O vestuário de Rogue One: Uma História de Star Wars

Com novas personagens e histórias, Rogue One traz também novos estilos e escolhas estéticas ao universo da saga Star Wars.

 


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Apesar da saga Star Wars ser considerada por muitos como o maior franchise de ficção-científica que o mundo do cinema já viu, a verdade é que, no seu âmago, esta série de filmes tende a estar mais próxima dos códigos narrativos, dramatúrgicos e temáticos da fantasia. Há até quem caracterize o filme de 1977, que deu origem a todo este universo, como um conto de fadas intergaláctico, onde a luta primordial entre o bem e o mal toma posição de destaque em relação a qualquer outro aspeto. Uma coisa é certa, apesar do seu título, estes filmes nunca se podem caracterizar como filmes do género guerra. Bem, isso era verdade até Rogue One: Uma História de Star Wars.

Longe de termos neste filme mais um capítulo na ópera espacial que é a história da família Skywalker e as pessoas que orbitam à sua volta, este filme afasta o seu olhar dos ícones da revolução e dos seus líderes, para examinar o heroísmo daqueles que usualmente são esquecidos. Em resumo, ao invés de se focar no rei e na rainha, esta nova partida de xadrez é sobre os peões que são sacrificados no início do jogo, enquanto as figuras mais famosas existem na periferia. Como consequência, todo o filme se desenvolve com tonalidades e temas pouco usuais no universo Star Wars. Por exemplo, há uns anos, seria difícil imaginar que um filme deste franchise pudesse abordar, de modo mais ou menos inteligente, questões de relativismo moral ou ver nuance nas várias fações e ideologias políticas de uma comunidade em estado de guerra.

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Em termos estéticos, isto traz consigo uma série de cruciais mudanças, tanto ao nível da magnífica fotografia de Greig Fraser, como dos cenários, design de criaturas, caracterização, adereços e figurinos. Apesar de se manterem relativamente fiéis às escolhas visuais do filme de 77, os cineastas desta nova aventura deixaram para trás alguns dos seus elementos mais estilizados. Segundo as próprias palavras do realizador Gareth Edwards, a estética de Rogue One é 10% fantasia, 90% realidade e história. Na verdade, isto segue o modelo de 77, que, na procura por cortar custos, usou, por exemplo, muitas armas históricas com algumas alterações e acrescentos como base para a criação de adereços. Em Rogue One, essas questões orçamentais há muito foram esquecidas e o projeto final foi construído com o máximo brio possibilitado pelos estúdios mais ricos de Hollywood.

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Como tal, a procura por imagética realista e histórica tem o efeito de exacerbar um dos aspetos mais fortes da original conceção deste universo, a sua ligação à 2ª Guerra Mundial. Isto estende-se desde a clara equação visual do Império ao Terceiro Reich, os uniformes dos oficiais da Death Star continuam a parecer saídos de um filme sobre a Alemanha nazi, até momentos narrativos como uma explosão cuja visualização remete, de modo bastante declarativo, para as bombas atómicas que marcaram o fim da guerra na frente do Pacífico. Mesmo algo tão discreto e passageiro como os capacetes dos soldados que acompanham a missão titular os fazem parecer figurantes americanos no início d’O Resgate do Soldado Ryan.

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Para além desta forte relação simbólica e referencial entre Rogue One e a 2ª Guerra Mundial temos ainda de salientar quão homogéneos os visuais deste filme são, em relação aos dos episódios principais da saga Star Wars que tendem a ter mais momentos de vistosa teatralidade e espalhafatosos contrastes. Parte disso, deve-se à contextualização da narrativa ao nível de soldados e figuras menores na hierarquia tanto da Aliança de Rebeldes como do Império (o vilão principal é pouco mais que um administrativo amoral portador de uma ambição sem limites), mas também temos de considerar como, mais do que qualquer outro filme desta saga, Rogue One é sobre um esforço coletivo mais do que é sobre heroísmo individual. Juntamente com a diversidade étnica do casting e a posição de protagonismo de uma figura feminina, esta insistência no valor e heroísmo do esforço coletivo salienta ainda mais a mensagem antifascista que todos os filmes deste universo tendem a seguir (não é por acaso que Rogue One tem sido tão vilificado por grupos e indivíduos conservadores que até pediram o boicote do filme nos EUA).

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Pela sua parte, os figurinistas Glyn Dillon e David Crossman mostram-se perfeitamente aptos aos desafios deste universo cinematográfico, sendo que ambos já tinham trabalhado anteriormente em O Despertar da Força, como um artista conceptual e um supervisor de guarda-roupa respetivamente. Em relação ao seu trabalho, o texto desta página serve somente de introdução pois, nas páginas seguintes (a serem publicadas diariamente) vamos explorar os figurinos de personagens individuais, suas referências cinematográficas e culturais, assim como o desenvolvimento de alguns visuais familiares a fãs de Star Wars como as roupas da Aliança, do Império e o icónico uniforme de Darth Vader.

 


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Na próxima página poderás encontrar, especificamente, uma introdução à personagem de Jyn (Felicity Jones), assim como uma análise dos figurinos dos seus pais que, acredites ou não, apresentam claras referências ao cinema japonês clássico do pós-guerra. Não percas!

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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