"Olga" | © Outsider Films

Olga, em análise

Em parceria com a distribuidora Outsider Films, os Cinemas NOS organizaram sessões solidárias de “Olga” para apoiar os refugiados ucranianos. O filme de Elie Grappe representou a Suíça na corrida para os Óscares, mas a sua história centra-se na figura de uma jovem ucraniana forçada a abandonar a sua terra natal.

O novo filme de Elie Grappe foi atrasado pela pandemia, tendo sido planeado para uma estreia em 2020. Contudo, a sua narrativa vai mais para trás na recente história europeia, preocupando-se com os anos do Euro Maidan na Ucrânia, entre 2013 e 2014. Dito isso, na conjetura geopolítica atual, a obra anuncia-se como uma história do momento. De facto, até podíamos caracterizar “Olga” como um aviso do que estava para vir, um presságio que, infelizmente, se concretizou. Afinal, esta é a história de uma rapariga ucraniana em fuga da violência causada pela agressão pró-russa.

Trata-se de um conto de exílio forçado, cheio de amargura e mágoa no coração. Contudo, também tem empatia para oferecer, um humanismo rarefeito que se expressa por meios de forma cinematográfica e um olhar astuto. Tudo começa em solo ucraniano, na companhia da personagem titular. Olga é uma ginasta adolescente com pais divorciados, cuja mãe trabalha como jornalista. Nos tempos que correm, a profissão é perigosa e, num momento de assombrosa economia fílmica, Grappe tudo isto nos mostra numa só viagem de carro.

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© Outsider Films

Da conversa tensa entre mãe e filha passamos a um choque automobilístico, possível retaliação pela parte das fações que se manifestam do lado da Rússia e Viktor Ianukovytch. A disrupção é tremenda, como se o próprio filme fosse chocado até ao ponto de catatonia momentânea. Tanto é o impacto que não temos dúvida alguma em relação ao destino de Olga. Sob pressão materna, ela faz as malas e é enviada para ir viver com o pai na Suíça. Em termos desportivos, isso significará a representação da Suíça em competição internacional, habituar-se a uma nova equipa e novos treinos.

Contudo, o lavoro físico da ginástica existe enquanto reflexo multidimensional. Ao nível do texto, tanto serve como extrapolação do cataclisma pessoal como das inseguranças típicas de uma adolescente que sente seu corpo a mudar, fora do seu controlo como tudo na vida. Também servem de força orientadora para a construção formal da fita. Tal como a sua protagonista, “Olga” é um filme obcecado com a plasticidade tensa das barras, o esforço necessário para fazer o corpo girar pelo seu eixo, a materialidade brusca da palma que bate na superfície coberta de giz.

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Partilhamos a obsessão de Olga, pois estamos sempre com ela do ponto de vista cinematográfico. A abordagem de Grappe valoriza a subjetividade, seguindo o seu princípio tanto ao nível audiovisual como rítmico. Note-se, por exemplo, quanto o uso de transições em “dissolve” nos ajudam a entender a direccionalidade mental de Olga, aquilo em que ela se foca e aquilo com se distrai. Um vislumbre de notícias da Ucrânia abafa tudo o resto em jeito gradual. É um dissolver lento e ponderado, uma perfeita mostra de como Olga não se consegue abstrair do que se passa na Ucrânia.

O fado da sua nação é algo que assombra Olga ao mesmo tempo que o corpo a puxa para o trabalho nas barras. A dissociação é subtil, mas sente-se, especialmente quando as mãos dela dominam o enquadramento. De novo voltamos ao desporto, à ginástica. “Olga” convence-nos que há beleza na sua musculatura, uma abstração fisionómica que Grappe captura enquanto fenómeno estético e emocional também. A fotografia de Lucie Baudinaud faz maravilhas, mas é a montagem de Suzana Pedro que mais inspira admiração.

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© Outsider Films

Através dela se planta a flor do suspense, sempre pronta a desabrochar naqueles momentos de possível vitória, de potencial acidente desportivo. O medo apodera-se de nós, mas com ele vem um estranho êxtase, um instante em que o fantasma esvanece e só existe um corpo e as barras. Assim se entende o interesse na ginástica, sua necessidade, quanto o percurso de Olga enquanto personagem é uma cíclica procura pelo esquecimento momentâneo. Tudo se faz em jeito frio e reticente, desapegado e anti sentimental, circum-navegando os clichés do subgénero desportivo.

Este não é um conto inspirador e estas passagens são interlúdios poéticos num filme bastante cru e sem apego a dramas desnecessários. Os lirismos ajudam-nos a perceber uma psicologia complicada, compensando uma performance que triunfa na fisicalidade, mas tem algumas fragilidades em grande plano. Anastasiia Budiaskina é ginasta, não atriz, e, apesar de trazer autenticidade à fita, também a marca com relativa alienação. Contudo, sendo este o retrato da exilada, da pessoa longe da pátria, perdida num novo mundo cuja língua não entende, estas insularidades interpretativas fazem sentido. “Olga” sente a falta da Ucrânia em mais modos que um.

Olga, em análise
olga critica

Movie title: Olga

Date published: 13 de May de 2022

Director(s): Elie Grappe

Actor(s): Anastasiia Budiashkina, Sabrina Rubtsova, Caterina Barloggio, Théa Brogli, Jérôme Martin, Tanya Mikhina, Alicia Onomor, Lou Steffen, Aleksandr Mavrits, Philippe Schuler, Stéphanie Chuat

Genre: Drama, Desporto, 2021, 85 min

  • Cláudio Alves - 75
75

CONCLUSÃO:

Nos tempos que correm, “Olga” assume-se como uma história urgente sobre a crise na Ucrânia. Formalmente impecável, o filme triunfa na execução audiovisual de uma ideia simples, mas poderosa.

O MELHOR: A fotografia de Lucie Baudinaud, a montagem de Suzana Pedro.

O PIOR: A prestação de Anastasiia Budiaskina é um elemento logicamente alienante, mas rouba algum impacto à fita. Estudos de personagem como “Olga” dependem sempre muito dos seus atores, não obstante o talento atrás das câmaras.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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