Queer Lisboa ’22 | Três Tigres Tristes, em análise

Gustavo Vinagre é nome conhecido para o cinéfilo português que frequente o circuito dos festivais. Entre o IndieLisboa e o Queer Lisboa, o realizador brasileiro tem feito carreira e ganho prémios na capital portuguesa, especialmente no paradigma documental. Este ano, Vinagre volta ao Queer com “Três Tigres Tristes,” obra originalmente estreada na Berlinale, onde conquistou o prestigiado prémio Teddy para melhor filme de temática LGBT+.

Em tempos de pandemia, muitos são os cineastas que tentam refletir a realidade – ou irrealidade – da situação no seu trabalho. Alguns sucedem mais que outros, ora por um apelo ao facto e visceralidade, ou por um devaneio pelo sonho. Gustavo Vinagre, que já tem uns quantos documentários aclamados no currículo, segue uma abordagem algures entre as duas estratégias. Com traços de Rohmer e uma sensibilidade queer, resvalos na fantasia digna de drag show e um vírus imaginário, “Três Tigres Tristes” representa um retrato de juventude moderna em estado de crise sem cair no desespero da premissa. De facto, é uma fita bastante engraçada.

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© Carneiro Verde Filmes

A ação decorre em São Paulo numa contemporaneidade alternativa, quiçá um amanhã distópico que não difere muito do hoje. Uma doença contagiosa tem assolado a nação, talvez até o globo, atacando as faculdades cerebrais dos afetados. Ao invés de se manifestar em tosse e outras maladias respiratórias, este COVID do outro lado do espelho, marca a presença pelo esquecimento. Gente doente deixa de se conseguir lembrar do evento recente, gradualmente entrando num estado de amnésia casual, um Alzheimer precoce com vicissitudes metafóricas. Afinal, uma dificuldade em ponderar o passado não é problema fictício no Brasil dos nossos dias.

Dimensões sociopolíticas mantêm-se abstratas, sendo articuladas através da representação das personagens, figuras que vivem à sombra do mainstream em jeito de marginalização. Pedro é um trabalhador do sexo, exibindo o corpo através da plataforma online para ganhar dinheiro e fazer a vida. Além do show virtual, ele também faz visitas ao domicílio, como acontece quando vai a casa de Omar, um idoso com quem o jovem vai alternando entre o entretenimento carnal e os cuidados de ama, enfermeira talvez. Quando o conhecemos ele está diante do computador, vestido com jockstrap e arnês brancos, uma figura de erotismo angelical que em muito contrasta com a sua colega de casa.

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Ela é Isabella, mulher trans e estudante stressada que pondera o fado dos próximos exames. Apoiando-se na superstição de uma caneta sortuda prestes a rebentar e estudos compulsivos na véspera do teste, ela é uma pilha de nervos. Não que isso se expresse em modos demasiado declarados. No máximo, há uma pátina de fatalismo estudantil sobre a figura de Isabella, uma secura meio aborrecida para com a espetacularidade sensualista do seu amigo. Até agora, o par tem conseguido evitar esse vírus do oblívio e prepara-se para acolher outra alma perdida – Jonata, que se diz sobrinho de Pedro apesar da falta de semelhança física.

Afro-brasileiro seropositivo, ele viaja para São Paulo em busca de nova vida e novas oportunidades, um lugar onde pode ser ele mesmo. Ou está lá só para uma visita à clínica e algum tempo para espairecer longe de julgamento alheio. Para os três, a cidade é uma espécie de santuário, mas, para Jonata, em particular, há tenor libertador no ambiente urbano onde influencers oferecem maquilhagem na rua e praças públicas são lugar de engate. Neste ambiente, até a qualidade naturalista, as observações sociais se podem transformar e encontrar identidades fora dos padrões usuais. Por outras palavras, no oásis queer, o realismo mágico desabrocha.

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© Carneiro Verde Filmes

Num dos momentos mais divertidos do filme, Julia Katharine faz um cameo especial e mostra a magia total destes “Três Tigres Tristes.” A estrela do cinema passado de Vinagre é a mãe que passeia com o filho pelas ruas, quando o menino se deixa cativar por uma pintura que Pedro deixou na rua. Vendo o desenho de dois homens a beijar-se, a criança vomita purpurinas e, num abrir e fechar de olhos, vira bixa vadia em cor-de-rosa e fabuloso estilo. Este episódio paródico, onde os medos de gente conservadora se tornam em brincadeira queer, mostra-nos os epítetos do humor e o modo como o realismo mágico dele se desenvolve.

Outras passagens, mais tardias e mais complicadas, revelam outra vertente dos mesmos mecanismos. Acontece que esse desenho de Pedro era uma espécie de homenagem pós-morte, mostrando-o a ele e seu namorado antigo em beijo desnudo. O outro homem suicidou-se depois da família definhar pelo vírus, sua perda reverberando pela felicidade idílica dessa fita fabulosa. Chegados os atos finais, quando a loucura triunfa e qualquer noção de realidade material esvanece, até os fantasmas reganham a vida perdida e a folia assume melancolias estranhas. Neste Carnaval choroso, é difícil encontrar conclusões ou discursos coerentes, mas a criatividade do exercício serve de justificação para o mesmo. O absurdismo abre caminho para a paz, a arte um veículo que torna a dor do real em algo tolerável.

Três Tigres Tristes, em análise
tres tigres tristes critica queer lisboa

Movie title: Três Tigres Tristes

Date published: 29 de September de 2022

Director(s): Gustavo Vinagre

Actor(s): Pedro Ribeiro, Isabella Pereira, Jonata Vieira, Filipe Rossato, Gilda Nomacce, Caetano Gotardo, Carlos Escher, Nilcéia Vicente, Julia Katharine, David Lobo, Everaldo Pontes, Hypnos Billy Bills, Ivana Wonder

Genre: Aventura, Comédia, Musical, 2022, 86 min

  • Cláudio Alves - 70
70

CONCLUSÃO:

Uma fantasia de pandemia com um belíssimo tom de liberação queer, “Três Tigres Tristes” vinga pela brincadeira e inesperados traços melancólicos. Gustavo Vinagre mostra, mais uma vez, que é um dos realizadores brasileiros mais fascinantes do momento. Mal podemos esperar para ver o que faz a seguir.

O MELHOR: O episódio do poster e da transformação. Além disso, é uma maravilha ver Julia Katharine novamente, depois de “Filme Desastre” e “Lembro Mais os Corvos.”

O PIOR: Quiçá um fio narrativo mais forte melhor sustentasse o sonho. É difícil dizer, mas falta um fio condutor, um cordão umbilical que faça dos muitos organismos narrativos um só filme funcional.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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