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Pesquisa Obsessiva, em análise

“Pesquisa Obsessiva” é uma introdução às redes sociais e um espelho da sociedade em que nos tornámos, mas o resultado final não foi bem o que esperávamos.

Confessamos que este filme entra na nossa listagem dos piores de 2018. Esteve em destaque no Sundance Film Festival, mas não conseguiu surpreender… “Pesquisa Obsessiva” tem um bom trailer, capaz de despertar a atenção e até gerou boas críticas iniciais. Contudo, o resultado final de Aneesh Chaganty revelou-se demasiado parado e incapaz de transparecer a emoção necessária ao género de filme ambicionado. A não ser talvez pelo twist final, mas nem esse o salva.

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“Pesquisa Obsessiva” pretende ser uma crítica direta à sociedade do século XXI. Vivemos com a cabeça enfiada em ecrãs, é verdade. Contudo, no final, não conseguiu atingir o seu talvez ambicioso objectivo. Se, por ventura, a corrente de tutoriais não fosse tão alongada, são, sem exagerar, 40 minutos ou mais no total, a forma como “Pesquisa Obsessiva” é filmada e montada até poderia ter sido um ensaio interessante, no mínimo diferente. Até porque a ideia está lá, mas não tem força. Para quem só o vir em casa deverá ficar com a ideia de que apenas ligou o cabo HDMI à televisão…

Pesquisa Obsessiva

A longa-metragem é apresentada como um thriller dramático. Ora deveria ter suspense e momentos de tensão, em que se roem as unhas ou em que as pipocas rapidamente acabam. Aqui abrimos a boca e tentamos arranjar uma posição mais confortável nos assentos de cinema. Podem chamar-nos antiquados, mas um filme cuja ação se desenrola em ecrãs que por sua vez abrem novas janelas, dentro do ecrã de cinema, não funciona. A não ser que tenha um bom elenco a suportá-lo, o que já será discutido. Aqui, parece que falta o ar e começamos a pensar ‘quando é que a câmara verdadeira entra?’, quando é que iremos ver um plano aberto? A resposta é nunca. Perdão, temos um plano aberto dentro de uma reportagem de TV, que por sua vez está dentro do ecrã de cinema. Se calhar o objetivo de Chaganty era esse, mas não no mesmo sentido que o experienciámos.*

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A cada cena que passa pensa-se ‘é agora’, mas não. “Pesquisa Obsessiva” passa os 101 minutos a saltar de ecrã para ecrã. Literalmente. Se não é o telemóvel, com FaceTimes, é o Mac (a Apple deve ter sido o main sponsor), só não apareceu o iPad… ‘Aprende-se’ a mexer na lista de contactos e e-mail, do PC e Mac, e a mudar de utilizador. Levamos um tutorial exaustivo de todas as redes sociais que os americanos utilizam: Facebook, Instagram, Tumblr, Youcast (ou algo do género). E ainda, quão fácil é trocar uma password. Mas o destaque, destinado provavelmente a ‘chocar’, vai para o serviço de transmissão online de um funeral, o que sim é bastante mórbido.

Pesquisa Obsessiva

Foquemo-nos na história, um pai viúvo cuja filha desaparece, obrigando-o a mergulhar no mundo online para tentar encontrar a filha. Acompanhamos a “Pesquisa Obsessiva” de John Cho, na pele de David Kim, assistida detective Vick (Debra Messing). Cho procura suportar o filme com a ajuda de Messing, mas não consegue. Carece da expressividade necessária a este género de filmagem. As suas ocasionais explosões despertam-nos por um ou duas vezes, embora sejam incapazes de colmatar a ausência de ritmo do dito thriller. Michelle La, que dá vida à adolescente desaparecida, Margot, cumpre o seu papel como tal, ainda que o leque de emoções que demonstra não seja muito. A sua personagem pretende ser a personificação de uma grande percentagem dos adolescentes de hoje: vive online, tem 200 ou 300 amigos nas redes sociais, mas no mundo real apenas fala com 2. Faz vídeos na esperança de que ‘alguém’ se junte à sua janela. Tem uma ‘vida’ secreta que o seu pai desconhece. Uma crítica e alerta abertamente feitos a todos os pais (e talvez um abre olhos para alguns jovens).

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Claro que tudo isto começa por não ajudar a investigação do seu desaparecimento, mas acaba por ser a ferramenta crucial para o desfecho do filme. Estará Chaganty a tentar dizer-nos que, tal como tudo o resto, a Internet também tem um lado bom e um lado mau? Bom, então não nos está a dar uma grande novidade. Voltamos a dizer, a ideia e olhar crítico está presente em “Pesquisa Obsessiva”. A tentativa de ser diferente dos outros filmes da mesma temática, ao filmar exclusivamente com webcams e ao utilizar vídeos de Youtube, é que causa uma sensação de estranheza e desconforto, para além de retiram o ritmo ao filme.

Pesquisa Obsessiva

Entramos na última meia hora do filme, onde tudo acontece. “Pesquisa Obsessiva” acelera um bocado, mas lá está talvez tivesse tido um resultado melhor se no momento do desfecho passasse à ‘câmara normal’. O twist, que não iremos revelar, é engenhoso e só quem está verdadeiramente atento às imagens percebe que a polícia tem o homem errado. Também se não tivessem, seria um final muito infeliz, não para os personagens, mas para o público. Mesmo neste momento final, o que vemos são quase 5 minutos daquelas gravações típicas da sala de interrogatório a ocupar o ecrã gigante, apenas para depois regressarmos a mais trechos de filmagens de reportagens.

Em suma, se o filme pretendia ser uma crítica à sociedade, conseguiu. Se está bem concebida, é um ponto discutível. Não acreditamos que o espectador seja capaz de estar o filme todo concentrado no ecrã, devido à ausência de ação que o elenco não é capaz de suplantar. Podemos sair da sala a debater que esta é de facto a dura realidade em que vivemos, mas isso não transforma “Pesquisa Obsessiva” num bom filme.

 

* Esta ideia de um filme construído totalmente com imagens de monitores de computador e outros ecrãs não é um mecanismo inédito. “Unfriended”, a sua sequela, “V/H/S” e “The Den” são outros exemplos deste subgénero a que algumas pessoas começam a chamar ‘desktop movies’. Tais filmes devem muito à popularidade do ‘found footage’ que se faz sentir especialmente no género do terror.

Pesquisa Obsessiva, em análise
Pesquisa Obsessiva

Movie title: Searching

Director(s): Aneesh Chaganty

Actor(s): John Cho, Debra Messing, Joseph Lee, Michelle La, Sarah Sohn, Roy Abramsohn, Brad Abrell, Gabriel D. Angell, Thomas Barbusca Gage Biltoft, Kyle Austin Brown

Genre: Thriller, Drama, Mistério

  • Inês Serra - 35
  • Ângela Costa - 70
  • João Fernandes - 75
  • Filipa Machado - 70
63

CONCLUSÃO

Pesquisa Obsessiva consegue ser uma crítica aberta e frontal à sociedade do século XXI, mas perde pela forma como foi construída e interpretada.

O MELHOR: O twist final
O PIOR: A maneira como o filme foi gravado, montado e interpretado.

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Inês Serra

Cresci a ir ao cinema, filha de pais que iam a sessões duplas...Será genético? Devoro livros e algumas séries. Fã incondicional do fantástico e do sci-fi. Gostaria de viver todos os dias com o mote Spielbergiano - "I dream for a living"

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