Retrospetiva Jane Campion | Retrato de Uma Senhora (1996)

Como uma adaptação literária, Retrato de Uma Senhora de Jane Campion é um fracasso, mas como uma exploração crítica de vitimização feminina, é uma inestimável experiência cinematográfica.

 


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retrato de uma senhora jane campion

Com o ecrã ainda negro, a voz de uma jovem australiana descreve-nos a sensação de ser beijada, a trepidação que precede o toque de lábios e o fulgor dessa delicada intimidade. Outras vozes semelhantes  juntam-se a ela e então, passados alguns instantes, as primeiras imagens do filme enchem o ecrã com mulheres pós-adolescentes num jardim algures nos anos 90 do século passado. Alternando entre preto-e-branco e alguns rasgos de cor, os corpos femininos dançam ao som da música pseudo céltica e olham diretamente para a câmara. Esta inebriante cena de etérea feminilidade moderna termina com um corte aprubto. Dos anos 90 em escala de cinzentos passamos para um closeup claustrofóbico de Nicole Kidman no papel de Isabel Archer. Ao contrário das mulheres que a antecederam ela não olha para a câmara e o mundo em seu redor explode com os calorosos verdes de um jardim sob o sol estival.

Não querendo cair em exageros, é difícil pensar noutra adaptação literária de prestígio com um começo tão esmagadoramente corajoso como este. Retrato de Uma Senhora é um filme de época baseado no livro de Henry James, uma das obras mais importantes da literatura americana oitocentista. Apesar disso, Jane Campion deixa logo bem claro, com esta cena de abertura, que não está interessada em fazer o que tantos outros cineastas mais cobardes e prosaicos fariam no seu lugar. Ao invés de passivamente traduzir a prosa de Miller para o grande ecrã, a cineasta está a propor uma leitura crítica do seu trabalho. Isto irritou muitos cinéfilos e bibliófilos que depressa atacaram o filme com uma das críticas mais intelectualmente preguiçosas imagináveis – “não é fiel ao livro!” – mas nós não levantaremos tais objeções para com a obra em análise. Pelo contrário, celebramos a transição das mulheres modernas para Isabel como um dos maiores golpes de génio de Campion. Na mesma medida em que a independência da protagonista a marca como uma antecessora das jovens contemporâneas, o seu registo cromático e olhar afastado da câmara sugerem que ela é simplesmente uma efémera ficção do passado, pronta a ser examinada pelos olhares diretos e críticos destas jovens e, por consequência, de Campion e seu público.

retrato de uma senhora jane campion

A seguir a tal corte, a cineasta neozelandesa não demora muito a mostrar-nos outro dos conceitos chave da sua adaptação. Uma bota de homem aparece entre a folhagem e o pânico de Isabel ganha uma qualidade silenciosamente febril, assemelhando-a à ideia de um animal encurralado. Essa condição quase primitiva torna-se na principal característica de Isabel na apresentação de Campion. É certo que as protagonistas da cineasta estão sempre cientes de como o mundo as vê, mas Isabel leva isso a um extremo diabólico apesar da sua altivez e relativa independência. Um simples toque ou olhar podem levá-la ao abismo do pânico e, com a tez alva de uma boneca de porcelana, Kidman parece estar sempre prestes a despedaçar-se, vibrando com a ominosa possibilidade da sua própria aniquilação.

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Apesar de tais epítetos de visceralidade emocional, há que se considerar como Campion mantém sempre a sua distância deste animal enjaulado, não ousando perscrutar a intimidade da sua mente como fez a tantas outras das suas heroínas. Nesse sentido, a realizadora vai diretamente contra o livro de Henry James, onde o leitor está sempre a explorar o mundo através da psique da protagonista. Efetivamente, esta diferença na caracterização e apresentação da figura central muda por completo a narrativa. Uma das passagens que melhor mostra este contraste é a cena em que Isabel é seduzida pelo manipulador Gilbert Osmond, seu futuro marido e abusador. Enquanto Miller traça o momento como o culminar da ingenuidade idealista desta jovem americana a ser contaminada pelo erotismo de uma Europa corrupta, Campion pinta a cena como um ato de masoquismo feminino. Há uma qualidade diabólica, quase satânica, e até o beijo que sela o acordo faustiano entre a virgem indefesa e o Mefistófeles europeu é violento, grotesco na sua sensualidade e tão tóxico como a dentada de uma víbora.

retrato de uma senhora jane campion

Isabel quer amor, quer ser livre, quer felicidade, paixão, sofisticação e independência, mas, na visão de Campion, também parece nutrir o desejo inconsciente por um fruto mais perigoso. É certo que são as noções patriarcais sobre o papel de uma mulher na sociedade que a vão subjugando a uma série de desgraças, mas seria erróneo ignorar quão esta Isabel se torna numa agente do seu próprio sofrimento. Recordando as mulheres a quem Margit Carstensen deu vida nos filmes de Fassbinder, esta Isabel tanto luta como deliberadamente se coloca nas mãos dos seus opressores. Ela tem fantasias em que é tocada por admiradores enamorados, mas apenas consente aos avanços de quem a certamente vai magoar. Na verdade, o seu único ato de intimidade pacífica e consentida ocorre na companhia de um homem tão enfermo e moribundo que qualquer progresso amoroso apenas vai causar mais dor à nossa “heroína”. Ela embebeda-se com o terror erótico da intimidade, não só a um nível sexual, mas também no que se refere á banalidade de um toque casual, ao poder destrutivo de uma agressão ou o sussurrar de um segredo.

No seu livro, James usou o sofrimento da sua protagonista como um meio para garantir e modular a simpatia do leitor. Campion, como tantas outras estudiosas com uma perspetiva feminista, não aceita tão facilmente essa ideia. Assim, o sofrimento deixa de ser um mecanismo narrativo para se tornar no objeto da investigação da cineasta. Por isso mesmo, a personagem de Merle, outra americana em território europeu e principal responsável por conduzir Isabel às garras de Osmond, acaba por ganhar uma relevância ainda maior que no texto original. Interpretada por Barbara Hershey com uma inteligência fulminante, Merle é uma imagem espelhada de Isabel só que, ao contrário da sua companheira mais jovem, ela não tem quaisquer ilusões idealistas. Merle, toma um caminho da amoralidade e abuso, mas fá-lo de olhos bem abertos. Ela parece estar ciente que o estudo do sofrimento feminino é o centro deste jogo e decide não lutar contra isso ou deixar-se hipnotizar inconscientemente. Prefere tornar-se numa ativa jogadora destas perversidades e por isso a sua tragédia é muito mais dolorosa que a de Isabel.

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retrato de uma senhora jane campion

Ao fim ao cabo, a história da protagonista de Retrato de Uma Senhora, é principalmente caracterizada pela necessária perda de inocência. Note-se como a sua narrativa fílmica começa e acaba no mesmo jardim. Primeiro, durante a doirada promessa do verão e depois na esterilidade gélida do inverno. A purga da inocência juvenil e da arrogância idealista é um processo doloroso e frio, mas só esse teste abre as portas para a liberdade genuína, por muito ambivalente e incerta que essa ideia possa ser. Assim, como as muitas protagonistas de Jane Campion, Isabel acaba a sua viagem tendo rejeitado, derrotado e perdido o domínio de forças alheias sobre a sua identidade. Ela está sozinha e fita o vazio com o seu olhar vazio e nesse vazio, a audiência pode encontrar o cosmos de possibilidades.

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Apesar do nosso claro amor, não nos iludimos em relação a este filme. Retrato de Uma Senhora é uma obra bem difícil de aceitar. Os seus elementos formais, criados por muita da mesma equipa de O Piano, sugerem um mundo cruel, sufocante e opressivo saído diretamente de um conto de terror, onde nada é simplesmente belo sem ser também ameaçador ou gélido. Todas as personagens são relativamente abrasivas ou abertamente repugnantes, negando quaisquer ideias à Hollywood de simpatia e identificação fácil. Nada disso é uma traição da visão crítica de Jane Campion, sendo até uma necessidade para a coerência concetual do projeto, mas não deixam de ser forças propícias a uma experiência agonizante para um espetador casual. No entanto, é uma das mais preciosas adaptações literárias da recente História do Cinema e merece por isso ser celebrado. Campion pode ter melhores filmes no seu currículo, mas não tem nenhum tão ousado como este.

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Como seria de esperar, Retrato de Uma Senhora foi recebido com indiferença e ódio cáustico pela maior parte da crítica e das audiências comerciais, metamorfoseando a promissora realizadora de O Piano numa pária da indústria cinematográfica. A partir daqui, cada filme da cineasta seria um desafio em termos de financiamento e distribuição, mas ela nunca desistiu e os seus dois próximos filmes, ainda amais polarizantes que o retrato de Uma Senhora, são a provocadora prova disso mesmo.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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