"Relic" | © MotelX

MotelX ’20 | Relic, em análise

Não há filme mais perturbador na seleção do 14º MOTELx que “Relic”. Esta obra confronta a mortalidade humana com franqueza, mas também muita vontade de assustar o espetador e lhe dar uns valentes pesadelos.

Todos vamos morrer. O fim é uma condição essencial da vida ou seria somente existência. Somos pessoas, não montanhas. No entanto, a inevitabilidade da Morte não a torna em algo menos trágico. Quando o horror é prematuro, choramos as chances perdidas de uma vida cortada demasiado cedo. Só que a alternativa não é necessariamente mais benigna ou despida de dor. A velhice e a passagem do tempo podem ser tão cruéis como o acidente que ceifa a vida ao jovem.

O tempo passa, sem misericórdia e sem perdão, escoriando as fundações da nossa carne, da mente, do espírito também. Para aqueles a quem a demência visita, então o processo é ainda mais vil. Pouco a pouco, a essência de alguém escorre para fora do seu ser, deixando uma carcaça que vive sem viver. As memórias voam, as relações queimam, a identidade desintegra-se. Isso não é só mau para quem passa pelo processo, mas também para quem vê de fora, impotente para contrariar o tempo.

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© MotelX

A companhia é crucial para manter a sanidade, tanto daqueles que se esvanecem como daquelas que veem esvanecer. Todos vamos acabar assim ou de outro modo semelhante, todos vamos ter fim. Dessa dor conjunta nasce uma solidariedade que ajuda o humano a manter-se firme enquanto é extravasado pela dor da perda ou de um corpo que morre. É claro que o oposto também pode ocorrer. Quando confrontados com a mortalidade do outrem, queremos fugir, queremos resguardar-nos do conhecimento que, um dia, aquele seremos nós.

Por muito que o cinema de terror tente, jamais haverá algo mais assustador que a realidade nua e crua. Quer sejam os genocídios da História ou a crueldade casual da mortalidade terrena, os fantasmas do ecrã nunca superarão os calafrios que o nosso mundo tem para oferecer. Por isso mesmo, algum do melhor cinema de terror é aquele que se propõe a fundir o medo real e o medo ficcionado, extraindo seus mecanismos assombrosos não da fantasia, mas da concreta existência do ser humano e todas suas dores.

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Na sua primeira longa-metragem, a cineasta nipo-australiana Natalie Erika James faz isso mesmo. Contando a história de três gerações de uma família, ela delineia um pesadelo sobre o advento da Morte e todo o degredo que pressagia e preludia a conclusão da vida. Uma mulher velha desapareceu, sua filha e neta procuram-na. Quando a encontram, descobrem uma senhora frágil e uma casa exangue de humanidade, coberta de bolor e do pó de sonhos perdidos, ressentimentos antigos e mágoas mal lembradas.

A casa é a continuação de seu dono e, quando ela está a definhar, também o espaço doméstico definha. Gradualmente, a neta vai-se aproximando da avó com piedade, enquanto a filha vê a mãe com desconfiança. Ambas as filhas o fazem, danças repetidas de geração em geração como uma coreografia gravada no código genético. Presas em desconfortável proximidade, as três mulheres vivem o desintegrar de uma pessoa, quer estejam em palco a desempenhar a calamidade ou na plateia a vê-la de perto. É um espetáculo lúgubre, qualquer que seja a posição que alguém desempenha na sua récita.

relic critica motelx
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Muitos serão aqueles que vão questionar a classificação de “Relic” como um filme de terror. Trata-se de um drama sobre a mortalidade, mas o exagero a que leva a alegoria, o poema e o choque caminha na direção do pesadelo e rejeita o preceito realista. No fim, estamos a ver um reflexo onírico do processo universal de morrer, suas dores tornadas em evento sobrenatural. É horrendo e dá-nos vómitos. Também nos traz lágrimas aos olhos. Qual foi a última vez que um filme de terror te fez chorar?

Relic, em análise
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Movie title: Relic

Date published: 14 de September de 2020

Director(s): Natalie Erika James

Actor(s): Bella Heathcote, Emily Mortimer, Robyn Nevin, Jeremy Stanford, Chris Bunton, Christina O'Neill

Genre: Drama, Mistério, Terror, 2020, 89 min

  • Cláudio Alves - 85
85

CONCLUSÃO:

A carne apodrece, pele esfarrapa e a mente esvanece como tinta num copo de água. O fim da vida é transformado num quadro de terror pela mão da cineasta Natalie Erika James. Considerando que esta formidável obra é a sua primeira longa-metragem, não podemos esperar para ver o que ela fará a seguir.

O MELHOR: As performances sublimes das três atrizes principais e a cenografia bolorenta da casa. Depois de ver o filme sentimos precisar de um duche para limpar a sujidade da alma. Talvez também precisemos de um psicólogo pois isto é um filme que vem com o intuito de traumatizar o espetador.

O PIOR: De novo, voltamos ao mesmo cliché do terror sensacionalista que transforma o corpo envelhecido em veículo do medo. Admiramos a coragem de Erika James, mas quando chegou a altura de entrelaçar o terror e o drama psicológico, algumas linhas escaparam à cineasta. O tricotado final está meio desequilibrado.

CA

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Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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