O guarda-roupa de Orgulho e Preconceito e Guerra

Os figurinos de Orgulho e Preconceito e Guerra misturam as delicadas modas da época de Jane Austen com detalhes típicos do cinema de ação e terror contemporâneo.

Orgulho e Preconceito e Guerra é um filme que se desenvolve a partir da absurda ideia de acrescentar uma invasão de zombies ao mais celebrado e conhecido romance de Jane Austen. É na ridícula justaposição de elementos clássicos de histórias de amor do passado com aspetos do cinema de ação e terror contemporâneo que a obra encontra o seu maior sucesso e humor. Essa justaposição depende muito da construção visual do filme, sendo que os figurinos, ao seguirem uma relativa fidelidade histórica aos estilos do tempo de Jane Austen, se tornam uma parte essencial do jogo de contrastes tonais e estilísticos que tanto caracterizam esta narrativa. Julian Day poderia ter abordado o material com um estilo muito mais fantasioso, mas, ao empregar visuais típicos do cinema classicista de época, o figurinista conseguiu, de certo modo, exacerbar o humor do filme.

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Na construção do guarda-roupa para o elenco de Orgulho e Preconceito e Guerra, Day recorreu à reutilização de vários figurinos de outras produções semelhantes, efetivamente copiando as estéticas que se vieram a tornar convencionais nas adaptações televisivas e cinematográficas da obra de Jane Austen Como consequência, na sua generalidade, os figurinos são de uma surpreendente qualidade e verosimilhança histórica, tanto nas personagens femininas como masculinas. Mesmo os uniformes militares são, na sua maioria, impecáveis traduções dos estilos vigentes aquando da publicação original de Orgulho e Preconceito em 1813.

Orgulho e Preconceito e Guerra

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Apenas um figurino feminino foge por completo a esta geral utilização dos estilos apropriados da época, o vestido que Elizabeth Bennet enverga para o primeiro baile do filme, um festejo que rapidamente se torna numa empolgante cena de batalha. Este é claramente um figurino que não foi reciclado de outro filme passado no período de Regência em Inglaterra, pois, com exceção de uma cintura subida, não tem nada que o ligue a esse período histórico. Mas não é esse caráter anacrónico que fere o olhar, mas sim a execução da peça que, sendo feita de cetim barato e claramente sintético e decorado com renda contemporânea, parece mais um feio vestido para um baile de finalistas de uma escola secundária que um figurino de um filme de estúdio.

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Para além desse peculiar desastre que é o vestido azul de Lizzie Bennet, também a roupa interior das personagens femininas oferece algumas dúbias escolhas de design. Por exemplo, apesar de historicamente corretos, os espartilhos usados pelas irmãs Bennet parecem terrivelmente pouco práticos para o seu violento estilo de vida, especialmente quando consideramos o modo como se estendem quase até às suas ancas. Ainda mais estranho é o modo como os seus restantes trajes menores pouco têm de histórico, incluindo algumas escolhas bizarras como o uso de cintas elásticas nas compridas meias do elenco.

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O uso desses espartilhos torna-se particularmente inapropriado quando observamos os inteligentes detalhes de estilização propositada que o figurinista inclui numa série de outros figurinos para permitir maior liberdade de movimento durante as cenas de ação. Por exemplo, a maior parte dos longos vestidos das irmãs Bennet têm grandes rachas, impróprias para a realidade histórica de Austen, que são perfeitas para as cenas em que elas são forçadas a combater hostis zombies. Para além desse inteligente detalhe que traz um delicioso toque de ficção revisionista ao contexto histórico, temos também a coleção de coldres, arneses, armas e botas de cabedal que cada uma destas personagens veste por baixo dos seus vestidos, mesmo quando vai a um baile. Afinal, nunca se sabe quando um zombie pode atacar.

Orgulho e Preconceito e Guerra

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Alguns dos melhores figurinos do filme são mesmo aqueles que mais declarativamente foram feitos a pensar na guerra com os mortos-vivos canibais, como é o caso dos trajes de batalha envergados por Elizabeth Bennet e Lady Catherine no clímax do filme. Estes conjuntos são de particular interesse pelo modo como integram calças com os estilos femininos da época de Jane Austen, emparelhando-as, no caso de Lizzie, com um comprido redingote estilizado, e, no caso de Lady Catherine, com um traje militarista, perfeito para esta versão da personagem e sua qualidade enquanto formidável guerreira. Para além de tudo isso, é difícil resistir à imagem de Lena Headey pronta para a batalha, com um fabuloso guarda-roupa e uma pala sobre o olho esquerdo, como se fosse uma pirata de outros tempos.

Orgulho e Preconceito e Guerra

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Ao contrário do seu interesse amoroso, Mr. Darcy não tem direito a numerosas trocas de figurino, vestindo o mesmo fato durante a maior parte do filme. Apesar de ser um militar nesta ensandecida adaptação do clássico de Austen, Darcy não aparece vestido com os uniformes envergados pelo resto dos militares no filme, usando, pelo contrário, um conjunto de preto sobre preto, rematado com um longo casaco de cabedal. Desde a estreia de Matrix em 1999, que um casaco de cabedal comprido se tornou um standard no guarda-roupa dos heróis de ação e parece que Mr. Darcy recebeu o memorando. Este é um figurino que pouco tem de histórico, mas a sua ligação à tradição do cinema de ação contemporâneo justifica a sua escolha e seu descarado dramatismo consegue ser tão impressionante como surpreendentemente cómico.

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Para além de todas as personagens e conjuntos já referidos, há que destacar as ensanguentadas roupas dos zombies que cambaleiam por este universo em fúria canibal. Nos seus trajes relativamente históricos completamente degradados e cobertos de sangue e entranhas, temos o que poderia ser o derradeiro sumário deste filme e seu discurso visual. Orgulho e Preconceito e Guerra pode não ser tão esplendoroso ou classicista como outros exemplos de cinema de época, mas há que reconhecer a importância que os seus figurinos continuam a ter para o seu sucesso. Afinal, parte da diversão de ver este filme, é precisamente observar o que primeiro parece ser mais um respeitável filme de época ao estilo dos dramas da BBC ser rudemente interrompido por verdadeiros bacanais de lúgubre carnificina.

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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