"Magaluf Ghost Town" | © Boogaloo Films

Queer Lisboa ’22 | Magaluf Ghost Town, em análise

“Magaluf Ghost Town” considera a problemática do turismo numa comunidade espanhola, afirmando-se um documentário de difícil classificação do realizador Miguel Ángel Blanca. O filme teve a sua estreia mundial no festival Hot Docs no Canadá, mas já passou por meio mundo nesse circuito festivaleiro. Em Thessaloniki, por exemplo, a fita ganhou o Alexandre Doirado para Melhor Documentário Internacional. No Queer Lisboa 26, o filme não teve tanta sorte, saindo da competição de documentários sem nenhuma vitória para acrescentar ao espólio.

Entre o cinema vérité e uma encenação poética da vida mundana, “Magaluf Ghost Town” é um documentário com ares de docudrama. Miguel Ángel Blanca usa essa técnica quimérica para nos retratar a cidade de Magaluf na ilha de Maiorca em jeito melancólico a resvalar no fantasmagórico. Desde os anos 80 que a localidade é destino turístico e essa revela-se a força motriz das finanças coletivas em tempo presente. Por outras palavras, Magaluf depende dos turistas, mas isso não significa que a comunidade os aprecie além do papel que têm na economia local. De facto, considerando o comportamento desses estrangeiros de visita, talvez até haja mais ódio que amor.

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© Boogaloo Films

Todo o verão, Magaluf vê-se transformada em bacanal para gente de fora, turistas beligerantes que bebem até à inconsciência e se deixam levar pelos impulsos mais básicos. A promiscuidade é tanta que os ingleses apelidaram a cidade de ‘Shagaluf,’ nome amplamente justificado pelas imagens que Blanca captura. Vários são os tableaux de sexo público, ora filmados pelas câmaras do documentário ou vistas através do veículo indireto do telemóvel. São vídeos partilhados entre os nativos, ora com escárnio ou escândalo, mais tristeza por aquilo em que a sua terra natal se tornou e volta a tornar a cada ano que passa.

Num momento particularmente memorável, vemos o enquadramento de um casal na água, sua identidade anonimizada pela escuridão e posição dos corpos. Enquanto eles se deixam levar pelo desejo de rabo espetado e pernas para o ar, um grupo de outros banhistas noturnos veem o acontecimento e até aplaudem o espetáculo. Primeiro só vemos o ato íntimo, pelo que supomos ser algo secreto, mas quando a câmara se vira para o público, toda a cena ganha tonalidades mais lúridas. É neste circo que Magaluf se converte nesse ciclo vicioso do turismo em tempo de praia. São os turistas uma bênção e uma infestação, um milagre financeiro e um castigo dos deuses.

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É neste ambiente sórdido onde o paraíso de uns vira inferno dos outros, que Blanca vai ao encontro dos seus protagonistas. São eles pessoas que vivem o seu quotidiano corriqueiro em Magaluf e contrastam fortemente com o pesadelo circundante. Quiçá num gesto de simetria espelhada, o realizador escolheu figuras em faixas etárias distantes com experiências distintas. Maria Teresa é uma viúva de saúde frágil que arrisca a vida se não deixar de fumar. Quando a encontramos, ela enfrenta esse processo com alguma relutância, ao mesmo tempo que tenta travar amizade, quiçá um elo maternal com Cheickne, um imigrante africano seu novo arrendatário.

Ele deixou para trás mulher e filho, para quem envia dinheiro na esperança de lhes dar um futuro melhor. Esse sustento faz-se nas casas-de-banho de Magaluf, por onde Cheickne faz limpezas e tenta acalmar bêbados violentos cuspindo torrentes de vómito, confiscando a droga ocasional, uma carteira aqui e ali. Dito isso, Cheickne é figura mal esboçada, sendo sempre acessório à história de Maria Teresa e pouco mais. Outra figura periférica é Olga, uma agente imobiliária de origens eslavas que tenta vender propriedades em Magaluf e fazer subir o seu valor face a um influxo de investidores russos.

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Se esses imigrantes em lugares inversos da hierarquia económica são meio desprezados pela estrutura da fita, Ruben afirma-se uma figura tão ou mais central que Maria Teresa. Certamente marca mais a sua presença e quase reconfigura o filme à sua imagem. Dizemos isso porque nesse jovem se conjugam as ideias principais do documentário, desde a tensão entre a comunidade e o turismo como a vontade de fugir e, ao mesmo tempo, celebrar a especificidade de Magaluf. Jovem assumidamente gay com aspirações a ator, Ruben tenta fazer a vida como modelo, inebriando-se com sonhos de outra vida e rumores urbanos meio macabros. A certa altura, ele pondera o que seria ter autonomia, ser dono de si mesmo, como um turista perpétuo.

Quiçá “Magaluf Ghost Town” fosse um trabalho mais coerente se consolidasse o seu engenho em volta de Ruben. Na forma presente, a fita parece meio dispersa com resvalos em moralismos estranhos que não parecem fazer sentido dentro do millieu trabalhado. Quando a melancolia do rapaz subsume a fita é quando o projeto atinge seus maiores píncaros, qual procissão ou teatro da memória, qual reflexão lírica sobre aspirações inalcançáveis e uma perspetiva pesada sobre a miséria presente. Há espaço para o humor, pois claro, quer seja o espetáculo sexual na praia escura ou um exibicionismo de tatuagens a meio da rua. Contudo, é o tom hipnótico de um lamento cinematográfico que vinga e perdura na mente do espetador. Como a versão invertida de um anúncio turístico, “Magaluf Ghost Town” dá voz a uma comunidade presa entre a espada e a parede.

Magaluf Ghost Town, em análise
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Movie title: Magaluf Ghost Town

Date published: 25 de September de 2022

Director(s): Miguel Ángel Blanca

Genre: Documentário, 2021, 93 min

  • Cláudio Alves - 68
68

CONCLUSÃO:

Miguel Ángel Blanca tem bom olho para o dramatismo da banalidade, usando observações e cenas encenadas para construir um peculiar documentário com um pé na verdade e outro na poesia que existe além da verdade. Em jeito de não-ficção ficcionada com traços líricos, “Magaluf Ghost Town” considera as mágoas de uma comunidade dependente do turismo em Maiorca. Uma constelação de personagens reais, dão-nos diferentes pontos de acesso ao ecossistema social.

O MELHOR: A história de Ruben e suas passagens finais, um ritual antigo e uma obsessão com a morte quase sacrificial dos turistas bêbados e trabalhadores sazonais.

O PIOR: Os laivos de moralismo e a perspetiva dispersa. As cenas com Maria Teresa não vão a lado algum e até a adição de Olga e seus interlúdios comerciais nos parecem estar a mais. O filme não é comprido demais, mas sua receita podia ser mais apurada mesmo assim.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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