Recomeços podem ser particularmente difíceis, e os Linkin Park sabem-no melhor do que ninguém. Depois de vários anos parados, em 2024 o grupo norte-americano voltou ao estúdio e aos palcos. No Rock in Rio Lisboa 2026, provaram que a reinvenção é possível, por mais difícil que possa ser.
Para os Linkin Park, o impossível aconteceu em 2017. O vocalista principal da banda, a muito acarinhada figura de Chester Bennington, suicidou-se aos 41 anos de idade e deixou um enorme vazio no mundo do rock e na história desta banda extremamente popular dos anos 2000.
Os Linkin Park começam “do zero”
Já no ano de 2024, os Linkin Park decidiram dar um passo corajoso – continuar em frente. Em palco apresentaram a sua nova vocalista principal, Emily Armstrong, e pouco depois lançaram o disco “From Zero”, no qual procuram renascer depois de um fim trágico e devastador.
A missão foi bem cumprida, pois a banda continuou a produzir música que se coaduna com os álbuns prévios, e a digressão mundial deste novo disco faz-se longa e com muitos marcos importantes. Por exemplo, os Linkin Park estiveram recentemente no palco do famoso festival britânico Download e, com a nova vocalista, tornaram-se a primeira banda encabeçada por uma mulher a ser cabeça de cartaz na história deste festival.

Ao Rock in Rio Lisboa 2026 chegaram a 21 de junho de 2026, para promover o seu disco mais recente, tendo o alinhamento sido dominado por temas deste “From Zero”. Esta foi a 8.ª visita dos Linkin Park a Portugal, a 4ª visita ao Rock in Rio Lisboa, mas mais importante que tudo, a primeira desde que Emily se juntou à banda.
Para os fãs mais antigos e que marcaram presença em concertos prévios da banda em terras lusas, poderá ser algo difícil ouvir Emily a entoar os temas mais clássicos da banda. Ao fim de contas, é nas canções novas que tem mais espaço para fazer brilhar a sua voz.
Não obstante, Emily está à altura do desafio e os Linkin Park merecem esta reinvenção. A voz de Armstrong não é assim tão próxima à de Bennington, embora se coadune na perfeição com os temas da banda. Mas na não colagem também está parte da magia.
É muito importante que, no processo de preencher o enorme vazio deixado por Chester, que os Linkin Park não se tornem um fantasma deles próprios. Um caso emblemático é, por exemplo, o regresso dos Queen. Adam Lambert nunca foi um membro oficial da banda, nem tão pouco foram gravados novos temas com este “membro” novo e, por isso, os concertos recentes dos Queen, como o que vimos no Rock in Rio Lisboa 2016, apesar de agradáveis, acabam por parecer um simulacro pouco convincente. Como se os Queen fossem uma banda de tributo dos próprios Queen.
Ao integrar uma nova vocalista nos Linkin Park e gravar desde logo um disco de originais com esta, o grupo foi capaz de se demarcar de tais territórios pantanosos e dizer: “cá estamos, e não pretendemos viver no passado”.
Grandes clássicos entoados na Cidade do Rock
E se os momentos do novo álbum foram muito bem-sucedidos na nossa “Cidade do Rock”, os clássicos são clássicos por uma razão, com o público português em êxtase total com temas como “In the End”, “Faint”, “Numb”, “One Step Closer” ou “Breaking the Habit”.
Mike Shinoda, membro original e vocalista dos Linkin Park, acabou por funcionar aqui como mestre de cerimónias, sendo possível detetar ainda alguma timidez na pose de palco de Emily Armstrong, que sem dúvida tem aqui uma tarefa difícil, a de conquistar um público exigente e que não deixa de fazer comparações.

Mas é imperativo não as fazer, pois a bela voz de Emily estabelece harmonias capazes com a de Mike Shinoda e, em conjunto com os restantes membros dos Linkin Park, a festa faz-se e inicia-se uma nova e proveitosa era.
Se calhar “nunca mais vai ser o mesmo”, quiçá ninguém possa substituir verdadeiramente o vocalista caído, mas o concerto no Rock in Rio Lisboa 2026 prova que há espaço para a nova vida dos Linkin Park. Que cá voltem muitas vezes!

