Ran - Os Senhores da Guerra | © Midas Filmes

Ran – Os Senhores da Guerra, em análise

Ran – Os Senhores da Guerra”, originalmente estreado em 1985, é o mais épico dos épicos, assim como o mais cruel e belo, o mais impiedoso e desesperante. É também a última grande obra-prima de Akira Kurosawa e seu filme testamento pintado com os tons vivos do sangue, do fogo, do céu e da terra revirada de um campo de batalha tornado um túmulo gigante. Este monumento cinematográfico volta agora aos cinemas, numa nova versão restaurada.

Mōri Motonari foi um poderoso senhor feudal do Japão do século XVI. Seu domínio bélico era praticamente imparável e as suas ações violentas levaram à glória sangrenta do seu clã. Hoje em dia, contudo, este senhor da guerra é principalmente lembrado como o protagonista de um conto moral. Aí, o conquistador impiedoso dirige-se aos três filhos, seus herdeiros, e pede-lhes que quebrem uma flecha cada um. Os três fazem-no sem dificuldade e, então, o patriarca pega em três novas flechas e ata-as. Os filhos não as conseguem partir e, tal como as flechas, eles são mais fortes unidos, aliados, do que enquanto indivíduos.

Os primeiros vinte minutos de “Ran – Os Senhores da Guerra” dramatizam este conto de modo bastante fiel. Assim é, até que um dos filhos pega no molhe das flechas, empurra-as contra o joelho e parte-as. A última grande obra-prima de Akira Kurosawa não é um conto moral com um final risonho e uma lição a dar à audiência. Trata-se, pelo contrário, de uma pintura viva do apocalipse, um retrato de um mundo onde a vida não tem significado, onde o homem é naturalmente cruel e onde a Natureza não é um cenário belo, mas uma presença castigadora. O protagonista do filme não é Mōri Motonari, mas também não é o Rei Lear de Shakespeare, como muitos dizem enquanto apontam as claras semelhanças entre o filme e o trabalho do Bardo.

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Tal como “Rei Lear”, essa tragédia sobre um reino levado à destruição quando é dividido por três irmãs, “Ran” é a história de um velho tolo que sofre a discórdia dos filhos a lutar pela terra conquistada do pai. Hidetora Ichimonji é o patriarca do clã em volta do qual a narrativa se desenvolve e seus crimes são bem conhecidos. Até ele reconhece que merece ódio e espanta-se quando as suas vítimas não o olham com o rancor que antecipa. Ao longo do filme, montes verdejantes dão lugar a campos de batalha e terra queimada, palácios passam a fortalezas há muito arruinadas e deixadas à mercê de uma Natureza sem piedade. Tal transformação é também a obra deste guerreiro, ele que cultivou o inferno ao lavrar a terra com espada e ao regá-la com sangue.

É possível olhar para este épico e obter uma história mais simpatética para com o velho Hidetora, mas Kurosawa e sua câmara não parecem sustentar tal análise. Kaede, a esposa de um dos filhos do conquistador, é certamente uma antagonista e sua sede por vingança mergulha todo o mundo que o filme vê num apocalipse sem ordem, sem justiça e sem razão. Tudo isso é verdade, mas o texto que o cineasta japonês concebeu, com Masato Ide e Hideo Oguni, está sempre pronto a ilustrar como essa inglória fusão do Edmundo de “Rei Lear” e a voracidade de Lady Macbeth não é mais que um monstro criado pela mão de Hidetora. Na velhice, Kurosawa parece ter perdido a esperança que outrora as suas obras podiam refletir sobre a Humanidade.

“Ran” é um filme sem esperança, quase niilista, que, mesmo assim, encontra beleza no horror. Akira Kurosawa passou quase uma década a preparar-se para as filmagens desta sua magnum opus e, como estava a perder a visão, fez storyboards para todo o projeto na forma de pinturas coloridas. Talvez por isso, “Ran” é um dos filmes mais visualmente sofisticados de sempre, onde até o caos e a carnificina são capazes de seduzir o olhar do espectador. O seu uso de cor é particularmente extraordinário e dá ordem ao caos e à violência. Quer sejam delicadas composições de nobres em reunião ou caóticas tempestades de pinceladas vermelhas e névoa escura, este é um festim para os olhos. Um festim que sabe a cinzas e a sangue, a fogo e carne, algo metálico. Sabe a morte e é o inferno, mas os nossos olhos veem o paraíso. É um veneno, mas é ambrósia que a língua saboreia.

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O espaço e a cor, a composição estudada, concebem tais paradoxos. O movimento e o gesto também fazem a sua parte, especialmente no que diz respeito ao trabalho de ator, onde cada pose e toque é como uma nota numa sinfonia. Depois das suas experiências a casar Teatro Nô com Shakespeare em “Trono de Sangue”, Kurosawa voltou a dirigir os seus atores como se estivessem num palco nipónico, onde a economia de expressão, tanto física como vocal, é imperativa, onde o naturalismo é evitado em nome de algo que é mais real que a realidade. O resultado de tais decisões é um filme em que o elenco trabalha num registo entre o modernismo e o tradicional, conferindo nuances cinematográficas às estilizações do Nô e dando a ideia que estamos a observar uma lenda ancestral ou um grande evento cósmico mais do que um mero drama humano.

No que diz respeito a feitos individuais, há que se celebrar o trabalho de Tatsuya Nakadai no papel principal. Mesmo coberto por maquilhagem deliberadamente exagerada e com longas passagens num estado catatónico, este veterano do cinema de Kurosawa impressiona. Contudo, é Mieko Harada como Kaede quem realmente se assume como a estrela do filme. Na verdade, esta atriz que tantas vezes parece um espectro ou uma estátua imóvel, dá aqui uma das melhores prestações no cinema deste realizador. Ela destila ódio e dá-lhe forma humana. Nada podia ser mais apropriado para este hino do caos, esta canção do apocalipse acompanhada pela música ominosa de Tôru Takemitsu.

Toda esta beleza, todo este desespero, trazem-nos à imagem final de “Ran”, o seu derradeiro golpe de génio e sua mais cruel façanha. Aí vemos Tsurumaru, um cego e uma das muitas vítimas das conquistas de Hidetora, junto a um precipício que não consegue ver. Na sua confusão, ele desequilibra-se e deixa cair a pintura de Buda que tinha com ele, uma proteção espiritual perdida para as profundezas. A imagem corta, a câmara recua e temos um mundo em sombras, a silhueta de um cataclisma, por onde um homem cego cambaleia, abandonado por tudo e todos, pronto a cair. Este é um mundo castigado pelos deuses, ou talvez um mundo que Deus abandonou e agora só observa em silêncio. Só há desespero e o vazio, o vazio de um precipício e o vazio de um mundo sem significado, sem sentido. O vazio no olhar de um homem cego que perdeu tudo, prestes a morrer.

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Esse homem desesperado é Tsurumaru e é Kurosawa. Mas Kurosawa também é Hidetora, esse velho moribundo que construiu um reino através de contos sangrentos. Entenda-se que “Ran” não foi o filme final do realizador, mas é quase como se fosse e as figuras desgraçadas da sua história representam tristes reflexos do artista a confrontar o fim. “Ran” é um testamento cinematográfico, o último capítulo na história de Kurosawa, o resto foram epílogos. Gloriosos epílogos, mas epílogos mesmo assim. Grande parte dos colaboradores e companheiros de Kurosawa ou tinham morrido já ou morreram durante a produção de “Ran”, ele estava a perder a visão e dependia do trabalho de assistentes e, em solitude, era atormentado pelo medo da guerra nuclear. Faz sentido que a despedida do mestre seja com um conto do fim do mundo, portanto. “Ran – Os Senhores da Guerra” é o pesadelo mais belo da História do Cinema, é a guerra tornada pintura e é um adeus cruel de um mestre que, mesmo quando via a Morte a aproximar-se, conseguia conceber alguma da Arte mais bela alguma vez concebida pela mão humana.

Ran - Os Senhores da Guerra, em análise
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Movie title: Ran

Date published: 2019-07-20

Director(s): Akira Kurosawa

Actor(s): Tatsuya Nakadai, Mieko Harada, Pîtâ, Akira Terao, Jinpachi Nezu, Daisuke Ryû, Yoshiko Miyazaki, Hisashi Igawa, Masayuki Yui, Kenji Kodama

Genre: Drama, Ação, Guerra, 1985, 162 min

  • Cláudio Alves - 100
  • Rui Ribeiro - 100
100

CONCLUSÃO:

Cheio de figuras que anseiam a morte e a punição, monstros e vítimas num mundo cruel que não se interessa pela sua dor, “Ran – Os Senhores da Guerra” é uma assustadora obra-prima. Akira Kurosawa jamais realizou um filme mais belo, contudo, desde as composições geométricas, passando por batalhas com centenas de figurantes, até ao uso de cores saturadas que dão ao filme o aspeto de uma pintura viva. É uma pintura viva sobre a morte, a morte do artista, do conquistador, do cego e do mundo.

O MELHOR: A imagem final é a coda mais lacerante e majestosa que poderia haver, tanto para este filme, como para toda a carreira de Akira Kurosawa.

O PIOR: Por muito genial que “Ran” possa ser, a sua perfeição não é de fácil assimilação ou particularmente acessível. Trata-se de um épico com uma duração épica que muitos vai aborrecer. A violência é extrema, o comportamento humano é estranho e estilizado, os temas são cosmicamente deprimentes. Ou seja, não é um filme para todos, mas é perfeito.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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