O vestuário de Rogue One | Jyn e Cassian, os heróis da Rebelião

Os heróis de Rogue One, Jyn e Cassian são dois rebeldes que, depois de inicial animosidade, acabam por formar uma equipa unida, o que se reflete na sua indumentária.

 


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rogue one star wars

As introduções do Capitão Cassian Andor e da versão adulta de Jyn Erso marcam ambas as personagens como figuras marginalizadas. Cassian é um agente revolucionário disposto a fazer tudo em nome da sua causa, é um ser que se move pelas sombras e veste roupas escuras e terrenas que o ajudam a camuflar, como um James Bond em situação de guerrilha. Jyn, por seu lado, é apresentada como uma prisioneira de um campo de trabalhos forçados (mais referências à 2º Guerra Mundial) e, como inimiga capturada do regime ditatorial, as suas roupas são pobres e em tons de cinzento que a colocam em triste união com o ambiente esquálido em que ela foi forçada a viver.

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A razão pela qual estamos a analisar os guarda-roupas destas personagens na mesma página devém do modo como os seus figurinos, mesmo quando as personagens estão separadas, apresentam um contínuo diálogo visual. Como foi exemplificado acima, ambos começam o filme como marginais que quase desaparecem nos seus respetivos ambientes. No entanto, quando finalmente se encontram, os seus figurinos são estranhamente antagónicos ao mesmo tempo que são inequivocamente semelhantes. Tal contradição emerge da parecença de peças, cores e materiais (cinzentos, castanhos, verdes e algodão prático dominam as suas vestimentas) que é, no entanto, contraposto por pequenos, mas marcantes, detalhes.

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Na primeira metade de Rogue One, Cassian, quando está na companhia de Jyn, tem quase sempre o seu casaco castanho fechado (note-se os pormenores da manga que lembram o casaco de Poe Dameron), enquanto ela aparece de túnica, colete e casaco abertos. Quando se aventuram pelas ruas de um mercado alienígena, Jyn chega mesmo a cobrir a sua cabeça com um lenço que a faz desaparecer entre os figurantes de uma cena onde Gareth Edwards está ativamente a emular a imagética bélica associada ao Médio Oriente contemporâneo. Na mesma situação, Cassian veste o seu casaco de nylon azul, a única peça que entre eles os dois é de um material claramente sintético. Na mesma medida, a cor relativamente forte, coloca-o numa posição de domínio cromático quando os vemos em conjunto.

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Tais diferenças são minúsculas e menosprezáveis para um espetador casual mas, quando começamos a esmiuçar o desenvolvimento dos figurinos do filme vemos como a relação ente as duas personagens é perfeitamente traçada pelas suas roupas. Como já dissemos, começamos por vê-los em separado e concluir quão semelhantes são na sociedade do filme, depois, enquanto uma equipa relutante, eles estão unidos, mas há detalhes em notória dissonância. Aquando do momento em que Cassian mais profundamente ilude Jyn e se propõe a fazer algo que seria uma imperdoável traição, ele veste mais uma vez o casaco azul, enquanto Jyn enverga um poncho para a chuva. Nesta ocasião, os figurinos marcam o píncaro do seu distanciamento.

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Em contrapartida, depois de Jyn propor um plano insano, mas corajoso e necessário, que é rejeitado pela maioria da Aliança, Cassian mostra-se um aliado fiel. No exato momento em que ele aparece no hangar e mostra o seu apoio, juntamente com um grupo de outros rebeldes, a transição de plano médio de Jyn para igual imagem de Cassian mostra-os praticamente vestidos de igual. Ambos têm túnicas de golas assimétricas que fecham para a sua direita, coletes abertos e um predominante estilo de pragmatismo militar em tons de cinzento, castanho e verde. É algo extremamente subtil mas, pela primeira vez, eles são quase o reflexo do outro, ao mesmo tempo que as suas cores, materiais e estilos os unem também aos outros soldados e combatentes. Nesta cena, eles deixam de ser indivíduos em parceria conflituosa para passarem realmente a ser uma equipa unida.

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A este momento de união segue-se o bombástico último ato da narrativa e, sem querer revelar muitos detalhes do enredo, basta dizer que, para se infiltrarem numa base do Império, Jyn e Cassian se disfarçam com o já familiar uniforme de oficial introduzido em 1977, no caso de Cassian, e o equipamento negro de segurança, no caso de Jyn. Mais tarde, quando estarem disfarçados deixa de ser uma prioridade, ambos despem as vestimentas imperiais e, durante o clímax do filme, aparecem novamente nas suas simples túnicas, coletes e calças em caquis e cinzentos, humildes.

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Assim, Jyn, uma personagem que, no início de Rogue One chegou a conjeturar uma vida pacífica sob domínio imperial, veste-se nos símbolos de controlo ditatorial para mais tarde os despir e revelar uma rebelde, tudo em nome da causa revolucionária e da esperança por um mundo melhor. Tais leituras da evolução dos figurinos podem parecer rebuscadas mas atente-se que, num filme desta magnitude, nenhum detalhe é ignorado e o modo como as roupas de Jyn e Cassian vão apresentando pequenas mudanças não é um mero acaso, mas sim a construção de um cuidado discurso que prima pela subtileza. E, convém dizer, subtileza visual não é algo muito comum neste universo onde usualmente se veem dicotomias arquetípicas como preto = vilão (Darth Vader, o Imperador), branco = herói (Leia, Luke).

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Na próxima página, poderás encontrar uma análise do vestuário de outro duo heroico em Rogue One, Chirrut, o monge cego, e Baze, seu fiel companheiro e protetor.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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