Em família com os Salto, numa bola de sabão

No passado dia 6, os Salto mostraram-nos, no Lux Frágil, como se está em família, numa breve mas intensa noite de férias que antecipou a época natalícia que aí vem.

Descendo as escadas do Lux Frágil e chegando à sala, no espaço ainda amplo e vazio que em breve se transformaria ao som e calor da música, viam-se no palco as diversas bolas de “sabão” que nos ajudariam a imergir no concerto. O público ia-se dispondo pela sala até formar um denso aglomerado de pessoas, com as últimas a tentarem imiscuir-se nos poucos lugares por preencher. Todos esperavam por esta noite em que o novo disco dos Salto, Férias em Família, seria apresentado ao vivo pela primeira vez.

Salto, a banda formada pelos primos Guilherme Tomé Ribeiro (voz e guitarra) e Luís Montenegro (voz, guitarra, teclados e samples), por Filipe Louro (voz e baixo) e Tito Romão (bateria), estreou-se nesta sala com o seu terceiro álbum. Este é um trabalho que reflecte uma maior maturidade, abordando temas mais introspectivos, vindos mesmo das suas “entranhas”, como diz Luís em diversas entrevistas. Trata-se de um disco unificado por uma narrativa, que se vai desenrolando ao longo das canções, em todas as quais há por isso mesmo, pela primeira vez, melodias vocais e conteúdo lírico. Uma maior coerência que se faz sentir também a nível instrumental.

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Quando a audiência já estava acomodada, distraindo-se em conversas cruzadas, desligaram-se as luzes. O foco da atenção mudou e o entusiasmo e expectativa tornaram-se palpáveis. Um tranquilo instrumental trouxe o silêncio à sala que assim recebeu respeitosamente a entrada da banda. Mas, em sintonia com o humor vivido ao longo da noite, a música desenvolveu-se, para se desvelar o ritmado hit, dos anos 70, “Afternoon Delight” da Starland Vocal Band. Um bom aquecimento para o público, que inevitavelmente começou a dançar, sem questionar o que acontecia, e um convite a deixar-se guiar docilmente durante o concerto que começaria em segundos.

A banda entrou e, sem apresentações, abriu o concerto com a primeira faixa do álbum, mostrando-nos logo que a noite seria a “Cantar até cair”. Assim começou e assim se desenrolou o concerto. Dentro desta bola de sabão para a qual a banda nos transpôs, houve espaço para excepcionais momentos instrumentais, maioritariamente ocupados pela guitarra de Gui e pelo baixo de Filipe, mas também para as teclas tocadas por Luís. Uma atmosfera de jogos luminosos em encarnado e azul envolvia o ambiente sem barreiras criado pela verdade com que os Salto se apresentavam.

Mais tarde, uma entrada da bateria anunciou “Mar Inteiro”, primeiro single do segundo álbum, Passeio de Virtudes, e o público, ao rubro, acolheu-o a saltar, a dançar, a acompanhar a banda unissonamente. O gelo quebrou-se ao som do tema tão familiar e o ambiente de intimidade que já se vivia na pequena e escura sala plasmou-se num convívio de amigos chegados. Após esta pequena ida ao baú, interpretaram “Só Agora Cresci”. O seu fim irónico, em que se harmonizam o expressivo barítono de Gui e o infantilizado falseto de Luís, enfatizou nitidamente a diferença de maturidade de um disco para o outro. O crescimento de que nos falaram foi uma preparação para um mergulho mais profundo. Guiados ao longo do rio tratado na discografia, fomos levados até uma parte mais solene e introspectiva, aberta por um aumento da escuridão, rasgada delicadamente pelos leds encarnados que se reflectiam no interior das bolas de sabão; apresentaram-nos o seu “Coração Aberto”.

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Terminada a faixa, o público em contemplação, a banda aproveitou a atmosfera para fazer ouvir misticamente, por entre os restos de fumo, um sample que se transformou em “Deixar Cair” seguido de “Por Ti Demais”, dois dos sucessos com que os Salto se lançaram em 2012. Explodindo, o público dançou, saltou, cantou a plenos pulmões cada palavra das letras. Com a sua energia e o seu à vontade, a banda gerou um ambiente de pura loucura e felicidade, como quem reencontra um velho amigo passado muito tempo.

Depois deste tão forte momento de celebração da música dos Salto, Gui Tomé Ribeiro mudou para uma guitarra clássica, para nos apresentar a delicada faixa “Ninguém Te Viu”, e Tito Romão, surpreendendo-nos, abandonou as baquetas e desembainhou um violoncelo, dando à música a elegância e a suavidade pedidas pela letra. Em novo contraste emotivo, já perto do final da noite, ao som de “Lentamente Pago a Casa”, Gui dançava com os pés e toda a sua expressão corporal, debruçado como estava sobre a guitarra que tocava freneticamente. Luís, que durante o concerto estivera sempre entre teclas, guitarra e voz, deu espaço ali para um dueto com o primo Gui, dueto que mais parecia um duelo em que ganhava quem mais se divertisse. Tudo era pura expressão e energia, eufórico até o que saia da boca do vocalista, em jeito de grito.

Por fim, saltámos todos ao som de “Lagostas”. Música de despedida de uma noite em que, cumprida a promessa inicial de “Cantar Até Cair”, parecia impossível estar de pé e de fôlego recuperado. A convite da banda, o público cantava e ecoava “Já não há jantar!” enquanto os Salto estouravam as últimas energias na coda da canção. Pousando os instrumentos, o quarteto agradeceu e despediu-se ao som de aplausos entusiásticos e dos “Já não há jantar!” que o público insistia em cantar à laia de encore. A banda que se deu até às vísceras para criar o seu mais recente Férias em Família, não ofereceu nada menos do que isso a cada um de nós neste concerto de apresentação. “Salto é de quem ouvir” é o mote da banda e foi o mote desta noite em que a sua entrega total nos escancarou a porta. Por umas horas, entrámos, vivemos e saltámos no seu mundo.

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  • Berta Braga - 85
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