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Scarlet, a Crítica

Mamoru Hosoda está de volta com “Scarlet”, um belo conto pacifista, onde uma heroína transforma uma história de vingança numa exploração existencialista onde a brutalidade e a inocência se encontram. Nas salas de cinema portuguesas desde 26 de fevereiro.

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Mamoru Hosoda regressa em grande

Scarlet 2026 animação japonesa
©2025 STUDIO CHIZU / Courtesy of Sony

“Scarlet” (2026) é a mais recente entrada na filmografia de Mamoru Hosoda, nomeado ao Óscar em 2019 por “Mirai”. “Belle” (2021), “O Rapaz e o Monstro” (2015), “Crianças Lobos” (2012) e “Guerras de Verão” são alguns dos filmes que recheiam um currículo invejável. Quiçá depois de Hayao Miyazaki (“A Viagem de Chihiro”, “Totoro”) e Makoto Shinkai (“Your Name”, “Suzume”), Hosoda possa ser facilmente proclamado como o terceiro grande nome vivo da animação japonesa para adultos.

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Este seu novo filme, “Scarlet”, é tão ambicioso quanto o seu último esforço – “Belle“, uma reinvenção da história da “Bela e o Monstro” com visuais de cortar a respiração e uma invejável banda sonora. Com “Scarlet”,  Mamoru Hosoda ambiciosamente anunciou que desejava criar algo completamente novo no que diz respeito ao estilo de animação. Esta não é animação tradicional 2D, mas também não é, como citado pelo cineasta, um “CGI em estilo de Hollywood”. É algo metamórfico, livre e visualmente estimulante desde o primeiro frame.

Scarlet: uma história medieval com um twist

A narrativa que Hosoda aqui co-escreve e realiza é uma aventura poderosa que atravessa o tempo. A nossa história inicia-se na Dinamarca medieval, onde Scarlet é uma princesa herdeira ao trono. A sua mãe é distante e crítica, a roçar o cruel, mas o seu pai, o Rei Amleth, é bondoso, para a filha e para os seus súbditos. Tudo descamba para Scarlet quando, ainda criança, o seu tio Claudius trai o seu pai, conspira para lhe roubar a mulher e o trono e acaba por o mandar assassinar.

A jovem Scarlet torna-se cedo uma guerreira, sendo o seu único objectivo de vida vingar o seu querido pai e castigar Claudius, o usurpador do trono. Todavia, Claudius acaba por envenenar a princesa, e assim começa verdadeiramente a nossa história. Depois desta nova traição por parte do tio, Scarlet encontra-se num misterioso e inóspito pós-vida. Um lugar triste, uma espécie de limbo deserto, onde os mortos continuam a comer, dormir, e a tentar sobreviver à derradeira morte – desaparecer e tornarem-se nada.

Neste espaço transtemporal, é dito a Scarlet que o seu tio também se encontra já neste limbo e a sua prioridade passa a ser levar a cabo a sua derradeira vingança e impedir que o tio ascenda às Terras Infinitas, o verdadeiro “paraíso”, um lugar de repouso eterno. Já Scarlet tem poucas ambições de sobrevivência própria, sendo movida apenas pelo espírito de vingança.

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Mamoru Hosoda
©2025 STUDIO CHIZU / Courtesy of Sony

É neste lugar improvável, entre passado e presente, entre a vida e a morte, que a nossa protagonista vai aprender a amar e a viver. Aqui, neste purgatório cruel e repleto de bandidos, conhece um jovem idealista, um socorrista do século XXI chamado Hijiri. Hijiri é cordial, preocupa-se com o bem-estar de todos e escolhe sempre a vida à morte. O seu desejo profundo é verdadeiramente a paz e harmonia e, pouco a pouco, transmite lições muito importantes à jovem Scarlet, cuja raiva cega vai diminuindo ao longo da longa-metragem. É também bastante irónica e bem-vinda, esta ideia de um “socorrista” no além, a ajudar quem já não se encontra no reino dos vivos.

Tal como aconteceu na sua última obra, “Belle”, a música tem um papel muito importante e o tema principal do filme é uma belíssima balada que nos ensina a viver de forma mais harmoniosa. E uma vez que personagens de várias linhas temporais se encontram neste além, esta bonita melodia acaba por funcionar como um unificador – para lá do tempo e do espaço. Aliás, uma das partes mais belas do filme acontece precisamente quando Scarlet tem uma visão musical que inclui um futuro muito diferente do seu passado e presente.

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Animação e esperança num mundo de crescente desencanto

 

“Scarlet” começa como um conto bastante clássico de vingança medieval, com uma narrativa épica da heroína no centro da narrativa, mas depressa a história de Mamoru Hosoda  cresce para muito mais. Neste purgatório que se rege pela lei do mais forte, há brutalidade em doses notáveis e uma pujança e vitalidade impossíveis de ignorar no âmago da nossa protagonista.

Neste elogio à expansão da beleza da animação tradicional, com dois protagonistas extremamente carismáticos e um romance subtil mas impactante, compreendemos como certos valores unem toda a humanidade, para lá de opiniões, origens ou linhas temporais. É também uma dinâmica curiosa e estimulante a opção de ter protagonistas de duas épocas históricas distintas, criando fricção e curiosidade.

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Feitas as contas, “Scarlet” é um canto pela paz e uma história que apela ao poder do perdão. Consegue fazer-se sentir algo ingénuo, por vezes, mas a sua ingenuidade comporta parte do seu encanto. Há aqui o sonho de um mundo sem guerra e, ingénuo ou não, este sentimento é muito apetecível nos dias de hoje, onde o ódio avança galopante. Não no grande ecrã, não com o Scarlet e o seu Hijiri.

Scarlet, a Crítica

Conclusão

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  • Mamoru Hosoda (“Belle”), um dos mestres do cinema animado japonês, regressa em “Scarlet” com uma belíssima animação pacifista que vai além do tempo e do espaço.
Overall
7.5/10
7.5/10
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