'O Serpente', uma série da Netflix e BBC.

Opinião | ‘O Serpente’, quando uma série de televisão parece cinema.

’O Serpente’ é uma série de televisão de 8 episódios — não muito grande, como eu gosto — que se baseia na história verídica de Charles Sobhraj, um serial killer franco-vietnamita, que matou vários jovens turistas ocidentais na chamada ‘rota hippie’, pela Tailândia, Índia e Nepal, nos anos 70, para lhes roubar o dinheiro e os passaportes. 

Trata-se de uma co-produção com a chancela da BBC, que tem uma maravilhosa interpretação do actor francês Tahar Rahim, no papel principal e se fosse reduzida em algumas partes até dava um grande thriller de mistério e suspense, para ver no grande ecrã. Inspirada em factos reais, ‘O Serpente’ (The Serpent), a série de 8 episódios recém-lançada na Netflix, conta a história do vigarista Charles Sobhraj (protagonizado pelo actor francês Tahar Rahim de O Mauritano), que se transformou num sanguinário assassino em série, que matou mais de uma dúzia de jovens turistas na Ásia entre 1975 e 1976. Essa co-produção da BBC e da Netflix destaca-se sobretudo pela sua intensidade dramática, mas também pela forma peculiar como a história é contada: com contínuas idas e vindas no tempo — às vezes é preciso estar bastante atento, para não nos perdermos na trama; pelo execrável modus operandi desse indivíduo detestável, aparentemente simpático; pelo requintado e exótico cenário da Ásia, dos anos 70, o local para onde o criminoso, seduziu e executou as suas vítimas, que na sua maioria, tinham perdido o contacto com as suas famílias.

O Serpente

Sobhraj, consegui com grande habilidade — falsificando os passaportes das suas vítimas — escapar às autoridades policiais e judiciais, durante anos e anos, o que o levou a ser conhecido entre outras alcunhas, como O Serpente, que dá título à série. Os assassinos em série, costumam ser pessoas frias e apáticas, que não demonstram os seus sentimentos perante as situações de risco. E neste sentido, começa-se por destacar o grande trabalho de interpretação do actor Tahar Rahim, que conseguiu nesta série assimilar muito bem o seu papel, essa frieza quase apática e transparecer a personalidade narcisista do criminoso, que teve coragem para durante bastante tempo, cometer as suas atrocidades, sem ser apanhado. Nascido em Saigão, filho de mãe vietnamita e pai indiano, e criado em França, país do qual tinha nacionalidade e pelo qual nutria ódios reais e imaginários, no que diz respeito ao estilo de vida e ao espírito colonialista, Sobhraj sabia que, apesar da sua notável capacidade de sedução, sem a presença de uma companhia de feições europeias — a quem a actriz britânica Jenna Coleman dá muito bem, um ar ora alucinado, ora atarantado — teria dificuldade em ganhar a confiança dos jovens viajantes. Os quais, depois de uma estada no descontraído e festivo condomínio de Banguecoque, desapareciam no mundo, mesmo que ficassem, registados os carimbos seus nos passaportes, numa complicada teia de movimentações e viagens urdidas, pelo assassino. 

VÊ TRAILER DE ‘O SERPENT’ (OU THE SERPENT’)

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Acompanhado de uma namorada Marie-Andrée Leclerc (Jenna Coleman), cúmplice mas também uma vítima da manipulação, Sobhraj, escolhia minuciosamente as suas vítimas,  entre os turistas ocidentais, recém-chegados a Banguecoque. A maioria deles eram jovens, consumidores de drogas alucinogénicas (estavam na moda na altura) ou que procuravam um estilo de vida alternativo, ao mundo ocidental. Apresentando-se ora como fotógrafo ou como negociante de pedras preciosas, O Serpente influenciava-os e leva-os a pensar que tinham disenteria. Fingia cuidar deles, para depois roubá-los e matá-los, estrangulando-os, esfaqueando-os ou afogando-os, nas belas praias da Tailândia, como Pataya. Sobhraj queimou vivos, um casal de jovens mochileiros holandeses. É após o misterioso desaparecimento dos seus compatriotas, que Herman e Angela Knippenberg (Billy Howle e Ellie Bamber), um casal de diplomatas holandeses, começam a juntaram várias pistas e a investigar Sobhraj, (sem nunca terem contacto com ele) e que em Banguecoque era conhecido pelo nome de Alain Gautier.

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Cartaz de The Serpent

Esta investigação por conta própria do diplomata holandês, de inicio rejeitada e apelidada de fantasia, pelas autoridades policiais locais e meios diplomáticos dos países ocidentais, tornou-se no ponto de partida para uma frenética perseguição em todo o mundo, até que finalmente o perigoso assassino e psicopata foi detido e condenado à prisão perpétua, no Nepal, onde permanece até hoje. Entre as melhores coisas desta série falada em várias línguas, está além do notável elenco internacional, está ainda uma incrível recriação dos anos 70, com todo um desfile da época, que vai da música ao guarda-roupa. Destaca-se ainda a capacidade do enredo nos colocar perante o terror e a insanidade do protagonista e dos seus acólitos, a namorada Monique/Marie-Andrée Leclerc e o seu amigo indiano Ajay (Amesh Edireweera), ainda a monte. Aos poucos, a história vai revelando o tipo de pessoa que era Charles Sobhraj — está vivo com 76 anos —  um homem com uma mente fria e calculista que, sob o pretexto de trapacear e roubar, escondia uma vontade irremediável de matar, os jovens mochileiros, pois detestava o seu modo de vida e tinha um profundo ódio à civilização ocidental. Quantos assim, andarão por aí?

JVM

José Vieira Mendes

Jornalista, crítico de cinema e programador. Licenciado em Comunicação Social, e pós-graduado em Produção de Televisão, pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa. É actualmente Editor da Magazine.HD (www.magazine-hd.com). Foi Director da ‘Premiere’ (1999 a 2010). Colaborou no blog ‘Imagens de Fundo’, do Final Cut/Visão JL , no Jornal de Letras e na Visão. Foi apresentador das ‘Noites de Cinema’, na RTP Memória e comentador no Bom Dia Portugal, da RTP1.  Realizou os documentários: ‘Gerações Curtas!?’ (2012);  ‘Ó Pai O Que É a Crise?’ (2012); ‘as memórias não se apagam’  (2014) e 'Mar Urbano Lisboa (2019). Foi programador do ciclo ‘Pontes para Istambul’ (2010),‘Turkey: The Missing Star Lisbon’ (2012), Mostras de Cinema da América Latina (2010 e 2011), 'Vamos fazer Rir a Europa', (2014), Mostra de Cinema Dominicano, (2014) e Cine Atlântico, Terceira, Açores desde 2016, até actualidade. Foi Director de Programação do Cine’Eco—Festival de Cinema Ambiental da Serra da Estrela de 2012 a 2019. É membro da FIPRESCI.

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