Pássaros Amarelos

Pássaros Amarelos, em análise

“Pássaros Amarelos” amarra-nos a um colete de forças emocionais dilacerantes, fazendo-nos contemplar sublimemente a sua crueza e agonia em silêncio. 

Pássaros Amarelos
Alden Ehrenreich e Tye Sheridan em “Pássaros Amarelos”

“Pássaros Amarelos” é um daqueles filmes que, por motivos de marketing e de sobrecarga temática, acaba por esconder-se atrás dos holofotes como se não merecesse um aplauso. E não devia ser esse o irremediável desfecho de uma fita que arrisca tanto ao colocar o coração todo nas nossas mãos, numa visão das mais intimistas que a guerra já conheceu num grande ecrã. Aliás, “Pássaros Amarelos” alista-se nas salas de cinema nacionais já com algum pedigree no seu cacifo, depois de ter mirado uma nomeação para o prémio Audiência no Festival Internacional de Edinburgo, e de ter acertado em cheio numa distinção no departamento cinematográfico no Festival de Sundance. Baseado na premiada obra homónima de Kevin Powers, que despejou em duzentas e dezasseis páginas os horrores da sua mente aprisionada naquela maldita guerra do Iraque, é por ele que nos aproximamos mais do que nunca do medo aterrador de fitarmos a morte nos olhos e dizermos-lhe que ainda é cedo para irmos com ela para a sua casa. E tal como em “Blue Caprice”, Alexandre Moors repete a tónica na estilização da sua filmagem poética, provocante e psicanalítica, em plena justaposição com o espírito e a letra do credo militar usado como metáfora das emoções vividas no teatro de operações: “Um pássaro amarelo/Com uma nota amarela/estava empoleirado/no parapeito da minha janela/Eu atraí-o para dentro/Com um pedaço de pão/E então eu esmaguei-lhe/A porcaria da cabeça”.

(…) Ehrenreich leva Bartle ao fundo do poço para nos arrebatar com uma insuportável contenção de emoções viscerais, que ficam presas na sua retina para não transbordarem descontroladamente.

O co-argumento adaptado de David Lowery e R.F.I Porto, respeita esse olhar efémero e tenebroso veiculado pelas memórias malignas de Powers, que as ficciona como destroços cerebrais só equiparáveis à quietude nirvânica da sua aniquilação. Bartle (Ehrenreich) e Murphy (Sheridan) fornecem-nos superlativamente esse testemunho corrosivo e perturbador, que devolveu a tantas famílias apenas uma farda de soldado com um corpo vivo e uma mente quase morta. Mas é no regaço de uma corrente marítima, que Moors começa a colar e a descolar a ordem dos fotogramas vivências para permitir a cartografia psicológica dos jovens recrutas, rivalizando os diversos estágios da sua dor com a beleza indiferente da natureza. Para tal, a cinematografia polarizante de Daniel Landin (Debaixo da Pele) consegue sorver um certo lirismo de cada cenário paisagístico, ampliando, assim, a propagação emocional dos planos faciais impregnados com uma certa qualidade noir inerente às influências estéticas de Moors. É uma proposição cinematográfica mais arrojada, que resvala para aqueles meandros do “indie”, aonde Terence Mallick já andou a desbravar um pacote visual e temático similar em “A Barreira Invisível”.

Pássaros Amarelos
Alden Ehrenreich em “Pássaros Amarelos”

Mas é Ehrenreich quem enche aquela fotografia naturalista com uma melancolia corporal tão autêntica e verosímil, que não conseguimos tirar-lhe os olhos de cima. Já o tínhamos visto a granjear uma empatia magnética na pele do carismático Han Solo, mas aqui, Ehrenreich leva Bartle ao fundo do poço para nos arrebatar com uma insuportável contenção de emoções viscerais, que ficam presas na sua retina para não transbordarem descontroladamente. A famosa expressão “uma imagem vale mais que mil palavras” nunca fizera tanto sentido em termos cinematográficos, com a câmara de Moors quase sempre alapada à perspetiva facial, enquanto Landin polvilha os seus pozinhos dramáticos de luz e sombra. E embora sejamos levados para um Iraque baleado algures nos confins de Marrocos, a trama não esbanja demasiado tempo com o tiroteio fútil e fácil, centrando-se nos laços afetivos e nos impulsos sobreviventes de Bartle e Murphy. Desde cedo, que o seu enlace permite distinguir os pontos fortes e fracos de cada persona, insinuando-se lutuosamente em Bartle. E Sheridan vai bebendo agressivamente dessa nuvem tétrica que paira sobre as suas cabeças, lançando o rastilho incerto do seu destino. A química de ambos funde-se num riacho depressivo de gritos mudos e gestos sublevados, que esmurram o mais insensível de nós.

(…) Alexandre Moors repete a tónica na estilização da sua filmagem poética, provocante e psicanalítica, em plena justaposição com o espírito e a letra do credo militar usado como metáfora das emoções vividas no teatro de operações.

Ao cuidado do impassível sargento Sterling (Huston), ambos são obrigados a desacobardar-se momentaneamente do sofrimento interior, como se a vida humana não tivesse qualquer valor e caísse no abismo do niilismo existencial. Huston é intenso e incisivo na liderança daquelas duas vontades demasiado tenras e prematuras para o cenário de guerra, mas é o despertador do mal que mantém Bartle inteiro até ao fim.  Mas a batalha retratada na obra de Powers não se trava só em terreno inimigo, mas ecoa muito depois disso no seio familiar. A mãe de Bartle (Colette) e de Murphy (Aniston) são as recetoras da pungência dos danos colaterais infligidos nas cabeças demonizadas dos seus filhos. As duas, frente a frente, emergem numa empatia maternal reconfortante, mesmo que Colette possua aquele olhar mais ríspido e Aniston um olhar mais sofrido derivado de motivos dispares interligados. É por via destas interlocuções intimamente conflituantes, que o enigma em redor da participação de Bartle e Murphy na fictícia cidade de “Al Tafar”, se vai desmascarando de forma paciente e venenosa, como um puzzle inicialmente trabalhoso e ultimamente recompensador.

Pássaros Amarelos
Jennifer Aniston e Alden Ehrenreich em “Pássaros Amarelos”

“Pássaros Amarelos” é um filme tocante e poderoso, que nos abana com a aspereza e crueldade da sua mensagem real, levando-nos para um quarto escuro de reflexão sobre os desígnios e consequências advindas da guerra. Porque esta guerra que ninguém mostra e ninguém fala, é aquela que é travada com a nossa própria consciência, e irá remoer-nos o pensamento muito para lá do filme terminar.

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Pássaros Amarelos

Movie title: The Yellow Birds

Movie description: No explosivo cenário da guerra do Iraque, os jovens soldados Brandon Bartle (Alden Ehrenreich) e Daniel Murphy (Tye Sheridan) forjam laços de profunda amizade. Quando a tragédia atinge o pelotão, um dos soldados tem de regressar a casa para enfrentar a dura verdade por trás do incidente e para ajudar uma mãe enlutada (Jennifer Aniston) a encontrar paz. Com uma envolvente combinação de filme de guerra com drama comovente, Pássaros Amarelos é um filme inesquecível cuja força perdura muito depois do último fotograma.

Date published: 2018-10-17

Director(s): Alexandre Moors

Actor(s): Alden Ehrenreich, Tye Sheridan, Jennifer Aniston, Toni Collette

Genre: Drama, Guerra

  • Miguel Simão - 90
90

CONCLUSÃO

"Pássaros Amarelos" é uma pequena joia num emaranhado de longas-metragens tendencialmente focadas mais na guerra material do que na guerra emocional. É uma grande adaptação cinematográfica da obra literária de Kevin Powers, que mistura a beleza naturalista com as emoções cruas.

O Melhor: Alden Ehrenreich é um nome a ter em conta no cinema atual; cinematografia de David Landin é deslumbrante; enredo denso e complexo com uma cadência lenta mas não entediante, e uma edição inteligente.

O Pior: Argumento podia ter sido um pouco mais trabalhado em algumas áreas; o tom sombrio e sentimental poderá não ser do agrado de todos os espetadores.

MS

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Miguel Simão

Jurista e Poeta em algumas horas vagas. Cinéfilo incurável com forte pancada pelo sci-fi, que se perde algures pelo vício noturno de umas quantas séries televisivas de renome; amaldiçoado pelo perfecionismo estético de uma resma de palavras mais ou menos caras. Podem encontrar-me a divagar entre a Terra e o Espaço no meu blogue premiado Última Transmissão Humana.

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