Café Society | O glamour de Hollywood filmada por Woody Allen

Entre o esplendor da Hollywood dos anos 30 e os clubes noturnos nova-iorquinos controlados pela máfia, Café Society afirma-se como o mais glamouroso filme de Woody Allen.

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Apesar da maioria dos seus filmes se passar na Nova Iorque contemporânea, ou mais recentemente nas grandes capitais da Europa, Woody Allen não é nenhum estreante no que diz respeito ao cinema de época. No seu historial, são variados as histórias que decorrem no período que vai desde os loucos anos 20 até ao final da década de 40, no pós-guerra. Nesse sentido, o seu mais recente filme, Café Society, insere-se perfeitamente e sem grande aparato na filmografia do seu realizador, mas há algo que diferencia bastante este título dos seus companheiros. É que, longe de se focar singularmente na vida nova-iorquina ou em qualquer tipo de círculo fechado da alta sociedade e elites intelectuais, este filme começa e tem grande parte da sua alma em Hollywood nos seus anos dourados onde os estúdios dominavam toda a indústria cinematográfica americana. Muito longe dos teatros da Broadway dos anos 20, ou das festas parisienses onde F. Scott Fitzgerald e Salvador Dali podiam conviver e trocar ideias, o mundo deste filme é o do superficialismo típico de Los Angeles.

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Não que não haja artificialismo em Nova Iorque, seus círculos intelectuais e artísticos. Na verdade, no seu âmago concetual, Café Society apresenta-se como uma visão que usa uma estética fortemente estilizada para examinar dois tipos diferentes de pretensão e superficialidade, em Los Angeles e Nova Iorque. Entre o glamour dos estúdios, casas com piscina e passadeiras vermelhas e os clubes noturnos dominados pela máfia, todo o mundo deste filme é dominado por pretensão social e pela sede de capturar a fachada de sucesso e influência. Este é, na verdade, o filme de Woody Allen onde a estética mais se evidencia como o elemento central do projeto e a palavra como um aspeto mais subalterno e complementar. A salientar tal hegemonia formalística temos a fotografia de Vittorio Storaro, uma lenda viva do cinema, que impõe de tal modo o seu cunho pessoal a todo o filme, desde movimentos de câmara, uso de luz colorida, enquadramentos e até o formato da imagem, que quase se poderia dizer que este é um filme assinado por Allen e Storaro.

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É evidente que a importância visual não se resume somente à fotografia e é precisamente sobre os figurinos que nos propomos aqui a pontificar. A figurinista encarregue do guarda-roupa de Café Society é Suzy Benzinger, uma frequente colaboradora de Allen que, até agora, nunca tinha feito nenhum filme de época com o realizador. Como estreia neste mundo da reprodução histórica e reinterpretação de estilos passados, Benzinger mostra-se perfeitamente segura das suas habilidades e estética, concebendo um visual que oscila com precisão entre uma estilização reminiscente do modo como os antigos filmes de Hollywood tratavam situações de época, e uma pesquisa e procura por verismo histórico e autenticidade nos detalhes. Aliás, logo na primeira cena isso é posto em ênfase, quando a câmara de Storaro desliza sobre uma piscina azul e vai passando pelos convidados de uma festa exclusiva cheia de profissionais do cinema. O corte das roupas é correto, mas o uso excessivo de cremes e brancos aponta para uma certa dimensão estilizada, onde os corpos humanos passam quase a ser telas para as pinturas de luz colorida criadas pelo diretor de fotografia italiano.

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No centro desta festa de piscina, está uma das personagens principais desta intriga melodramática, Phil Stern, um poderoso produtor de Hollywood, cujo sobrinho lhe vem fazer uma visita, saído diretamente os humildes bairros judaicos de Nova Iorque. O contraste entre Phil e Bobby, interpretados por Steve Carrell e Jesse Eisenberg respetivamente, é um perfeito exemplo da astúcia e subtileza no trabalho de Benzinger. Ambos os homens passam o filme em fatos que seguem os traços básicos das modas masculinas desta época, mas algumas mudanças e ajustes no modo como as peças assentam no corpo fazem toda a diferença. Perfeitamente vestido, Carrell é assim uma imagem de poder, onde as linhas retas da sua silhueta salientam a sua posição e influência social. Em contraste, essas mesmas linhas apenas salientam a magreza e insegurança de Eisenberg que, na segunda metade do filme, troca estes fatos mais pobres por um estilo rico e glamouroso, apropriado ao anfitrião de um clube noturno. De um extra desenxabido, Bobby torna-se na imagem tipificada de uma estrela de cinema, mas, como já devemos saber, as superfícies são isso mesmo, apenas superfícies.

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A compor um forçado triângulo amoroso com este par de tio e sobrinho está Veronica, interpretada pela inclassificável Kristen Stewart. A atriz, que já tem a justa fama de ser uma fashionista e musa para Karl Lagerfeld, nunca tenta criar qualquer tipo de afetação de época, rasgando o filme com a sua desenvergonhada contemporaneidade. Há algo de inorgânico na sua abordagem, mas o contraste com o resto do filme faz de Veronica um foco de atenção tão grandioso que é fácil perceber a obsessão romântica dos dois homens acima referidos. Jogando para este jogo de paradoxos entre modernidade e um filme de época, os figurinos de Stewart nada têm que ver com o estilo pessoal da atriz, sublinhando ainda mais a sua desconexão para com o mundo do filme. Com laços no cabelo, saias e calções curtos, ela é a imagem perfeita de um certo tipo de feminilidade infantilizada que estava em voga nos anos 30, mas as cores dos seus figurinos são sempre muito pasteis e amenas, a não ser num momento de confrontação com Phil em que o seu conjunto é em cetim vermelho, como que antecedendo os estilos que, mais tarde, vamos ver em Nova Iorque.

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Mas Stewart não é o único interesse romântico chamado Veronica neste filme. Blake Lively interpreta uma glamour girl nova-iorquina que capta a atenção de Bobby, depois deste já ter ascendido aos antípodas da alta sociedade nova-iorquina graças ao seu trabalho como anfitrião de um popular clube noturno do seu irmão, um mafioso. No caso desta Veronica, não há paradoxos, mas sim plena concretização de um look cheio de brilho e beleza típicas de uma  ideia clássica de estrela de Hollywood, o que é irónico tendo em conta que a Veronica de Stewart em Los Angeles nada tem que ver com essa mesma imagem de elegância californiana. Aquando da sua primeira aparição, Lively é uma torre de tecido prateado perfeitamente disposto sobre o seu corpo e, mais tarde, mesmo quando o seu estilo se vai atenuando, ela mantém essa ideia vápida e exuberante de glamour clássico, mesmo quando veste, numa festa de passagem de ano, um vestido simples em vermelho escuro.

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Vermelho é, aliás, uma das cores mais omnipresentes entre os figurantes das cenas dentro do clube noturno de Bobby e seu irmão. Se Los Angeles é caracterizado por silhuetas clássicas de Hollywood, Chanel e cores pálidas e calorosas que servem como telas às luzes de Storaro, Nova Iorque é onde os figurinos deixam de ser telas para se transformarem em pontos focais de cor e brilho, mesmo quando ainda se tem alguma palidez cromática, e cheios de detalhes pitorescos à la Schiaparelli. Para além disso, quando vemos pessoas intencionalmente démodé, como uma prostituta em Los Angeles e a família de Bobby em Nova Iorque, é fascinante ver o uso de padrões da época, ora aplicados ora com excesso berrante ora com aborrecida severidade doméstica.

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Finalmente, é imperdoável falar de Café Society e seus figurinos sem referir os derradeiros conjuntos envergados pela maravilhosa Kristen Stewart. Depois de escolher ficar com o homem mais velho no fim da primeira metade do filme, Veronica regressa e longe está a sua imagem de infantil feminilidade. Agora, nos braços do seu marido ela é a imagem perfeita de uma estrela de cinema, coberta em tecidos caros, vestidos compridos, plumas, echarpes e, é claro, uma montanha de joalharia vintage da Chanel. É nesta figura de amarga beleza que os temas principais de Café Society convergem e ganham forma humana, cristalizando as complexidades da performance social e a feiura da futilidade deliberada que caracteriza tantos destes ambientes sociais observados por Woody Allen. Em conclusão, resta apenas dizer, com toda a segurança do mund0o, que Café Society é o filme mais glamouroso na filmografia deste realizador norte-americano.

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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