Queer Lisboa ’22 | What Ever Happened to Baby Jane?, em análise

Um confronto titânico entre duas divas divinas, “What Ever Happened to Baby Jane?” marca a única vez que Bette Davis e Joan Crawford coprotagonizaram um filme. Este clássico de Robert Aldrich ganhou o estatuto de produção lendária e escandalosa, tendo até originado um subgénero do terror com muito sucesso nos anos 60 e 70. Em 1961, o filme ainda conquistou seis nomeações para os Óscares, incluindo uma muito célebre indicação para Melhor Atriz. Dito isso, o único galardão que venceu foi para os seus figurinos. O filme, também conhecido como “Que Terá Acontecido a Baby Jane?,” foi um dos títulos programados no ciclo retrospetivo programado numa parceria entre a Cinemateca Portuguesa e o Queer Lisboa 26.

A rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford é uma dessas lendas da Velha Hollywood que todos conhecem, um rumor tornado mito estratosférico capaz de se fazer ouvir ainda nos dias de hoje. Tão grande é o escândalo que as histórias de bastidores e manipulações dos Óscares tendem a ofuscar o único filme que as duas atrizes fizeram juntas – “What Ever Happened to Baby Jane?” de Robert Aldrich. A minissérie que Ryan Murphy concebeu sobre essa suposta rivalidade não ajudou, enterrando a fita em ainda mais sensacionalismo, reinterpretações modernas de factos incertos e mentiras explodidas em telenovela autêntica.

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© Warner Bros.

Esta presente situação é trágica, pois obscurece aquele que é um clássico do terror dos anos 60, a obra de canibalismo fílmico que deu origem ao subgénero do hagsploitation e se tornou na ponte entre uma série de atrizes consagradas e as novas audiências de um mundo pós-Velha Hollywood. É inegável quanto o projeto nasceu de um impulso lúgubre, mirando o corpo envelhecido de antigas estrelas como fonte do terror e do escárnio, apelando ao grotesco misógino e outros preconceitos que tais. O cinema de outros tempos era regurgitado em moda paródica, retorcido até dele se extrair um novo entretenimento algures entre o elogio fúnebre e o circo de aberrações.

Contudo, deixar que este capítulo da História do Cinema seja reduzido a mero abuso sem valor é uma falta de respeito aos artistas, alguns dos quais aqui alcançaram píncaros profissionais, de celebridade e mérito criativo. É difícil abrir caminho entre o escândalo antigo e o juízo moderno, entre o rumor exagerado e a verdade ainda mais feia, qual desventura digna de uma fita sobre heróis perdidos na selva metafórica. Mas temos de desbravar a mata e mirar a realidade da produção, seus milagres ímpios, muitos dos quais vão além das atrizes suas estrelas. Para começar, quiçá fosse boa ideia fazer uma apresentação do enredo e das personagens.

Antes da ação principal, “What Ever Happened to Baby Jane?” abre em tempos de 1ª Guerra Mundial, quando o espetáculo de variedades dominava o entretenimento Americano e vaudeville estava no rubro. Nesse contexto, Baby Jane Hudson é uma estrela infantil, muito mimada pelo pai e caprichosa em atitude. A irmã, Blanche, tudo observa dos bastidores, sujeita à tirania da outra menina de quem a família depende financeiramente. Passados alguns anos, contudo, a estrela caiu do seu firmamento e um novo astro subiu aos céus. Blanche é a nova celebridade da família, tendo alcançado grande sucesso no cinema. Invejosa, Jane também tentou singrar no grande ecrã, mas revelou-se atriz de segunda categoria, sem fama nem potencial.

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O prólogo termina com o evento que viria a definir a vida co dependente das duas mulheres. Tratou-se de um terrível acidente automobilístico no qual Blanche perdeu a mobilidade das pernas, passando a depender de Jane, sua suposta atacante, para sobreviver. Com novo salto cronológico, lá a fita chega à sua narrativa principal, em 1962, quando a face da jovem estrela de cinema ilumina as televisões da vizinhança enquanto a mulher em si vive no andar de cima de uma mansão degradada, qual princesa fechada na torre do castelo. Jane é sua cuidadora, uma espécie de enfermeira relutante que tanto auxilia como cospe invetivas, provocações e insultos bafientos que cheiram a álcool barato.

Ao longo de alguns dias, observamos o deteriorar da relação, à medida que Jane tenta recuperar os sonhos de infância e Blanche se vê cada vez mais como prisioneira da outra mulher. Fazem-se anúncios no jornal e partidas de mau gosto com cadáveres de ratos e periquitos, convidam-se pianistas de visita e o homicídio abate-se sobre o domicílio. São duas horas de tortura física para a atriz na cadeira de rodas, enquanto a celebridade fracassada se deixa consumir pela loucura, pelo ódio tão direcionado para a irmã como para si mesma. Ou seja, temos aqui um festim melodramático, perfeito para qualquer atriz ambiciosa fincar os dentes e daí desencantar a performance de uma vida.

É isso mesmo que Bette Davis faz, mergulhando de cabeça nas vicissitudes mais hediondas do papel. Desfigurando-se com maquilhagem apalhaçada, perucas velhas e figurinos a fazer lembrar modas desatualizadas, a sua Baby Jane é uma relíquia do passado que se agarra ao presente como um parasita. A chave para o sucesso, contudo, está na conjugação do humor negro com a tragédia pura e dura, o temor e a pena. Numa cena em que se vê ao espelho, por exemplo, a expressão na cara de Davis conta toda uma ópera de autoflagelação antes de tudo exteriorizar com um daqueles gritos que fazem arrepiar a espinha. Numa carreira cheia de prestações extraordinárias, esta é quiçá a sua mais estrondosa criação. Pelo menos, em termos de bravura, nenhum outro trabalho se compara.

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© Warner Bros.

Crawford está presa a um papel menos vistoso, mas não por isso mais fácil de desempenhar. Se Davis explora as possibilidades anti-naturalistas do aparato cénico, a sua colega tem que exprimir um realismo base que sirva de sustentação para todo o excesso na dramaturgia. Inteiras sequências são pouco mais que a observação paciente do seu suplício, construídas através do esforço físico de alguém a lutar contra as limitações do próprio corpo. Tantos elogios se fazem a Davis que o trabalho de Joan Crawford acaba ofuscado, mas não o devíamos subvalorizar. Se “What Ever Happened to Baby Jane?” funciona enquanto filme, é porque existe um ying e yang em perfeito complemento, uma força puxando para o pesadelo sonhado e a outra para o inferno na terra.

Tudo isso considerado, também temos que esclarecer algo – este filme é extraordinário muito além do potencial enquanto exercício para atores. Aldrich e companhia construíram uma verdadeira carta de ódio contra Hollywood, usando todos os truques à disposição para mostrar como a indústria consome pessoas e as cospe quando já delas não consegue extrair mais lucro. A voracidade do sistema é o inimigo invisível da trama e seu verdadeiro vilão, algo irónico quando consideramos como a produção do filme foi, em si, motivada pela tentativa de capitalizar na realidade chocante do envelhecimento, do definhar de todos, até das estrelas mais luminosas. Graças a essas contradições, o poder da fita perdura, apoiando-se em alicerces primordiais, medos do intrínseco humano aqui traduzidas através do artifício estilhaçado de uma Hollywood perdida.

What Ever Happened to Baby Jane?, em análise

Movie title: What Ever Happened to Baby Jane?

Date published: 24 de September de 2022

Director(s): Robert Aldrich

Actor(s): Bette Davis, Joan Crawford, Victor Buono, Maidie Norman, Marjorie Bennett, Anna Lee, Barbara Merrill, Dave Willock, Anne Barton, Julie Allred, Gina Gillespie

Genre: Drama, Terror, Thriller, 1962, 134 min

  • Cláudio Alves - 90
90

CONCLUSÃO:

A Velha Hollywood morreu e seu cadáver putrefacto já cheira mal. Contudo, ainda dá para fazer uns cobres aos estúdios, erguendo a podridão defunta em jeito de espetáculo vil. Ressuscitam-se estrelas caídas em desgraça e faz-se do seu tormento um circo que tanto dá para rir como para chorar, suscitando alguns sustos pelo meio. “What Ever Happened to Baby Jane?” é um olhar cruel sobre um sistema desumano, apoiando-se numa visão distorcida da experiência universal, aqui espelhada por duas vedetas prontas a dar o corpo ao manifesto. Além da lenda e da rivalidade, Bette Davis e Joan Crawford eram duas atrizes sem igual e este filme serve como prova exemplar dos seus talentos.

O MELHOR: Davis e Crawford, unidas por uma só vez no grande ecrã, com resultados brilhantes e tenebrosos, como um diamante negro que cheira a podre, corta com o toque e sabe a veneno.

O PIOR: Pode parecer um pormenor sem importância, mas algumas das escolhas fotográficas irritam – aqueles zooms constantes dos anos 60 tiram lustre ao filme, dando-lhe a aparência de um telefilme.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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