nostalgia do imperialismo e monarquia dos czars. Não é por acaso que o filme passa grande parte da sua duração dentro das maravilhas de talha dourada do Hermitage, uma realidade faustosa e bem distante de qualquer tipo de ideologia acética e socialmente justa do regime soviético.

É evidente que este tipo de recusa do questionamento não produz efeitos exclusivamente negativos. Ao longo de Oleg y las Raras Artes apenas vemos a personagem titular diante da câmara, sempre sozinho e isolado do resto do mundo, e esse tipo de visão míope e singularmente focada tem o efeito de fazer da palavra de Oleg uma espécie de Bíblia momentânea, uma palavra de inspiração divina que nos guia pelo filme. E desses discursos extensos e cheios de reflexões sobre a arte, o legado da cultura russa e a filosofia de vida pessoal deste excêntrico, o filme extrai momentos de inesperado humor. Ouvir Oleg falar da sua fixação quase erótica por fotografias de meninas nas cruzes dos cemitérios é algo insólito, mas nada bate o prolongado monólogo que encerra o filme onde, entre muitas verdades profundas, Oleg expõe a maldade do poliéster e descreve como as fibras naturais são o caminho para uma longa vida, excelência artística e a liberdade da alma humana.

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Apesar disso, um filme não vive apenas do seu sujeito, sendo que o cinema é um meio de expressão audiovisual. Infelizmente para Oleg y las Raras Artes e suas audiências, o realizador parece ter esquecido isso mesmo e apresenta-nos um documentário com uma forma rigidamente prosaica. Alguns momentos como a abertura num corredor do Hermitage, ou a primeira vez que a câmara captura, em pormenor, as mãos de Oleg no piano, trazem algum interesse visual ao filme, mas são instâncias raras e, passado muito pouco tempo, apercebemo-nos que Oleg y las Raras Artes já esgotou todo o seu repertório cinematográfico. Dessa repetição nasce o aborrecimento e, para um filme de 70 minutos, tal tédio é um imperdoável crime de displicência estética e mecânica.

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Em conclusão, a banalidade formal e repetição anódina levam à irrelevância das poucas ideias visuais e estruturais do filme, mas nada disso implica que a personagem de Oleg seja menos interessante. De facto, Oleg y las Raras Artes vive, morre e depende totalmente do fascínio que o público encontrar no excêntrico pianista titular. Nesse sentido, o filme até é uma preciosidade pois Oleg é uma verdadeira personagem da vida real e este documento, quase uma carta de amor e admiração em forma de filme, é uma bela elegia à sua personalidade e magnética presença. O facto de ele ter morrido ainda este ano acrescenta valor ao filme que assim se apresenta como uma espécie de elegia final a um génio perdido e suas bizarras singularidades.

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O MELHOR: O humor insólito que vai aparecendo nos longos monólogos de Oleg.

O PIOR: Toda a concretização formal e sua abjeta e aborrecida banalidade.


 

Título Original: Oleg y las Raras Artes
Realizador:  Andrés Duque

DocLisboa | Documentário | 2016 | 70 min

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CA

 

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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