"Belle" teve antestreia nacional na MONSTRA '22 | © Big Picture Films/MONSTRA

MONSTRA ’22 | Belle, em análise

“Belle”, a nova longa-metragem do realizador japonês Mamoru Hosoda, encontra-se já em exibição nas salas de cinema portuguesas. Antes da sua estreia oficial, o filme teve direito a uma antestreia na MONSTRA – Festival de Animação de Lisboa, Aliás, a obra arrancou, a 16 de março, com a programação do Festival que decorre na capital até dia 27 de março. 

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MONSTRA '22 , de 16 a 27 de março, em Lisboa

Vimos “Belle”, no original “Ryū to Sobakasu no Hime”, por ocasião deste pontapé de arranque de lançamento da 21ª edição da MONSTRA, que acompanharemos até ao final da semana. Esta é a mais recente história da autoria de Mamoru Hosoda, atualmente um dos mais prolíficos realizadores de animação japonesa, responsável por várias outras obras que já passaram previamente pela MONSTRA, como “O Rapaz e o Monstro” ou “Mirai”, entre muitos outros.

Quanto a “Belle”, a sua obra mais recente a passar pela grandiosa sala Manoel de Oliveira do Cinema São Jorge, em Lisboa, é uma versão atualizada e tecnológica da narrativa da Bela e o Monstro, aqui interpretada como uma história da idade contemporânea e, portanto, vivida nas redes sociais.

Esta é a história de Suzu, uma adolescente de 17 anos comum que vive numa pequena vila rural com o seu pai. Há muitos anos, a mãe de Suzu morreu durante um ato heróico de salvamento e a jovem carrega o peso desta decisão, do julgamento da comunidade inclusive, e o seu próprio sentimento profundo de perda. O que Suzu perdeu também foi a sua vontade de cantar e criar música, uma atividade que desenvolveu no passado em conjunto com a mãe.

O encontro com um mundo virtual alternativo, o “U”, uma aplicação de telemóvel hiper-realista onde quase todos os seres humanos se encontram inscritos, em todo o planeta, será um escape perfeito para a tímida e desligada Suzu, que aqui veste uma nova pele e pode, finalmente, dar asas à sua belíssima expressão artística. Neste mundo virtual, Suzu assume a identidade do avatar Belle, o qual bebe dos seus dados biométricos mas também se projeta como a imagem daquilo que Suzu gostaria de ser.

 

©Big Picture Films/ MONSTRA

 

No “U”, Belle torna-se um enorme fenómeno de popularidade, reconhecido à escala global. Isto seria suficiente para o enredo inteiro de um filme, mas há muito mais. Um dia, uma criatura fascinante, e à primeira vista grotesca, interrompe o seu concerto virtual. É o “monstro”, o avatar de uma alma massacrada pelos seus próprios traumas. Suzu (ou, aliás, Belle) depressa ficará interessada em descobrir a identidade desta criatura grotesca cheia de feridas e mazelas.

O desenrolar do filme mantém este mistério bem vivo e consegue, sem dúvida, suscitar a dúvida e a curiosidade. Onde possamos achar que “Belle” é uma história romântica, acaba por se revelar acima de tudo uma longa-metragem acerca de amizade, solidariedade e amor familiar. É um filme tenro, capaz de pegar em alguns elementos essenciais dos contos de fadas e transformá-los em algo mais realista. Os fantasmas e os monstros tornam-se ameaças mais quotidianas e próximas, neste que é um dos maiores trunfos da narrativa.

Todavia, “Belle” parece sempre fragmentado e baralha a nossa percepção. A relação entre Belle e o Monstro acaba por ter uma tradução bem diferente fora das paredes digitais do mundo “U” e muitas das expectativas e assunções que construímos ao longo do filme não se confirmam. Ao fim de contas, para um filme que transporta a fantasia para um campo mais “realista”, muitos dos eventos que acontecem no mundo real são pouco credíveis e simplesmente escritos sem grande finura ou mestria.

Para além disso, a personalidade de algumas das personagens centrais não é bem desenvolvida, quer falemos da amiga popular no liceu, da melhor amiga ou do protetor de longa data. Todos eles nos são apresentados de forma superficial, à medida que o mundo digital domina em termos de tempo de ecrã. Todavia, não é essa a mensagem que o filme pretende passar. Não, “Belle” diz-nos antes que uma identidade confiante, no mundo real, é a melhor arma para chegar à auto-realização.

 

Ryū to Sobakasu no Hime anime
©Big Picture Films/ MONSTRA

 

O que é que salva então esta obra de animação? O estilo visual do mundo virtual criado, com particular destaque para o belíssimo avatar de Suzu. Tal inclui todos os seus elementos de guarda-roupa e decoração, desenhados com cuidado e precisão. Outro grande trunfo é a banda-sonora original, traduzida com mestria para as várias línguas de dobragem desta obra japonesa. Melancólicas, repletas de corpo e de emoção, as canções de “Belle” ficam no ouvido e convidam a mais uma, e outra… e outra audição.

Mas nem tudo são rosas quando falamos da animação. Para quem seja fã do mais alto anime no cinema, como foi o caso das obras Ghibli no início do século XXI, sabe que é possível animar prestando particular atenção à arte de fundos e às microexpressões das personagens. O filme de Mamoru Hosoda faz um trabalho apenas razoável neste campo, uma vez que não são raras as ocasiões em que personagens que se encontrem no plano, mas sem falar, estão simplesmente congeladas, com imagens iguais de frame para frame, num cenário que se arrasta durante minutos por vezes, o que confere à imagem um ar algo preguiçoso. Para além disso, os fundos não são, recorrentemente, tão bem trabalhados quanto a animação digital que se apresenta em primeiro plano.

Longe de ser um filme irrepreensível, “Belle” assume-se como um anime belo, comovente e que vale pela sua mensagem esperançosa e dilacerante. Aqui, as personagens centrais aprendem a dar uso às suas fragilidades, instrumentalizando-as e tornando-se mais fortes no processo. Não é este um ensinamento precioso para o público infanto-juvenil que parece ser o alvo número um desta longa-metragem?

“Belle” estreou nos cinemas nacionais a 17 de março de 2022, com distribuição assegurada pela Big Picture Films. Já viram esta obra de animação? 

TRAILER | BELLE – JÁ NOS CINEMAS EM PORTUGAL 

Belle, em análise
Belle Poster Oficial

Movie title: Belle

Movie description: Suzu é uma estudante de 17 anos que vive numa vila rural com o pai. Durante anos, ela foi apenas uma sombra de si mesma. Um dia, ela entra em “U”, um universo virtual com 5 mil milhões de membros na Internet. Lá, ela deixa de ser Suzu, para ser Belle, uma cantora mundialmente famosa. Conhece uma criatura misteriosa e juntos, embarcam numa viagem de aventuras, desafios e amor, em busca por se tornarem quem realmente são.

Date published: 22 de March de 2022

Country: Japão

Duration: 121'

Director(s): Mamoru Hosoda

Actor(s): Kaho Nakamura, Ryô Narita, Shôta Sometani

Genre: Animação , Musical, Drama

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  • Maggie Silva - 72
  • Cláudio Alves - 80
76

CONCLUSÃO

“Belle” é um festim visual e auditivo. Apesar de ficar a dever algo no campo da coesão narrativa, os seus elementos mais positivos tornam este filme num título essencial para os amantes de animação japonesa e para aqueles que acompanham a carreira de Mamory Hosoda.

Pros

  • A maravilhosa caracterização do avatar “Belle”,
  • A bela voz da protagonista e as canções que entoa;
  • A natureza inspiradora da conclusão da narrativa;

Cons

  • A falta de profundidade das personagens e das situações – o mundo interior de Suzu é muito bem representado, mas tudo o resto parece subexplorado;
  • As microexpressões das personagens deixam a desejar e parecem existir muitos desenhos reaproveitados de take para take. O trabalho de animação podia ser mais rigoroso, mesmo que à primeira vista a animação seja deslumbrante;
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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