O retrato da família Rose |©NOS Audiovisuais

Schitt’s Creek, primeira temporada em análise

“Schitt’s Creek” chegou ao TVCine Emotion a 19 de novembro do ano passado, e concluiu no presente mês de fevereiro a exibição da T1. Analisamos agora a primeira temporada da série que venceu todas as principais categorias de comédia nos Prémios Emmy em 2020. 

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A comédia canadiana “Schitt’s Creek”, cuja emissão original fechou a cortina em 2020 com a sexta temporada, está a ser exibida, de momento, em exclusivo nacional no TVCine Emotion. Para assinalar o final da exibição da temporada 1, no dia em que esta produção concorre a cinco Globos de Ouro – cerimónia que acontece já na madrugada de 28 de fevereiro para 1 de março – recordamos os eventos iniciais que nos fizeram apaixonar pela caricatural e deliciosa família Rose.

Os Rose foram em tempos milionários, com o ilustre Johnny Rose (Eugene Levy de “American Pie”) como magnata de uma grande cadeia de videoclubes. A sua melodramática esposa Moira (Catherine O’Hara de “Beetlejuice”) fora uma atriz de telenovelas com enorme reconhecimento público, e os seus filhos – o neurótico David (Dan Levy) e  a desprendida Alexis (Annie Murphy) – viviam uma vida despreocupada e de luxo, sem grande planificação. David geria uma galeria de Arte Concetual em Nova Iorque, Alexis flutuava ao sabor do vento entre festas e eventos a nível global.

Schitts Creek T1 em análise
A família Rose |©NOS Audiovisuais

Tudo muda para esta êxcentrica família no momento em que uma fraude financeira lhes rouba tudo  – a casa, os bens, o negócio. Pouco mais sobra para além de um retrato familiar de dimensões risíveis e desproporcionalmente excessivas, as muitas perucas de Moira e um bem a pender para o insólito. A cidade de “Schitt’s Creek”, que o pai Johhny comprou para o seu filho como uma brincadeira de aniversário devido ao seu nome invulgar.

A pequena cidade de Schitt’s Creek é um lugarejo com tão pouco a oferecer que acaba por ser um dos poucos bens que não é retirado à família no decurso da sua investigação por fraude, uma vez que a auditoria fiscal lhe reconhece valor nulo. Deste modo, nada mais podem fazer do que mudar-se, de malas e (ainda algumas) bagagens, para este pequeno local descaraterizado, longe de todo o luxo e da imensa mansão que simbolizava a sua despreocupada e ostensiva existência.

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Schitt’s Creek pode ser uma cidade fictícia, mas as suas localizações são muito reais. Baseiam-se na pequena cidade de Goodwood, Ontario, Canadá, que desde a explosão de sucesso da série, em 2020, se tornou local de romaria para os seus muitos fãs. Contudo, para a família Rose, Schitt’s Creek é o oposto de tudo o que sempre conheceram. O contraste gritante promete momentos de imensa diversão a partir do instante em que os quatro colocam os pés no Motel da cidade, onde o Presidente da Câmara amavelmente os colocou sem custos adicionais (ao fim de contas, é o mínimo que podia fazer pelos heróis que compraram a cidade e a ajudaram financeiramente).

TVCine Emotion series
O encanto das pequenas povoações em “Schitt’s Creek”. Uma vida nova com possibilidades inesperadas, à beira da estrada  | ©NOS Audiovisuais

“Schitt’s Creek” não inventou a roda. Colocar em oposição, para efeitos cómicos, o cidadão comum e o cidadão rico e desprovido de consciência social acerca dos desafios do dia-a-dia é uma manobra com longíssima tradição. Não obstante, este conteúdo televisivo soube encontrar o seu espaço dentro do género e apresentar-nos personagens que ao longo de poucos episódios passam de meros símbolos ou caricaturas de pessoas ricas e embirrentas para se humanizarem e, aos poucos, aprenderem uma das capacidades mais inerentes ao ser humano: a adaptabilidade.

As virtudes da série prendem-se muito com a sua própria leveza de espírito, à medida que introduz os eventos deliciosos que lidam com a “normalização” e “nivelação” dos Rose, no sentido mais positivo destas palavras. A família, que rejeita de início a banalidade da sua exageradamente precária situação, chega ao final da primeira temporada com uma nova perspetiva melhorada da vida, mesmo que ainda queiram vender a cidade e abandoná-la.

TRAILER | T1 DE SCHITT’S CREEK NO TVCINE EMOTION

 

Ao nunca terem sabido o que era sentido de comunidade, Schitt’s Creek transforma os Rose em seres humanos cada vez mais completos. A resiliência de Johnny torna-se cada vez mais notória e as suas falências são cómicas e, acima de tudo, dignas de empatia. Alexis pode continuar igual a si própria, mas por mais egocêntrica que seja é a primeira a abrir-se às pessoas que conhece neste pequeno local. Moira e David procuram adotar novos papéis: novos empregos, novas atividades, novas soluções, por mais estapafúrdias que estas sejam. Sempre como peixes fora de água, a tentarem agarrar-se ao glamour perdido, mas sem se tornarem alguma vez execráveis ou de difícil apreciação, assim são Moira, Johhny, David e Alexis.

“Schitt’s Creek” é uma narrativa verdadeiramente familiar, em todos os sentidos da palavra, e vence também pela cumplicidade que existe entre o elenco e a equipa. A série foi criada por Eugene Levy ( “American Pie”) em colaboração com o seu filho Daniel Levy ( “Happiest Season”), que para além de dar vida a David, co-protagonizando e co-produzindo junto ao pai na vida real e na ficção, esteve ainda envolvido na escrita dos 80 episódios da série. Já a filha de Eugene, Sarah Levy, dá vida a Twyla Sands, a apatetada funcionária do café local. Na produção executiva encontramos ainda Fred Levy, irmão de Eugene. Catherine O’Hara (“Sozinho em Casa”) não é família de sangue, mas já colabora, no mundo da representação, com Eugene há muitas décadas. A química é palpável.

Schitt's Creek S1 Backstage
Eugene Levy e Catherine O’Hara nos bastidores da T1 |©NOS Audiovisuais

Este sentimento de união é muito importante para fazer “Schitt’s Creek” resultar. O coração da série vem, em muito, deste ambiente acolhedor que se faz sentir entre a equipa e se projeta para o ecrã. De lógico outras valências elevam a série, como a valorização e aceitação da diferença. Dan Levy considerou essencial abordar no argumento questões importantes por vezes negligenciadas ou secundarizadas no seu tratamento em comédia, como a relação de aceitação entre pai e filho e a temática da pansexualidade, personificada no seu David Rose. A inclusividade e consciencialização para temáticas LGBTI, não como pretexto mas como genuína preocupação, tornaram-se bandeiras importantes da série, ao longo de todas as suas temporadas, começando logo nos primeiros capítulos desta T1.

Mais, e como é importante em todas as séries de comédia, este mundo faz-se também das coloridas personagens secundárias que o vão povoar. Na primeira temporada temos contacto, desde logo, com uma panóplia de invidividualidades variadas, com personalidades tão vincadas quanto as dos Rose. O lugar de honra vai para o Presidente da Câmara e para a sua esposa. Roland Schitt (Chris Elliott, figura incontornável da comédia americana, de “Doidos por Mary”, “O Feitiço do Tempo”, “SNL” ou “How I Met Yout Mother”) vem de uma linhagem longa de presidentes/fundadores da pequena cidade. Roland é vulgar, inapropriado, bizarro e ao mesmo tempo que ajuda os Rose provoca-lhes, pelo menos no ínicio, alguma repulsa. A esposa Jocelyn Schitt (Jennifer Robertson, “Degrassi”) é tão prestável quanto aparentemente pouco astuta. Contudo, depressa estes dois vão crescendo aos olhos dos Rose e também dos espectadores.

critica temporada 1 schitts creek
Da esquerda para a direita: Eugene Levy, Jennifer Robertson, Chris Elliot e Emily Hampshire nas gravações do primeiro episódio da série |©NOS Audiovisuais

 

A completar este grupo de personagens, e entre diversos outras memoráveis figuras, temos Stevie Budd (Emily Hampshire, “12 Monkeys”). A sarcástica funcionária do Motel onde os Rose ficam alojados é o seu primeiro elo de ligação à cidade e às pessoas que nela vivem. Stevie torna-se depressa amiga de David, compatível ao máximo tendo em conta a sua propensão para a crítica cínica e para o humor inteligente. É Stevie que começa por mostrar aos mais jovens Rose que há pessoas com quem nos identificamos em qualquer lado, numa pequena cidade pacata ou numa enorme metrópole, e para lá de estratos sociais.

Esta primeira temporada permitiu pintar um quadro completo do que podemos esperar dos Rose, com várias pontas soltas a estimular  a curiosidade em relação à evolução dos seus comportamentos e idiossincraciais à medida que entramos no segundo ano da série.

TRAILER | T2 DE SCHITT’S CREEK NO TVCINE EMOTION

 

A 4 de março, e todas as quintas-feiras às 22h10, chegam ao TVCine Emotion novos episódios de “Schitt’s Creek”, com a exibição da segunda temporada. Os Rose prosseguem com as suas aventuras (e desventuras), que acompanhamos com interesse e as quais continuaremos a analisar. 

Schitt's Creek, primeira temporada em análise
Poster Schitt's Creek

Name: Schitt's Creek

Description: A história de uma família pouco comum, fora de seu habitat natural, e a forma como encara a sua nova realidade.

Author: Maggie Silva

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  • Maggie Silva - 85
85

CONCLUSÃO

Comédia de situação e exacerbada comédia de contrastes, “Schitt’s Creek” acontece na procura do equilíbrio entre o excesso e a contenção. Para lá do absurdo, há uma bela e humana narrativa familiar a descobrir.

Pros

  • As dinâmicas simbióticas entre todo o elenco.
  • A interpretação criativa de uma premissa comum.
  • A escrita inteligente encabeçada por Dan Levy, capaz de elevar todo o material.
  • Os muitos momentos em que vemos os Rose a tentarem assimilar o  que lhes acontece e as pequenas e por vezes ilógicas soluções hilariantes que encontram para melhorar a sua vida, num sólido esforço de comédia de situação.

Cons

  • Esta primeira temporada anda para a frente e para trás no que toca ao comportamento dos Rose, notando-se alguma volatilidade. Afinal estão a sofrer uma evolução positiva ou permanecem inalterados?
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Maggie Silva

Comunicadora de profissão e por natureza. Dependente de cultura pop, cinema indie e vítima da incessante necessidade de descobrir novas paixões. Campeã suprema do binge watch, sempre disposta a partilhar dois dedos de conversa sobre o último fenómeno a atacar o pequeno ou grande ecrã.

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