"Girl Picture" | © Citizen Jane Productions

Queer Lisboa ’22 | Girl Picture, em análise

“Girl Picture,” também conhecido como “Tytöt tytöt tytöt,” foi um dos filmes-sensação no Festival de Sundance deste ano, onde ganhou o prémio da Audiência.  Entretanto, também já passou na Berlinale, em Cleveland, o Outfest em Los Angeles, FilmOut em San Diego e outros eventos que tais. A fita finlandesa de Alli Haapasalo tem sido aclamada pela crítica em todos estes festivais e até foi selecionada para representar o país na corrida para o Óscar de Melhor Filme Internacional. Escusado será dizer que este é um dos grandes títulos em competição no Queer Lisboa 26.

Pode o banal ser cinemático? Ou melhor, pode o quotidiano corriqueiro servir de base para o espetáculo projetado no grande ecrã? Audiências mais habituadas ao melodrama típico de Hollywood poderão responder na negativa, mas a História do meio está repleta de cineastas audazes que tornaram a vida comum em matéria-prima para a sétima arte. Pessoas como Chantal Akerman, por exemplo, conceberam verdadeiros tratados sobre a dramatização de vidas comuns, rituais domésticos presos num ciclo vicioso.

Por muito pouco especial que alguém possa ser, existe sempre lugar para a sua existência nos anais do cinema. Aliás, é no reflexo da realidade pacata que muitas vezes se encontram as películas mais comoventes, impactantes, imortais. Quando se considera a questão identitária, o representar da banalidade pode ser, só por si, um gesto de revelia contra um status quo passivamente perpetuado pela indústria. Muitos são os filmes sobre raparigas adolescentes, mas rara é a obra que considera essa demografia com franqueza e candura, que lhes confere uma autenticidade despida de sensacionalismos, objetificação ou atos reducionistas a resvalar no cliché.

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© Citizen Jane Productions

No caso de adolescentes queer e amizade feminina sem drama forçado, a raridade aumenta ainda mais. Sim, Hollywood já nos deu várias comédias sobre juventude em tempos de escola secundária, mas poucos são os projetos que sabem a real. Poucos são esses filmes que podem ser observados enquanto espelho, enquanto promotor do reconhecimento e da autorreflexão. Mencionamos tudo isto na esperança de celebrar “Girl Picture” sem negar a pequenez da sua ambição ou a maravilhosa banalidade do conto. Não há muito que se possa dizer especial nas vidas retratadas, mas essa condição em nada lhes nega o valor ou contraria quanto elas merecem ser vistas no cinema.

Nesse sentido, o trabalho de Alli Haapasalo é uma brisa de ar fresco, uma tentativa séria de ponderar jovens modernas num mundo moderno. Trata-se de capturar a verdade sem a retorcer em nome do entretenimento fácil. É assim “Girl Picture” um filme leve e quase ligeiro, um drama que flutua por 100 minutos em fluida moção e que, pouco a pouco, nos marca o espírito e quebra o coração. Fá-lo através de um dispositivo simples, despretensioso e, quiçá, mundano também. A narrativa em questão divide-se pela perspetiva de três raparigas que vivem naquele limiar complicado entre a meninice e a vida adulta.

Primeiro, temos Mimmi, uma jovem simpática com problemas em controlar as emoções, especialmente a raiva volátil que depressa explode em violência. Em aula de educação física, numa das primeiras cenas do filme, ela reage mal contra o gozo de colegas e agride outra rapariga com o pau do hóquei. O momento podia ficar-se por aqui, mas a câmara persiste e observa a culpa instantânea, a preocupação da jovem e o modo como, esvaziada a fúria, ela logo tenta ajudar sua vítima. Estes ciclos de impulsividade destrutiva repetem-se em modo vicioso, complicando-lhe a vida e as relações.

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No meio destes transtornos, ela tem uma companheira leal em Rönkkö, sua colega e amiga com quem trabalha num café de centro comercial. Ao contrário da outra rapariga, esta segunda protagonista é mais calma e ponderada, mais em controle das emoções, mas não por isso fria ou alienada. De facto, Rönkkö é a figura mais convencional de “Girl Picture,” quer seja pela heterossexualidade ou pela sua atitude amistosa. É também nela que se concentram os epítetos cómicos do filme, sempre expressos num jeito naturalista que inspira pena e nos faz querer entrar no ecrã e dar-lhe um abraço apertado.

Finalmente, temos Emma, a mais misteriosa figura do trio principal. Ela é uma patinadora artística na esfera competitiva que um dia se cruza com Mimmi, dando início a um romance que rapidamente vira codependência. O argumento de Ilona Ahti e Daniela Hakulinen segue estas três raparigas, quase mulheres, ao longo de três semanas no inverno Finlandês. A estrutura é simples, saltando em modo episódico para capturar sextas-feiras sucessivas e um sábado, nos quais as heroínas negoceiam intimidades e tentam encontrar felicidade no amor e no sexo.

Não há condescendência no tratamento das personagens, nem a sombra de idealizações indevidas. Todas as figuras são complexas, cheias de arestas vivas e facetas obscuras, segredos e apreensões que ajudam a fazê-las sentir como personalidades reais cristalizadas pelo olhar da câmara. Até questões mais caricatas, como a promiscuidade enquanto investigação do próprio corpo, são abordadas com seriedade pelos cineastas, olhadas de modo direto e respeitoso para com as adolescentes, seus dilemas e particularidades.

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© Citizen Jane Productions

Nunca nos rimos delas. No máximo, rimo-nos com elas, partilhando uma ocasional explosão de histeria face às absurdezas da vida. Estamos assim sempre na mesma onda que as personagens, sintonizados à sua subjetividade através de uma estratégia formal que prima pela elegância. A fotografia de Jarmo Kiuru merece muitos aplausos, mas é a direção de Haapasalo que realmente faz vingar a fita. Há grande virtuosismos audiovisuais na construção da fita, mas também sensibilidade e primor rítmico. Jamais se sente o momento morto e as ambivalências do filme são sempre moduladas, atingindo-nos como um murro no estômago e um beijo na testa em simultâneo.

O seu trabalho com as atrizes é especialmente sublime, conjugando tonalidades contrastantes numa pintura psicológica com tanto espaço para o trauma como para o sonho, esse riso inusitado, essa paixão fogosa. As três protagonistas são excelentes, mas há que fazer menção individual de Aamu Milonoff que, no papel de Mimmi, constrói um dos grandes desempenhos do ano, cheio de impulsos autodestrutivos e vulnerabilidades sentimentais combinados em jeito coerente e incrivelmente credível, quase visceral. Mesmo que “Girl Picture” não tivesse mais nenhuma qualidade, a franqueza dessa interpretação seria suficiente para recomendar o filme.

Girl Picture, em análise
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Movie title: Tytöt tytöt tytöt

Date published: 24 de September de 2022

Director(s): Alli Haapasalo

Actor(s): Aamu Milonoff, Eleonoora Kauhanen, Linnea Leino, Sonya Lindfors, Cécile Orblin, Oona Airola, Mikko Kauppila, Amos Brotherus, Bruno Baer, Nicky Laaguid, Oksana Lommi, Yasmin Najjar, Elias Westerberg

Genre: Drama, Romance, 2022, 100 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

Entre a sensibilidade e a franqueza, “Girl Picture” é um belíssimo triunfo de cinema sobre a juventude moderna. A realizadora Alli Haapasalo e sua equipa de argumentistas aqui se apresentam como uma espécie de resposta nórdica a Céline Sciamma, capturando o mesmo tenor de autenticidade feminina que tanto caracteriza os seus primeiros filmes. As atrizes também merecem especiais aplausos.

O MELHOR: Um guião ponderado e a prestação audaciosa de Aamu Milonoff.

O PIOR: Quanto Rönkkö parece perdida da narrativa principal à medida que o filme avança. Entendemos as razões para isso, mas é inegável que desequilibra o texto.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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