Os Domingos, a Crítica
A última edição do Festival de Cinema de San Sebastián foi marcada por uma rajada de grande cinema espanhol. A produção nacional sempre teve lugar de primazia na programação desse evento no nordeste de Espanha, mas 2025 foi um ano especial. Quem tenha dúvidas pode comprovar pelos palmarés. “Los Tigres” de Alberto Rodríguez foi condecorado por sua belíssima fotografia, enquanto Jose Ramon Sorois recebeu o prémio para Melhor Interpretação Principal pelo seu trabalho em “Maspalomas.” Por seu lado, José Luis Guerin arrecadou um galardão especial do júri pelo seu esforço documental em “Histórias do Bom Vale.” E, pois claro, a Concha de Ouro, máxima honra do festival, foi para “Os Domingos” de Alauda Ruiz de Azúa.
Em certa medida, a escolha surge em oposição ao vencedor de 2024, outra obra-mestra espanhola. Se as “Tardes de Solidão” de Albert Serra propuseram um cinema todo ele desligado do preceito narrativo, reduzido ao clamor audiovisual e aos significados que podem florescer da colisão imagética, “Os Domingos” assenta numa ideia do filme enquanto objeto dramatúrgico, onde a palavra e a performance do ator são os elementos centrais. Ambas as perspetivas são válidas, mas as experiências que proporcionam ao espectador contrariam-se em jeito radical. Emparelhados na História do Festival de San Sebastián, os dois títulos ilustram a riqueza de um cinema nacional quase sem paralelo na nossa contemporaneidade.
Não quero, com isto, sugerir uma falta de sofisticação no modo como Ruiz de Azúa aborda a encenação do seu argumento para a câmara. De facto, poder-se-ia caracterizar sua direção como classicista, a mise-en-scène, tantas vezes, centrada nas relações espaciais que os atores traçam no plateau. Afinal, por muito que esta possa ser uma história de temas espirituais, também é a dissecação de uma família em crise. É um melodrama doméstico com demarcado interesse na psicologia de personagens que tanto entendemos a nível visceral como as desconhecemos devido ao mistério essencial da condição humana. “Os Domingos” vive nessa tensão, replicando-a entre as figuras em cena e entre a cena e seu espectador.
Alauda Ruiz de Azúa mereceu a Concha de Ouro.

Tudo começa no dormitório de um convento, onde um grupo de adolescentes congrega na calada da noite. Elas fazem parte de um programa entre seu colégio católico e as freiras desta ordem, passando um tempo entre as religiosas em jeito de retiro espiritual. Não que a sua comunhão noturna siga as regras impostas pelas irmãs. Pelo contrário, esta mocidade coscuvilha e partilha rumores, histórias e álcool, enquanto uma canção de hip-hop espanhol ecoa entre as paredes conventuais. Mas, num gesto curioso, a câmara não se deixa prender às miúdas. Pelo contrário, incide seu olhar num crucifixo que tudo isto observa, o corpo crístico vestido pela luz de uma lanterna que treme.
Modernidade e tradição colidem nessa singela imagem, o foro espiritual e a rebeldia da adolescência, os prazeres da carne e algo maior que isso, algo desapegado à materialidade das nossas vidas mundanas. Também haverá aqui um toque de humor, o gosto pela graça implícita nestes contrastes. Serve a cena de introdução ao mundo de “Os Domingos” e à personagem de Ainara de 17 anos que, durante o retiro, travou amizade com a Madre Prioresa da comunidade e agora considera a hipótese de se tornar freira. De facto, ela planeia passar mais tempo no convento e iniciar um processo de discernimento vocacional, a caminho de se tornar noviça de clausura.
Verdade seja dita, Ainara é somente uma das protagonistas de “Os Domingos,” partilhando essa honra com a tia, Maite, cuja surpresa perante os desejos da sobrinha depressa se torna em ultraje. A partir deste conflito, Ruiz de Azúa pinta um retrato familiar que se estende muito além de duas mulheres, uma crente e outra ateia, cuja intimidade passada vai implodindo ao longo do filme. É que Maite suspeita de pressões exteriores, a influência opressiva da Madre e do Padre Chema, guia espiritual da menina. Há também a questão do luto, do desespero de uma menina que perdeu a mãe e talvez tenha se apegado à igreja como modo de superar a dor e de dar sentido às amarguras da vida.
O pai de Ainara parece preocupar-se pouco com os filhos, mais focado numa nova relação amorosa e nas pressões financeiras impostas por um restaurante que cambaleia perpetuamente à beira da falência. Por outro lado, a negligência paterna não dá necessária razão à tia cujas ações podem denunciar alguma projeção. Será que as experiências que ela deseja para a sobrinha não decorrem de uma certa miopia, da incapacidade de imaginar uma existência gratificante com base no rito cristão? Para ela, sacrificar uma vida dita normal para melhor honrar Deus é um sacrifício feito em nome do nada, de uma fantasia oca e das manipulações de outrem. Além do mais, estará Ainara preparada para esses sacrifícios?
Apesar da religiosidade da jovem, terá havido indiscrições com um colega atraente que podem pôr em causa a sua vocação. O modo como a tia utiliza essa informação quebra confianças e traça mais rachas profundas na harmonia familiar. A figura da avó complica a pintura, assim como as várias gradações de fé integradas neste clã cujas diferenças parecem expandir-se além desta narrativa e representar toda uma sociedade espanhola. Mas há especificidade também, especialmente na personagem do marido de Maitei, um professor basco cuja perspetiva muitas vezes surge à revelia da esposa e dos enteados. O que não marca presença na tapeçaria dramática de Ruiz de Azúa será o julgamento das personagens.
“Os Domingos” é um texto complexo que renuncia à natureza prescritiva de cenários semelhantes, não dando razão absoluta a qualquer das figuras em conflito. Pelo contrário, estende empatia a todos, até ao pai de Ainara, cuja traição fraternal marca profundamente o terceiro ato, quando o melodrama se reconfigura em tragédia e ninguém sai ileso. Isso jamais invalida uma pesquisa psicológica. Nunca se patologiza a crença ou a dúvida, mas dissecam-se os comportamentos, as escolhas, a aparente loucura, a raiva e a luxúria, toda uma galáxia de possibilidades sem moralismo à mistura. Aí está o génio de Ruiz de Azúa, sua capacidade para tornar o cisma da relação familiar num assombroso apocalipse pessoal, um épico à escala de uma conversa íntima.
Não há soluções ou respostas absolutas, certo ou errado.

Até as hipocrisias da igreja têm direito ao bisturi dramatúrgico da cineasta, manifestando-se na apatia de Ainara, cujo círculo de amigos contém pessoas cuja identidade as coloca em direta oposição ao dogma católico. Essa dimensionalidade mais cruel é uma das muitas notas que a jovem Blanca Soroa toca na sinfonia da sua caracterização. A Ainara que a atriz nos propõe é uma personagem tão definida pela transparência como pelo enigma, pela santidade da menina devota e a abrasão da adolescente rebelde. Dito isso, ela é só um nome entre os muitos que formam o elenco desta fita, com muitos aplausos reservados para Patrícia López Arnaiz como Maite e Nagore Aranburu no papel da prioresa.
Ai, lá caio eu no mesmo erro de reduzir “Os Domingos” ao texto e aos atores. Na verdade, mesmo que desinteressado em espectacularidade faustosa, o filme é um mimo de primor formal, a começar por uma banda-sonora que puxa pelo coletivismo da comunhão católica por meio da música coral. Em parceria com a montagem de Andrés Gil, essas composições de David Cerrejon e Alberto Iglesias produzem um final estonteante na sua severidade. A ação em cena é levada a cabo em jeito solene e simples, uma cerimónia na igreja e uma reunião em escritório jurídico. Contudo, na justaposição das duas, sinto o mesmo fulgor que quando vejo o batismo em “O Padrinho”, a sentença no fim do “Bígamo”, o ponto final de “Pickpocket.”
Só que, mais do que todos esses clássicos, “Os Domingos” deixa o espectador em estado de incerteza. Esse sentimento segue-nos para fora do cinema, já depois do filme terminar, sussurrando ao ouvido uma pergunta sem solução óbvia. O que farias nesta situação? Pessoalmente, não sei. A generosidade que Alauda Ruiz de Azúa estende a todas as personagens significa que dividir esta gente entre gregos e troianos, certos e errados, é impossível sem nós mesmos cairmos num reducionismo moral em ativa contradição ao que “Os Domingos” demanda enquanto texto, enquanto problema, enquanto reflexo de um mundo onde absolutismos éticos são tão comuns quanto falaciosos.
Os Domingos
Conclusão:
Depois de “Cinco Lobitos,” Alauda Ruiz de Azúa regressa com “Os Domingos” e, pelo caminho, consagra-se como uma das cineastas espanholas mais interessantes da atualidade. A Concha de Ouro em San Sebastián foi bem merecida, sendo que a fita representa um dilema moral que irá ficar com o espetador, assim como texto e elenco dignos de uma ovação de pé. Poucos são os cinemas nacionais com tanta vitalidade como aquele que se faz na terra de nuestros hermanos.

