Ralph vs Internet

Ralph vs Internet, em análise

Ralph vs Internet é um regresso da Disney às suas nobres raízes onde os personagens e as suas relações estavam à frente do espetáculo visual.

“Eu não preciso de uma medalha para provar que sou um bom tipo. Porque se aquela miúda gosta de mim, eu não posso ser assim tão mau”, diz Ralph na cena final de “Força Ralph”, enquanto é atirado do telhado do seu videojogo e vislumbra a jovem Vanellope a correr no Sugar Rush. Naquele momento, Ralph encontra a validação e afeição que tanto procurava, negando a sua natureza intrinsecamente vilanesca e aprendendo uma das mais cristalinas lições que a Disney nos apresentou nos últimos anos: a certeza de que podemos mudar aquilo que somos através do valioso contacto humano. Para Ralph, o facto de uma miúda como Vanellope ter estabelecido uma relação com ele é, per si, suficiente para dar por encerrada essa busca incessante pela sua autoestima perdida.

Trata-se de um ensinamento por certo insofismável e elementar, mas que Rich Moore e Phil Johnston (argumentista do primeiro filme) escrutinam e desconstroem, de forma deveras surpreendente, na sequela “Ralph vs Internet”. Senão vejamos: Ralph acaba por definir todo o seu ‘eu’ no relacionamento que estabelece com Vanellope, instituindo um nexo de causalidade entre a sua validação pessoal e essa amizade, fundando as suas ambições de vida na adoração que Vanellope tem por ele.

“Ralph vs Internet” é sobre tudo isso. Sobre a procura contínua por aprovação, sobre o facto de nos definirmos por intermédio da admiração que os outros têm sobre nós, e também sobre a amizade pura, verdadeira, inflamada que não pode ser, de forma alguma, tóxica ou primitiva. Por tudo isto, Rich Moore, Phil Johnston e os restantes argumentistas não poderiam ter escolhido um melhor cenário do que a própria Internet – ela que é maliciosa, indignada e cruel.

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Nesta admirável sequela, Ralph e Vanellope aventuram-se pelos meandros da web com o intuito de salvar o videojogo Sugar Rush do fim anunciado. Para isso, precisam de encontrar um novo volante para videojogo vintage de Vanellope, após o antigo volante se ter quebrado. No entanto, este é apenas um pueril ponto de partida para algo definitivamente grandioso e criativamente inovador no campo da animação digital: o ato de personificar a Internet num espaço tridimensional. Spam, anúncios, bloqueadores de anúncios, sites, barras de pesquisa, vírus, plataformas de streaming, hiperligações, algoritmos, jogos, trolls, redes sociais. “Ralph vs Internet” recria todos esses elementos, construindo a sua narrativa em redor destes ingredientes fundamentalmente abstratos com os quais lidamos no quotidiano. Depois, faz questão de expor os defeitos e virtudes do mundo online, de satirizar o modelo de negócio do Youtube, de exultar a facilidade de acesso à informação e sobretudo de rejeitar o ódio perpetrado nas redes sociais.

Ralph vs Internet
Princesas Disney em Ralph vs Internet

Tratando-se da Internet, não há como fugir também a um rigoroso product placement que, apesar de impregnado, surge com contexto. É o caso do site “Oh My Disney” onde, a certa altura, Vanellope entra e a Disney encontra a fórmula mágica para se publicitar de forma gratuita. A entrada de Vanellope no seu próprio universo (qual “Inception”), é uma oportunidade única para o espectador se maravilhar com a minuciosidade da animação digital. Os personagens por metro quadrado são tantos que é difícil absorver todos os seus pormenores com apenas um visionamento. Ainda nesse arco narrativo, Vanellope encontra as emancipadas e satíricas princesas Disney. Princesas conscientes da sua natureza de jovens indefesas que precisaram de ser salvas por um príncipe encantado, mas também mulheres de uma era pós #metoo.

São porventura as sequências mais divertidas de todo o filme, mas são também cenas definidoras do carácter de Vanellope e daquilo que esta está disposta a fazer para lutar pelos seus sonhos e sair da sua zona de conforto. Ao contrário de Ralph, Vanellope é capaz de valorizar a amizade que estabeleceu com o ex-vilão e, cumulativamente, saber que essa amizade não é suficiente para a definir como ser humano. Vanellope quer mais e Ralph julgava ser o suficiente. Aqui reside mais uma mensagem profunda e cristalina sobre o crescimento na vida: o direito que não temos de ajustar os outros aos nossos vazios.

Ralph Vs Internet
Ralph Vs Internet

Nas relações humanas, todos somos heróis e vilões, por vezes simultaneamente. Nessa perspetiva, é de admirar que “Ralph vs Internet” se exclua de personagens de motivações nocivas. No entanto, o último ato acaba por evidenciar um meta-vilão que o filme parecia não ter. Embora se compreenda essa opção estilística, há uma aura hollywoodesca explosiva que paira sobre o filme e que o aproxima, por momentos, a um qualquer blockbuster de ação que o filme não é. É a sequência mais frágil de toda esta sequela que, mesmo assim, é servida de um dos remates mais amargurantes e inspiradores do ano cinematográfico.

Ralph vs Internet, em análise
Ralph Vs Internet

Movie title: Ralph vs Internet

Date published: 2018-11-26

Director(s): Rich Moore, Phil Johnston

Actor(s): Sarah Silverman, John C. Reilly, Jack McBrayer , Taraji P. Henson, Gal Gadot

Genre: Animação, Aventura, 2018, 135 min

  • Daniel Rodrigues - 77
  • Luís Telles do Amaral - 62
  • Inês Serra - 90
  • Filipa Machado - 80
  • Marta Kong Nunes - 78
  • Cláudio Alves - 65
  • Miguel Pontares - 64
  • Virgílio Jesus - 60
  • Catarina d'Oliveira - 73
72

CONCLUSÃO

Ralph vs Internet é uma criativa e emocionante sequela que funciona como sátira dos nossos tempos onde a Internet e as relações humanas tentam coabitar no mesmo espaço. Um saudoso regresso da Disney às suas raízes.

O MELHOR: O regresso da Disney às narrativas com coração onde as relações humanas são colocadas no primeiro plano. A sátira à Internet, a aparição das princesas Disney e os inúmeros momentos de rir até às lágrimas.

O PIOR: O último ato 'blockbusterizado'.

DR

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Daniel E.S.Rodrigues

Sonho como se estivesse num filme de Wes Anderson, mas na verdade vivo no universo neurótico de Woody Allen. Sou obcecado pela temporada de prémios, e gostaria de ter seguido a carreira de cartomante para poder acertar em todas as previsões dos Óscares, Globos de Ouro (da SIC), Razzies, Troféus TV7 Dias e Corpo do Ano Men's Health. Mas, nesse universo neurótico e imperfeito em que me insiro, acabei por me tornar engenheiro. Sigam-me no Instagram para mais bitaites sobre Cinema, Música, Fotografia e outras coisas desinteressantes.

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