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Queer Lisboa ’22 | Framing Agnes, em análise

“Framing Agnes,” segunda longa-metragem de Chase Joynt, teve a sua estreia mundial no Festival de Sundance, onde ganhou dois galardões – da audiência e um prémio em honra da inovação. Agora o filme chega a Portugal antes mesmo da sua estreia comercial nos EUA. No Queer Lisboa 26, “Framing Agnes” integra a Competição de Documentários.

No paradigma atual, é comum criticarem-se filmes por serem demasiado compridos, jogos de indulgência artística onde a indisciplina resulta em obras frouxas, sem ritmo. Verdade seja dita, brevidade em nada indica o virtuosismo cinematográfico, mas fica sempre essa impressão. Quem não viu já um filme que seria mais forte caso algumas dúzias de minutos não tivessem sido excisados do produto final? Contudo, o reverso também ocorre, mesmo que seja algo mais raro. Há projetos que se insuflam de ideias interessantes, mas dão um tiro no pé quando optam pela duração minúscula, cortando a possibilidade de desenvolver conceitos com adequada profundidade.

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Assim é o caso do novo filme realizado por Chase Joynt, um documentarista trans que ganhou muito renome crítico com a sua primeira longa, “No Ordinary Man.” O filme que sucede essa estreia conta com uns parcos 75 minutos, tempo que passa pelo espetador num abrir e fechar de olhos. Trata-se de “Framing Agnes,” a expansão de uma curta homónima que o cineasta em tempos desenvolveu. Aqui, Joynt continua a sua missão de pesquisa, desvendando a História queer através do engenho cinematográfico. Nomeadamente, seu cinema incide na História de gente transgénera, parte da comunidade LGBTQ+ que ainda se vê muito marginalizada, até mesmo em espaços que se autonomeiam progressistas.

O foco específico de “Framing Agnes” centra-se no trabalho de Harold Garfinkel, estudos sobre identidade de género feitos na UCLA durante o pós-guerra. Para muitos, o exemplo principal desses afazeres, uma mulher anonimizada pelo nome fictício de Agnes, é pouco mais que uma anedota infame. Alegadamente, ela era uma senhora trans que mentiu e ludibriou as autoridades médicas de modo a garantir a cirurgia de confirmação de género. Contudo, essa mulher – sujeito A – não foi a única pessoa que Garfinkel entrevistou. Joynt descobriu isso com a ajuda da socióloga Kristen Schilt. Juntos, eles pilharam os arquivos do doutor, abrindo armários e gavetas há muito selados pela ferrugem.

Apesar de só restarem transcritos impessoais e anónimos, os testemunhos recolhidos – e inevitavelmente ignorados – por Finkel representam um precioso olhar sobre a vida de indivíduos trans no passado histórico. Inclusive se podem encontrar entrevistas a Afro-Americanos e adolescentes em transição, histórias raras nos media, até nos dias que correm. Face a esta informação, Joynt decide contornar a leitura seca como modo de apresentação. Ao invés, ele encena todo um exercício meta-cinematográfico consigo mesmo no centro da criação. Inspirado no legado do talk show na luta pelos direitos civis da comunidade LGBTQ+, o realizador reconfigurou as entrevistas de Finkel como espetáculos televisivos em estilo anacrónico.

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A preto-e-branco e vestido a rigor com figurinos de época, este mecanismo vê Joynt no papel de Garfinkel, transformado em personalidade do pequeno ecrã. Seus convidados são os sujeitos do estudo, incluindo Agnes e uma panóplia de outras figuras, todas elas interpretadas por atores trans ou não-binários que trazem ao projeto a sua própria perspetiva e história pessoal. São eles Zackary Drucker, Jen Richards, Silas Howard, Angelica Ross e Stephen Ira Cohen. Todos se assumem enquanto fabulosos intérpretes, mas é aqui que o maior problema de “Framing Agnes” se manifesta. Acontece que Joynt dá tanta ou mais importância ao trabalho do ator do que à componente histórica do trabalho.

Entrecortando entre a dramatização e a entrevista ‘por detrás das cenas,’ existe aqui uma clara tentativa de comparar o antes ao agora, ponderando o que mudou e o que continua igual. No entanto, o contributo de cada ator enquanto dupla-personalidade desequilibra essa observação. Por outras palavras, de um tributo aos pioneiros e vanguardistas, ao passado da comunidade trans, “Framing Agnes” converte-se num exercício de interpretação onde a componente histórica se obscurece por detrás de todo o aparato recreativo. O resultado é insular, sempre no precipício de alguma grande ideia, mas incapaz de transpor as limitações estabelecidas pelo engenho do talk show misturado com a entrevista do ator.

Por exemplo, a figura interpretada por Richards faz referência à rede de entreajuda que existia nas sombras, uma irmandade queer californiana. Ao invés de investigar esse fascinante facto, o filme prefere passar à frente e incursa por mais entrevistas desnecessárias. Presa-se a experimentação estrutural e a consistência formal de todas estas decisões. No entanto, “Framing Agnes” muito beneficiaria de maior liberdade para quebrar o molde e se deixar levar pelas histórias humanas contidas na sua tapeçaria de performance. No meio de tudo isto, são as palavras da historiadora Jules Gill-Peterson que mais valor trazem.

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Suas conclusões são complexas, expressas sem o filtro da interpretação teatral e cheias de compaixão. Acima de tudo, ela transmite uma ideia preciosa sobre os testemunhos que Garfinkel recolheu. Por muito que tentemos entender estas figuras privadas do passado, sua experiência nunca será totalmente clara para nós. Nunca as conheceremos na realidade. O máximo que podemos fazer é usar a sua vida como reflexão, o antes enquanto forma de melhor entender o presente e afigurar o futuro. Em jeito económico, a académica mostra uma maior compreensão sobre a importância da História do que a espetacularidade encenada por Joynt alguma vez transmite.

Framing Agnes, em análise

Movie title: Framing Agnes

Date published: 21 de September de 2022

Director(s): Chase Joynt

Actor(s): Zackary Drucker, Jen Richards, Silas Howard, Angelica Ross, Stephen Ira Cohen

Genre: Documentário, 2022, 75 min

  • Cláudio Alves - 55
55

CONCLUSÃO:

“Framing Agnes” é um documentário cheio de boas intenções e pesquisas fascinantes. Contudo, as escolhas de encenação colmatam a profundidade das suas considerações históricas. O resultado final é uma bela montra para o seu elenco de intérpretes, mas muito superficial.

O MELHOR: As intervenções de Jules Gill-Peterson.

O PIOR: O uso e abuso da entrevista ao ator. A curta duração do exercício.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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