10 filmes esquecidos pelos Óscares | Sete Minutos Depois da Meia-Noite

A dor da perda ganha formas de expressão verdadeiramente mágicas e lacerantes em Sete Minutos Depois da Meia-Noite do cineasta espanhol J.A. Bayona.

 


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Sete Minutos Depois da Meia-Noite

Seguindo a qualidade juvenil do filme da página anterior, encontramo-nos mais uma vez a explorar um filme completamente ignorado pelos Óscares sobre o crescimento de um rapaz a passar pela difícil etapa da adolescência. A grande diferença é que Sing Street era uma comédia dramática avivada por uma estrondosa banda-sonora baseada no rock dos anos 80, enquanto Sete Minutos Depois da Meia-Noite é algo mais próximo de uma tragédia ou um retrato lancinante sobre o modo como um rapaz lida com a inevitável morte da sua mãe. Uma figura maternal que é a única familiar, talvez a única pessoa, com que o rapaz tem algum tipo de confiança e ligação íntima. Ou seja, estamos bem longe de um filme “feel-good”.

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No entanto, também estamos longe de uma obra de austero miserabilismo pois, ao trancar a narrativa na perspetiva sonhadora do seu protagonista, o realizador J.A. Bayona e o escritor Patrick Ness injetaram uma boa dose de fantasia escapista e realismo mágico por entre todo o sofrimento lacrimoso. Isto resulta num filme que acompanha o processo psicológico pelo qual o jovem Conor encara a perda, ao mesmo tempo que vai saltando para sequências de pura fantasia protagonizados por um gigante monstruoso, qual árvore tornada divindade pagã, onde perscrutamos os confins mais sombrios e honestamente violentos da mente do rapaz em sofrimento.

Sete Minutos Depois da Meia-Noite

Aquando da sua estreia, duas reações comuns caracterizaram a apreciação popular e crítica de Sete Minutos Depois da Meia-Noite. Primeiro, este é um filme que nos faz chorar e chorar como quase nenhum outro no ano cinematográfico. Em segundo, o filme é infinitamente mais negro e psicologicamente acídico do que muitas pessoas tinham julgado, presumindo que este era mais um filme para crianças sem ambições de complexidade ou nuance. Ambas as reações são amplamente justificadas, mas gostaríamos de sublinhar algo muito importante. Por muito que, ocasionalmente, a história se embrenhe em momentos de descarada manipulação emocional, o efeito catártico da experiência em geral e os momentos de genuína dor mais do que compensam qualquer forçoso mecanismo sentimental.

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O principal culpado pelo modo como a obra transcende os seus jogos mais manipuladores é, sem dúvida, o jovem ator escocês Lewis MacDougall e a estonteante prestação que ele dá ao encarnar a personagem. Nas suas mãos, Conor não é um simples miúdo introvertido típico de Hollywood, aquele tipo de arquétipo vácuo que acaba sempre por ser muito apelativo, mas sim uma pessoa realmente anti-social, agressiva e perturbadora. É fácil perceber como Conor se tornou um ostracizado na sua escola, tal como é fácil entender as raízes psicológicas do seu venenoso isolamento, sem que o ator ou o filme caiam em nenhum tipo de condescendências ofensivas. De facto, as instâncias em que o comportamento de Conor se revela verdadeiramente difícil de defender, são quando MacDougall mais brilha, encarnando o que é, essencialmente, uma ferida aberta em forma humana, vibrando com tanta dor latente como raiva contra todo o mundo e todos o que o rodeiam.

Sete Minutos Depois da Meia-Noite

Felicity Jones, como  mãe de Conor, e Sigourney Weaver, como sua avó distante e fria, também têm desempenhos admiráveis, apesar do catastrófico sotaque inglês de Weaver, mas ninguém consegue eclipsar a supernova emocional que é Lewis MacDougall. Aquando do tortuoso clímax de Sete Minutos Depois da Meia-Noite, onde um pesadelo recorrente é estendido até se tornar numa provação ou martírio Dantiano, a sua construção de personagem está tão forte que é impossível não sentirmos calafrios à medida que uma confissão é flagelada para fora da sua boca. Crédito há que também ser dado ao seu parceiro de cena, a voz do inigualável Liam Neeson como o monstro, cuja falta de açucarada sentimentalidade é uma surpresa muito apreciada.

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Para além de tudo o mais, e o elenco e desempenhos são elementos de peso há que admitir, a construção visual do filme também impõe respeito. Especialmente a sua cenografia, sempre um pouco removida da realidade visceral e com um pé assente no sonho meio gótico, e a inspirada mistura de animação e efeitos especiais. Este último aspeto é de particular génio, tornando os estilos de pintura e desenho de mãe e filho numa ferramenta para visualizar as histórias contadas pelo monstro e, por consequência, as cenas em que a fantasia toma posse do filme e torna, por exemplo, um ato de vandalismo doméstico numa épica expressão de raiva reprimida a explodir no meio do punitivo clímax de um conto-de-fadas moralista.

Sete Minutos Depois da Meia-Noite

 


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Apesar da sua relativa qualidade e explosivo impacto emocional, a Academia ignorou Sete Minutos Depois da Meia-Noite em todas as categorias, mesmo algumas consideradas menores como cenografia e efeitos visuais.

Cláudio Alves

Licenciado em Teatro, ramo Design de Cena, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Ocasional figurinista, apaixonado por escrita e desenho. Um cinéfilo devoto que participou no Young Critics Workshop do Festival de Cinema de Gante em 2016. Já teve textos publicados também no blogue da FILMIN e na publicação belga Photogénie.

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