Ilha dos Pássaros | Sérgio da Costa e Maya Kosa em entrevista

Sérgio da Costa e Maya Kosa são os realizadores de Ilha dos Pássaros, um dos filmes mais introspectivos deste verão. Fomos falar com eles.

Nascidos na Suíça, Maya Kosa (Genebra, 1985) e Sérgio da Costa (Lausanne, 1984) são os cineastas luso-suíços por detrás de “Ilha dos Pássaros“, a obra maestra que estreia nas salas de cinema esta quinta-feira, 30 de junho. Depois de passar pelo Festival de Locarno em 2019, pela Competição Internacional do IndieLisboa em 2020 e também FID Marseille – Marseille International Film Festival, “Ilha dos Pássaros” chega finalmente às salas de cinema, para celebrar uma imersão na natureza. Este é um filme que vai despertar a atenção dos amantes do nosso mundo no seu estado puro e vai tocar o coração de um público aparentemente voltado para os efeitos especiais.

Em “Ilha dos Pássaros” somos confinados – no bom sentido da palavra – num mundo de aves selvagens. Será um santuário? Um local de isolamento? Um paraíso? “Ilha dos Pássaros” leva-nos para uma clínica veterinária ornitológica nos arredores de Genebra onde os pássaros podem recuperar e pouco a pouco, reencontrar as energias para regressar ao seu universo. Mas é também ali, perto ao aeroporto de Genebra, que encontramos um conjunto de indíviduos, porque são eles quem deve proporcionar alimento, bem-estar e as ferramentas necessárias para que aves possam voltar a abrir as asas e voar. Um trabalho de comunhão que é também uma partilha entre Homem e animal. Ambos são mostrados num mesmo patamar e é esta mensagem, tantas vezes mística e filosófica que os realizadores querem partilhar.

Ficámos tão interessados no filme “Ilha dos Pássaros“, que mistura documentário e ficção de uma maneira dificilmente identifável, que teríamos mesmo que conversar com os dois cineastas. Maya Kosa e Sérgio da Costa estão convencidos que este é uma obra com múltiplas linguagens, que aponta em diversas direções e que, sobretudo, dá atenção certa aos animais e aos seus cuidadores / criadores. Um retrato intimista que nos leva, indiretamente, numa viagem para um espaço que nos vai fazer parar para admirar a natureza e os seus microuniversos. Mas será “Ilha dos Pássaros” capaz de mudar a nossa visão sobre o mundo selvagem? O que poderemos fazer para salvar a natureza das alterações climáticas, da poluição sufocante e do consumismo tóxico de plásticos? Um retrato sincero, que Maya Kosa e Sérgio da Costa nos quiseram passar cuidadosamente na nossa entrevista.

Trailer | Ilha dos Pássaros

MHD: Porque consideram o mundo dos pássaros tão fascinante e como é que chegaram até este santuário?

Sérgio da Costa: A ideia que tivemos de fazer este filme surgiu de um certo fascínio que tenho pelo mundo dos pássaros. Lembro-me que quando estávamos a morar numa pequena casa, encontrámos um pássaro ferido no jardim e tivemos que levá-lo para algum sítio. Foi assim que chegámos ao centro de recuperação.

Ao mesmo tempo, quando encontrei o pássaro fiquei muito curioso, porque comecei a pesquisar para saber que espécie de ave era e quais os seus comportamentos. Comecei a olhar para os pássaros no jardim, aqueles em meu redor, e comecei a vê-los de uma maneira nova. Existem tantas espécies de pássaros, com tantos comportamentos e com tantas maneiras de ser que fiquei agarrado. Comecei a pensar em muita coisa e percebi que este mundo é uma ciência sem fim, na qual há muita coisa por descobrir.

Maya Kosa: Com a experiência que tivemos nesta casa, percebemos que o jardim estava relativamente abandonado, sendo o lugar perfeito para os pássaros se esconderem. Ali poderiam criar uma vida mais protegida da cidade, mas dentro da própria cidade.

Ilha dos Pássaros
Ilha dos Pássaros © Desforra Apache

MHD: O vosso filme é muito ecológico nesse sentido. Acham que um espectador de uma grande cidade conseguirá entrar neste pequeno refúgio que decidiram mostrar?

Maya Kosa: Eu acho que nós suíços temos uma ligação muito próxima com a natureza, com as montanhas e rios. Em Genebra existe o rio Ródano, onde a água não é poluída, podemos nadar e mesmo que seja uma grande cidade, já existe esta possibilidade de se ligar com a natureza. Espero que as pessoas ao verem o nosso filme, possam refletir sobre como tem sido a experiência do Homem na natureza. Em “Ilha dos Pássaros” mostramos que todos estamos interligados. Não devemos esquecer isso. Todas as espécies fazem parte dessa cadeia. Tentámos colocar o Homem no seu lugar e não num plano superior. O Homem tem vindo a afastar-se da natureza e estamos a ver que isso não funciona, que pode até ser perigoso.

Sérgio da Costa: Quando tivemos a ideia do filme não tínhamos esse propósito ou mensagem ecológica muito definida. Ao estarmos no centro de recuperação surgiu essa sensibilidade, que cresce ao longo do filme. Nós não somos especialistas nesta questão e quisemos ter uma abordagem mais metafórica. Queríamos colocar o espectador a questionar-se sobre a relação entre o Homem e o animal, de como se poderão salvar espécies ao matar outras, seguindo apenas a cadeia alimentar. Preferimos não ter essa mensagem tão vincada e queríamos que o espectador fosse levado até aquele lugar, ao nível sensorial.

Maya Kosa: Espero que durante o filme, o espectador faça mesmo essa experiência. Embora possa nunca ter vivido perto daquele centro de recuperação, que pelo menos sinta alguma coisa. A verdade é que as aves estão em perigo e estão a desaparecer em massa, mesmo aquelas mais comuns que nos rodeiam. Quisemos partilhar uma certa angústia, sentimento do qual podem surgir perguntas.

Ilha dos Pássaros
© Desforra Apache

MHD: Como descreveriam o trabalho com o ator Antonin Ivanidze? Como é que o conheceram?

Maya Kosa: O ator Antonin Ivanidze não tem nada a ver com lugar que mostrámos. Estudámos na mesma escola de cinema e quando o Sérgio estava a desenvolver este filme, senti que faltava algo. Faltava um elemento através do qual descobriríamos o lugar. Não queria fazer um documentário onde mostrávamos apenas o centro de recuperação e quis criar uma narrativa a partir de alguém que não conhece nada sobre este sítio, que o vai descobrir à medida que o filme se desenrola. Com os olhos novos que não são os olhos de quem lá trabalha.

Escolhemos o Antonin Ivanidze porque gostamos da maneira como se mostra sensível e atento ao que lhe rodeia. Ele é uma espécie de esponja, que analisa e absorve tudo o que acontece e, no filme, acaba por impactar emocionalmente o espectador. O documentário e a ficção em “Ilha dos Pássaros” não são muito fixos. Tentamos encontrar pontos de ligação entre a biografia do verdadeiro Antonin (o ator) e o lugar, o centro de recuperação das aves. Neste sentido a doença do Antonin (o ator) ecoa com as doenças/o sofrimento dos pássaros. Mesmo que a personagem principal é ficcional, o filme tenta fazer um retrato documentário do ator, na ideia de criar um sentimento de realidade dentro de um mecanismo ficcional.

MHD: E também temos a voz-off, não é assim?

Maya Kosa: A história da voz-off em “Ilha dos Pássaros” é muito particular. O Antonin Ivanidze fez realmente a formação no centro de recuperação e a aprendizagem de todas as etapas é documental. Tentámos captar coisas genuínas ao longo do processo que demorou cerca de 1 mês. O Antonin tinha com ele um diário, onde anotava tudo o que lhe passava durante o dia. Nunca olhámos para este diário até ao momento da montagem, quando percebemos que poderíamos utilizar alguma coisa. Na sua escrita chegou a ir em direções totalmente opostas ao filme, mas havia também esse trabalho de limpeza a fazer. A sua voz-off acaba por estruturar “Ilha dos Pássaros” e são os momentos mais poéticos. A voz-off foi escrita por nos porque era preciso escrever um texto que estruturasse o filme, que acompanhasse a narrativa presente nas imagens.  O contributo do Antonin, na voz-off, é pontual, ou seja, nos usamos algumas impressões descritas no diário dele, que incluimos a voz-off.

Ilha dos Pássaros
Os ensinamentos de Antonin no centro de recuperação © Desforra Apache

MHD: Poderiam contar um pouco sobre a rotina de filmagens de Ilha dos Pássaros? Quanto tempo durou a rodagem?

Sérgio da Costa: Rodámos o filme durante 7 semanas e meia. A rodagem foi dividida em duas partes, sendo que a primeira teve duração de 3 semanas. Essa foi a parte mais documental, de uma certa capturação técnica, porque filmámos as atividades do centro de recuperação. Ficámos a acompanhar a veterinária para perceber quais eram os tratamentos utilizados para tratar as aves.

A segunda parte tardou 4 semanas e foi aí que entrou o Antonin. Foi ter connosco e a rodagem foi  totalmente ficcional, porque tivemos que encaixar as suas cenas de aprendizagem com o Paul, um dos técnicos do centro. Como ator, finge que está a fazer uma formação no lugar onde se criam ratos para as aves de rapina. Tivemos que ter em atenção aos diálogos que tinha que decorar, à forma como o protagonista se aproximava do Paul e que tipos de perguntas poderia fazer. Mas ao mesmo tempo, os gestos dele são documentários. Dentro da máquina ficcional, mais uma vez, ele vai realmente aprender a cuidar dos ratos pela primeira vez. Quanto A cena do aeroporto, por exemplo, demorou dois dias a ser rodada, porque exigiu obviamente uma logística diferente, que mais dificilmente se conseguia improvisar.

MHD: E por falar em logística… Quão diferente é o panorama cinematográfico português do cinema que é feito na Suíça?

Maya Kosa: Na Suíça, o cinema germânico-suíço é muito mais próxima da Alemanha, o cinema franco-suíço é muito mais próximo à França. Acho que existe essa partilha, também porque Paris é muito próxima de Genebra. Isso é marcante não só no cinema. Estamos muito divididos culturalmente e isso ajuda a criar uma multiplicidade no cinema suíço. O cinema suíço mais próximo ao da Alemanha arrisca menos, é mais financiado, é mais polido. Um cinema franco-suíço consegue explorar mais. Talvez aqui conecte-se com o cinema português. Mesmo com apoios mais limitados consegue abrir novos caminhos.

Ilha dos Pássaros
Veterinária e assistente cuidam de uma ave © Desforra Apache

Sérgio da Costa: Acho que em Portugal existe uma preferência por um cinema narrativo, mesmo que existam cineastas que gostem de explorar mais como a Teresa Villaverde ou o Pedro Costa. Portugal e Suíça são semelhantes no sentido em que não existe muito orçamento para fazer cinema. O orçamento disponível é praticamente para grandes eventos e não para a produção de filmes.

Maya Kosa: Existe mais dinheiro na Suíça para os realizadores do que em Portugal. A situação dos cineastas emergentes é muito mais fácil na Suíça do que em Portugal.

MHD: Que filmes e cineastas influenciam a vossa linguagem em “Ilha dos Pássaros”?

Sérgio da Costa: Além do cinema fomos muito influenciados pela poesia haiku, com as frases curtas, que de certa forma definiram a estrutura das cenas de “Ilha dos Pássaros“. Acho que tem um poder evocativo muito forte, mesmo com pouca informação. Com três frases podes dizer coisas muito concretas e consegues apontar para algo maior.

Maya Kosa: Fui influenciada pelo escritor suíço Robert Walser, que utiliza uma descrição muito particular para personagens próximas ao Antonin. Esse jovem marginal, um pouco perdido, que não trabalha nem estuda e está à procura do seu lugar no mundo. Os romances de Walser são diferentes, porque o personagem não evolui tanto, pois não tenta ir além de si próprio. É uma personagem que continuará frágil, mas essa fragilidade não precisa ser vista pelo seu lado negativo. No mundo não existe espaço para fragilidade, mas ela pode trazer alguma coisa. Acredito que um ser frágil está mais disponível, está mais aberto para os outros.

Sérgio da Costa: Como foi o nosso primeiro filme 100% suíço, tentámos pesquisar e envolver-nos o tipo de herança que poderíamos ter. De textos, à pintura mais clássico. E acredito que essa inspiração foi no sentido mais abstrato, porque não é tão perceptível em “Ilha dos Pássaros“. A nível do cinema acho que fomos influenciados pelo filme  “O Diário de um Pároco de Aldeia” (1951), de Robert Bresson simplesmente na forma como a narrativa se estrutura com base num diário. Temos aqui uma personagem estranha, diferente, que vai entrar num mundo por si desconhecido e tentar adaptar-se. Até que descobre o novo lugar não é tão acolhedor como possa pensar.

Ilha dos Pássaros estreia na próxima quinta-feira, 30 de junho, nas salas de cinema. O Diário de um Pároco de Aldeia está disponível na Netflix.

Virgílio Jesus

Era uma vez em...Portugal um amante de filmes de Hollywood (e sobre Hollywood). Jornalista e editor de conteúdos digitais em diferentes meios nacionais e internacionais, é um dos especialistas na temporada de prémios da MHD, adepto de todas as formas e loucuras fílmicas, e que está sempre pronto para dois (ou muitos mais!) dedos de conversa com várias personalidades do mundo do entretenimento.

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