Oito anos depois da sua última visita a terras lusas, precisamente no Rock in Rio Lisboa, eis que Katy Perry regressou como cabeça de cartaz em 2026, atraindo uma multidão de 90 000 pessoas no primeiro dia do festival.
Katy Perry na estrada: da Lifetimes Tour à Out of Office
Esta foi a quarta visita da cantora norte-americana a Portugal, depois de dois concertos em nome próprio no Campo Pequeno, isto no início da sua carreira e com os dois primeiros álbuns – “One of the Boys” e “Teenage Dream”.
Perry chega-nos numa altura bem distinta da sua carreira. Em 2024, a artista lançou o seu 7º álbum de originais, “143”, muito possivelmente o maior fracasso crítico e comercial da sua jornada, isto depois de “Smile” ter já passado muito despercebido no seu lançamento pandémico.
Com “Woman’s World” (2024), tema de lançamento de “143”, visto como um hino vazio de significado e com falta de contacto com a realidade, a artista acabou por ser progressivamente criticada online, nomeadamente devido à sua opção de participar numa das viagens da SpaceX.

Contudo, no meio de tanto discurso online negativo, a digressão mundial do disco “143” foi um sucesso inegável, com a “The Lifetimes Tour”. A longa digressão, que ficou conhecida pelas suas acrobacias loucas e momentos exuberantes de alegria, já terminou, e o que Katy Perry trouxe agora a Portugal foi uma tour que se iniciou este mês, na vizinha Espanha.
Aliás, o Rock in Rio Lisboa foi apenas o segundo espectáculo da “Out of Office Tour”, uma tour veranil, na qual Katy Perry pede para nos divertirmos, desligarmos e deixarmos as preocupações para depois.
Longe está o foco no disco mais recente, sendo antes a presente digressão a desculpa perfeita para recuperar os grandes hits da carreira da artista. Nada ficou de fora e não faltaram momentos altos.
Rock in Rio Lisboa 2026 com público renovado
Há que recordar que na segunda década do século XXI, Katy Perry era a maior estrela pop do planeta e se hoje o seu poderio é superado, em popularidade e vendas, por nomes como Taylor Swift, Sabrina Carpenter, Olivia Rodrigo ou Ariana Grande, a verdade é que o valor de nostalgia continua bem alto.
E, felizmente para Perry, o concerto no Rock in Rio Lisboa 2026 parece antever a esperança de um verdadeiro “comeback”. Isto porque Perry conseguiu algo muito importante, a renovação de geração no seu fandom, os “Katy Cats”. Na audiência, as primeiras filas eram povoadas por milhares de adolescentes e jovens adultos da Geração Z, que não cresceram com Katy Perry mas que não deixam de saber todas as letras de cor.
Quando a cantora perguntou quem a estava a ver pela primeira vez, foi bem audível a reação positiva do público. Assim se garante que esta estrela da pop ainda tem muito terreno a desbravar.
A noite começou em grande, com vários temas de “Teenage Dream”, como a música que dá nome ao álbum, “California Gurls” ou ainda “Last Friday Night”. Para além dos clássicos inegáveis, houve ainda tempo para novos temas, como a canção “Bandaids”, lançada há alguns meses e por agora ainda por integrar num disco, ou “Watch it Burn”. Esta última será o próximo single da cantora, a lançar já a 27 de junho de 2026. A atuação em Portugal marcou apenas a segunda vez que este tema foi cantado ao vivo, mas a recepção fez-se entusiasta no Parque do Tejo.

Katy Perry brilhou nos momentos íntimos
Os grandes momentos altos da noite foram muito possivelmente as versões acústicas e as baladas entoadas. Nas músicas mais animadas, Katy dança, pula, corre, é levantada no ar e faz até a espargata, e tudo isto acaba por ter algum impacto no controlo vocal, embora a artista tenha vindo a aperfeiçoar as suas prestações ao vivo ao longo do tempo e tenha já encontrado um bom equilíbrio, remetendo o microfone para o público quando precisa de respirar.
Não obstante, as músicas mais dançáveis têm backing track muito alto, o que é habitual em concertos pop, dando mais liberdade à artista. Mas por tudo isto, a maior satisfação vem mesmo quando a ouvimos apenas a ela e aos instrumentos, em momentos como a versão acústica de “Thinking of You”, a entoação colectiva de “The One That Got Away” ou ainda a versão alternativa e muito calma de “Roar”.
A cantora norte-americana apresentou-se como é hábito: muito comunicativa, divertida, sem se levar a sério, mas investindo forte e feio nas relações parassociais. Antes de “Roar”, um apelo para a gentileza, tendo deixado a artista algumas palavras que nos recordam dos tempos difíceis que passou recentemente. Sem ser explícita, compreendemos que fala das críticas acérrimas recentes à sua música e vida pessoal.
Mas Katy Perry não é nada senão resiliente, e no final deste set, sabemos que ainda há lugar para ela no mundo da pop. A fechar, como é habitual, tivemos direito à entrega total a “Firework”, o seu maior hino.
Cá ficamos, à espera de uma próxima visita, quiçá desta vez em nome próprio?

