"Profondo Rosso" | © Rizzoli Film

Profondo Rosso, a Crítica | Terror clássico na Festa do Cinema Italiano

No mês em que se celebram os 50 anos do 25 de Abril, a Festa do Cinema Italiano planeou múltiplos programas em sua comemoração. Um deles foi o ciclo “Sem Censura,” exibido no Cine-Teatro Turim. Entre os vários títulos aí exibidos, destaca-se o “Profondo Rosso” de Dario Argento, também conhecido como “O Mistério da Casa Assombrada” e “Deep Red.”

Desde inícios de carreira que Dario Argento se dedicou ao cinema dito de género. Estávamos em plena década de 60 e a indústria italiana sofria a febre do spaghetti western – muitos coproduzidos com Americanos e rodados em Espanha. Foi nesse mesmo modelo narrativo que o jovem realizador se estreou, mas não seria nele que encontraria o maior sucesso. Como os primeiros trabalhos foram bem-recebidos, Argento foi abençoado com maior liberdade artística e chegada a alvorada de 1970, já ele se preparava para saltar géneros. Virando as costas às coboiadas, ele decidiu experimentar o terror – assim nasceu “O Pássaro com Plumas de Cristal”.

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Nessa obra, Argento foi buscar muitas das ideias em desenvolvimento na indústria por mestres consagrados como Mario Bava. Só que também apurou os mesmos mecanismos a uma história em jeito policial. O filme de Argento não marcou o nascimento do giallo, mas é um dos seus mais célebres exemplos, desde temas e arquétipos até idiossincrasias estilísticas. Esses gialli eram mistérios sangrentos, sempre carregados de violência grotesca e um apuramento estético sublime. Neles viviam assassinos de luvas pretas e vítimas altamente sexualizadas, enredos onde a razão pouco importa que viriam a inspirar os slasher Americanos da década seguinte.

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© Rizzoli Film

Com esse “Pássaro,” o cineasta iniciou a fase mais icónica da carreira, vindo a tipificar de tal modo o melhor do giallo, que muitos automaticamente associam esse género a Dario Argento. Entre os seus vários trabalhos, “Profondo Rosso” afirma-se como o píncaro dessa sensibilidade estilística, estando já na vertigem de um pós-giallo prestes a surgir com “Suspiria.” Está tudo presente neste pesadelo vermelho, todos os clichés e maravilhas dos gialli, apurados para máximo sabor e ébrio total do espetador. Desde o enigma homicida polvilhado com artifícios de ar sobrenatural até ao final abrupto, este é um daqueles filmes que define todo um capítulo na História do Cinema.

A fita começa com um prólogo desconcertante, algum tableau Natalício com facas ensanguentadas e a figura de uma criança atarantada. Daí partimos para vinte anos depois, quando a câmara se depara com um espetáculo em cinquenta tons de vermelho. Trata-se de uma conferência espírita, um estudo de psicologia paranormal, onde uma médium se sente repentinamente assolada pela presença de uma mente perversa com vontade de matar. Mais tarde, nessa mesma noite, um assassino arromba o apartamento da mulher e dá cabo dela com um cutelo, qual carcaça no matadouro. Bem, essa ordem depende de versão para versão.




Enquanto a montagem para distribuição internacional considera a médium imediatamente a seguir ao prólogo, o público italiano em 1975 primeiro conheceu o verdadeiro protagonista de “Profondo Rosso.” É ele Marcus Daly, um pianista inglês interpretado por David Hemmings, mais conhecido pelo “Blow-Up” de Antonioni. Nestas primeiras cenas, descobrimo-lo em jeito de professor no corte Italiano, enquanto a edição para fora encontra-o somente quando, por mero acidente, ele testemunha o assassino dessa Cassandra moderna. Envolvido à força no mistério, Marcus tentará descobrir a identidade do monstro responsável.

Neste paradigma, “Profondo Rosso” desenrola-se como uma história de detetive amador, pontuado por mais mortes violentas para exacerbar a adrenalina do espetador. À medida que o herói se aproxima da verdade, mais tenebroso o ambiente é, mais morte se amontoa e mais angústia consome o coração. O enredo é extremamente básico, mas serve como esqueleto para os jogos tonais e estéticos de Argento. De facto, a irracionalidade típica do giallo e do próprio cineasta está meio domada pelos preceitos do policial, tendo mais força quando nos referimos às particularidades do assassino.

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© Rizzoli Film

Imagética de Natal repete-se em reflexo daquele prólogo e há uma ênfase significativa em elementos da infância, quer sejam canções de meninos ou brinquedos contextualizados enquanto mecanismos do terror. Além da médium, não há muito de sobrenatural neste cosmos, mas “Profondo Rosso” parece mágico devido à fotografia e música, à cenografia e constantes distúrbios estilísticos. Quando a violência se manifesta, não é tão visceral quanto impressionista. O sangue é tão vermelho que parece brilhar no escuro e os métodos de homicídio são apresentados como malvadezas barrocas. O uso de simbolismo animal é especialmente notável.

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Perante “Profondo Rosso,” sentimos estar a testemunhar um sonho projetado no grande ecrã, algum fenómeno que escapou às profundezas da imaginação humana e agora se exibe em sua ignóbil glória. Uma alucinação sem estribeiras, o filme sussurra a sua obscenidade no nosso ouvido e condena-nos a nunca esquecer os horrores invocados. Mas, no meio de tudo isto, há também beleza sem igual, esses matizes de cor requintada e a banda sonora que combina o tecno dos Goblin com as melodias de Ennio Morricone, algo tão estridente quanto inspirador. Apreciar o prazer estético faz-nos cúmplices da violência e inquieta-nos o espírito, aliando-nos com o pensamento perverso de “Profondo Rosso,” imergindo-nos no seu vermelho – cor do sangue, da alma, do cinema para tarados com orgulho na sua taradice. Um brinde ao giallo e ao cinema sem censura!

Depois de Lisboa, a Festa do Cinema Italiano vai passar pelo resto do país. De Norte a Sul, a celebração continua.

Profondo Rosso, a Crítica
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Movie title: Profondo Rosso

Date published: 21 de April de 2024

Director(s): Dario Argento

Actor(s): David Hemmings, Daria Nicolodi, Gabriele Lavia, Macha Méril, Eros Pagni, Giuliana Calandra, Glauco Mauri, Clara Clamai, Aldo Bonamano

Genre: Terror, Mistério, Thriller, 1975, 127 min.

  • Cláudio Alves - 95
95

CONCLUSÃO:

Não há nada como um bom giallo para nos arrebatar e fazer lembrar a glória de um cinema que se faz sem censura e sem remorso. Dario Argento afirma-se como rei do terror italiano em “Profondo Rosso,” sua primeira grande obra-prima antes da fantasia de “Suspiria.” Se nunca viste um clássico giallo, esta fita seria um ótimo ponto de partida para a descoberta.

O MELHOR: O trabalho fotográfico de Vittorio Storaro em matrimónio com a mestria musical de Ennio Morricone e dos Goblin. Os cortes desestabilizadores de Franco Fraticelli que dão forma e polidez à imaginação de Argento.

O PIOR: A maneira como o filme termina, bem à moda giallo, será certamente irritante para quem goste de mistérios mais tradicionais. Assim que há resposta aos enigmas do enredo, rodam os créditos finais. Nem temos tempo para respirar. Também percebemos que a violência contra animais – muitas vezes real e sem simulação – vai chocar muita gente.

CA

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